um velho mundo

devaneios repletos de referências e inúmeras playlists, porque a graça da vida é essa

eternamente grávida de ideias

Helen: eu gosto de escrever. Mas acho brega perfil em 3ª pessoa. Porque eu sou eu. Tenho 27, me divido entre São Paulo e Paraíba, presente e passado. Gosto de ler, ouvir, assistir. E cito tudo o que conheci em conversas e apresentações, mesmo que aparentemente não faça sentido.

18.10.19

Requiem

Fonte: Mestre Julio Santos e a arte da fotopintura. Entrelinha blog
A memória, quando falha, transforma as lembranças no cenário enevoado dos sonhos.

Por muito tempo ela se mostra resistente, faz pose de inteira, inabalável. Mas, quando acessada, deixa escapar o roto de seu tecido, os furos em sua trama, os vincos, os desfiados.

Como que para se desculpar, nos presenteia com sedutores momentos injetados, falsos, fingidos. É a imaginação.

Como é não se lembrar?

É, de repente, não sentir mais o sabor. Tentar forçar a lembrança do cheiro, mas só conseguir uma dorzinha de cabeça. É ter dúvida do som. É olhar uma fotografia com feição de espanto, surpresa, ou curiosidade. Ou, tudo isso junto, mais certa dor de saudade. Mas saudade do que, que não me lembro? Talvez não saudade, mas pena. Não, pena não, esse sentimento indigno, mas pesar.
Almeida Junior - Saudade, 1899
Apesar dos pesares, vivemos aquele momento em algum lugar do passado. Ervas daninhas já se apossaram da trilha da lembrança desses momentos. Tudo é mato, raiz, pedra. Sem rastros.

Vivemos. Mas é como se não tivéssemos vivido. É o oposto perfeito de "sinto saudades daquilo que não vivi". Gael García Bernal, em Diários de motocicleta, se questiona: "como posso sentir nostalgia por um mundo que não conheci?".
Walter Salles - Diários de motocicleta, 2004
E nós, como podemos sentir nostalgia por algo que vivemos, mas que tem se deteriorado como uma velha fotografia? O que preservaremos? Como comprovaremos, para nós mesmos, a existência de algo que nem a imaginação consegue dar conta?

Uma história morre para sempre a partir do momento em que é contada, ou mesmo relembrada, pela última vez.
Lacrymosa, dies illa,
Qua resurget ex favilla.
Judicandus homo reus:
Huic ergo parce, Deus.
Pie Jesu Domine,
Dona eis requiem.
Amen.