segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O tempo, o que queremos e o que fazemos dele

Ker-Xavier Roussel - Les Saisons de la vie, 1892
Hoje reli A Cartomante, e sinto ter pensado nessa história por algum motivo na metade do caminho entre casa de papai e trabalho. Aqueles pensamentos que aparecem do nada em nossa cabeça como o demônio Pazuzu em O Exorcista, ou as propagandas da Jequiti no SBT.

Mas não foi por apenas ter me lembrado de Machado de Assis que reli essa história - que adoro. Foi porque me sentei no ônibus ao lado de um senhor muito atrevido (não uso esta palavra nem no bom, nem no mau sentido).

Pois atreveu-se a interromper minhas músicas e comentar sobre o sol extremamente quente, que ele é feirante e aguenta, tudo bem. Falou de vitamina D e não ouvi, ordenou que eu tirasse o último fone de ouvido que restava. Mas não era a música que me impedia de ouvir, e sim que ele falava muito baixo (ou estou perdendo a audição). Perguntou meu nome, eu disse e ele comentou de uma rainha Helen cristã grega do século XV a.C. (seria a mulher de Menelau e amante de Paris?). "Quem me vê não dá nada por mim", disse e comentou sua religião e que até lia mãos.

Olha, eu sou bem laica quanto a religião dos outros (e a minha própria, sou católica mas nem pareço), então a questão não é sobre acreditar ou não, ou o que é certo e o que é errado. Então ouvi muito educadamente o que ele tinha a dizer sobre minha mão esquerda, e desci em meu ponto habitual, agradecendo a conversa. Experiências, uma das graças da vida.

Não vou dizer o que ele me disse, nem sobre quem. Mas me incomodou o que ele disse no sentido que explico a seguir, e que tem a ver com várias coisas no passado que me fazem pensar a vida, o universo e tudo mais.

Detesto saber do futuro. Fico ansiosa para que ele chegue, claro. Fico muito nervosa para saber o que vai acontecer sobre coisas e pessoas que quero muito bem e que quero por perto. Até passo vergonhas por conta disso, mas prefiro toda a minha angústia do que saber o que acontecerá. Até porque odeio definições vai acontecer isso, as coisas são assim, sempre foram, sempre serão. Me diga isso e lutarei com a vida para provar-te o contrário. Meu destino sou eu.

Ontem infelizmente a televisão estava ligada e tive que assistir o fantástico. Pois me apareceu um robô com inteligência artificial, e querem saber? Eu acho isso uma merda. Com o r mais arrastado que possuo de meu quase paraibanismo, eu acho isso uma m-e-r-d-a. Dez minutos de entrevista com cientistas, com o próprio robô, sobre a possibilidade de se viver duzentos anos e tomar injeções que renovem seu DNA, e como não será preciso tentar ser saudável se alimentando daquilo que a terra dá, e eu gritando dentro de minha cabeça DISTOPIA!

Deus me livre de eu viver no Admirável mundo novo. De viver duzentos anos. De ser fisica ou mentalmente eterna. Quero, sim, ser eterna: em minhas palavras, em meus estudos, em meus aprendizados, ensinamentos, bens materiais relativos a meu trabalho e sentimentos. Mas nunca quero viver para sempre. Nunca quero viver duzentos anos. O caminho da vida é a morte. E o homem busca se artificializar. Acho isso horrível. Não compreendo o dinheiro gasto com essas pesquisas. Nem com a possibilidade de se mexer em um feto para evitar certas coisas que podem nascer com ele. Porque compreendo más formações etc., mas bem sabemos que quem tem dinheiro tem poder, e se quiserem mexer num feto para mudar cor de olhos, de corpo, textura de cabelo, data de nascimento, capacidade cerebral, tudo pode acontecer. Essa parte do feto foi discussão levantada em um grupo de filosofia sobre ética.

Pois bem. Também tenho horror a máquinas do tempo. Viajar para passado ou futuro. Isso acaba com a história. Você voltar fisicamente ao passado e mudar uma cena é como derrubar uma peça de dominó em uma fileira. Criança adoraria viajar no tempo e eu só digo "que horrível!", e comento, para reflexão, sobre a cena do De Volta para o Futuro, onde Marty McFly passa a sumir da fotografia da família junto dos irmãos porque impediu, quando estando no passado, o encontro e apaixonamento de seus pais. É pesado. Claro que o mundo muitas vezes é uma bosta, mas poderia ser pior. Melhor também, mas a história é o que se ajeita aqui se bagunça ali, e assim caminha a humanidade.


oh no
Então, respeito a leitura aleatória e quase impositiva da minha mão. Mas o que faço com as informações obtidas é escolha minha, não posso julgar ninguém previamente, evitar situações porque alguém me alertou de algo muito antes de acontecer, nem ficar com isso em mente e tomar decisões a partir disso. Camilo acreditou piamente (porque queria acreditar) que estava tudo bem, porque assim disse A Cartomante. Aconselho a leitura aqui, no domínio público. São 8 páginas, para quem se importa tanto assim com quantidade de texto. Há também a maldição de Laio, pai de Édipo. Prefiro não saber e decidir o que tiver que decidir em seu devido tempo. É como signos, acredito, mas não sigo o horóscopo do dia, porque não se trata disso. Nem vivo em função disso. Não é questão de acreditar ou não naquele senhor, ou dizer que ele está errado. Até porque ele não disse para eu fazer nada. É mais dizer o que faço a partir desse ponto. E que vou fechar minhas mãos sempre que andar próxima a alguém que queira puxar assunto.

Mentira nem to com raiva, mas o Bruce Lee é lindo

“rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo”
Não posso dizer que concordo ipsis litteris pois ainda estou lendo, porém esse livro é maravilhoso. E escrito numa velocidade que considero a minha de ser.

P.S.: esse post nada tem a ver com Dr. Who. A série, por mais que não assista, é legal. E a cena do Van Gogh makes me cry (e o ator é lindo).


o modezu
P.S. 2: amo buracos negros, de minhoca, física quântica. Me indiquem textos e vídeos sobre. Adoro ficção científica também, nada me impede. Como disse, meu destino sou eu, e nesse caso meus gostos também, obviamente.

P.S. 3: falei de fones de ouvido, e de Laio. Me veio em mente esta música. Coincidência? Acho que não.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Ainda tenho em mim todo o sentimento do mundo

Henri de Toulouse-Lautrec - The Hangover (Suzanne Valadon), 1888.
Achei que não gostava de poesia. Achei que odiava poesia. Mas conheci Neruda. Conheci Pessoa. Até aí tudo bem. Contudo, conheci Leminski e pensei: "nossa, que cara chato".

Então tem o Graciliano. Nordestino como meus pais, tios e avós. E o alagoano que se filiou ao PCB há 72 anos disse em suas Memórias do cárcere:
Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões.
Essa frase desse não-poeta está tatuada em minha alma. Porque sou e estou apaixonada, todos os dias, no bom e no mau sentido da palavra. No sentido de Camões.

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?


E parece-me que a poesia só surte efeito quando você está dentro dela, vivendo-a, com o peito rasgado, ferido, e a cabeça quente, fervendo, derretendo, escurecendo as vistas.

Então hoje (23 de agosto) o almoço na fundação para a qual trabalho foi temático. As crianças assistidas pela fundação, e em parte pelo museu da fundação (sou mais ou menos professora, quando nunca, depois de grande, quis ser, e ainda bem que bebi dessa água que não beberia), fizeram trabalhos comoventes sobre a região Sul do país. A comida também fazia questão de lembrar o cotidiano sulista, talvez com estereótipos, mas pulemos a parte da comida do corpo direto para a comida da alma:

Estava lá, aquele que eu não aguentava mais ver estampado em páginas hipsters do facebook com seus versos burgueses paulistas mal feitos (da página, no caso, e não o artista em si), o tal do Paulo. Não só ele, mas a adaptação de sua obra em obras dos meus pequenos - que na verdade são mais altos que eu, no auge dos seus 13 anos. Além disso, seus versos, suas visões de mundo em poucas palavras, que eu, com tantas palavras ainda consigo conservar o meu silêncio e ser um mistério para mim mesma.

Releituras dos jovens

Reclamei aqui algumas vezes sobre minha dificuldade cada vez maior de expor sentimentos, que acontecia na mesma proporção em que me era cada vez mais fácil expor ideias. Um amigo disse que é porque na adolescência a gente só sabe dizer o que sente, porque só sente e pouco faz, profissionalmente falando. Na maturidade ocorre o contrário: nos dedicamos ao profissional e o sentimental vai enrijecendo, como uma máquina velha, deixada no canto para oxidar e criar teias.

Como sou uma pessoa carregada de memórias e nostalgia, e o afeto que sinto germina por essas vias, consegui reviver pedaços gostosos e dolorosos em mim neste último mês. Por ter estado apática nos últimos anos, essa re-vida foi algo apocalíptico como o Eclipse do Lado Escuro da Lua. Agora parece que abri o peito novamente, depois de um tempo mergulhado na racionalidade e nos sentimentos de rancor, culpa e pena. Por falta de costume, estou sem jeito, dolorida, cansada, desesperada, e cinco minutos depois estou serelepe, sorrindo, gargalhando - de euforia e desespero -, choramingando (porque não consigo mais - ainda - chorar direito {parece que consigo sim, de soluçar, aconteceu}), pensando, suspirando, falando sozinha.

Tanto pedi e busquei ter o coração batendo forte por tudo que faço e que me é caro, para me sentir viva, que me veio retumbar no peito algo além de minha capacidade física, algo que não cabe em 1,57 de altura, nem mesmo numa mente que se ocupa dezessete horas por dia.
Mesmo que me aperte essa sensação sem nome
Ou que me faça engolir a seco a minha sede é de...