um velho mundo

devaneios repletos de referências e inúmeras playlists, porque a graça da vida é essa

eternamente grávida de ideias

Helen: eu gosto de escrever. Mas acho brega perfil em 3ª pessoa. Porque eu sou eu. Tenho quase 27, me divido entre São Paulo e Paraíba, presente e passado. Gosto de ler, ouvir, assistir. E cito tudo o que conheci em conversas e apresentações, mesmo que aparentemente não faça sentido.
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22 de jun de 2019

2011

feat. mystic jupiter resources
Apresentação
Death seed, blind man's greed
Poets' starving, children bleed
Nothing he's got he really needs
Twenty first century schizoid man

Há alguns dias estou com vontade de escrever, mas nunca sei o quê. Não basta abrir o editor, ter um tema, ter rascunhos. Por exemplo, estive extremamente inspirada no dia 29 ou 30 de maio, escrevi duas laudas do word no celular no caminho para o trabalho [!] fotografando o caminho inteiro. Um texto super profundo e sensorial. Diz se eu postei aqui? Nem nos rascunhos. Está lá, inacabado. Porque comigo as coisas funcionam na hora, já percebi. Acho mentiroso programar datas para o que estou sentindo hoje. Agora.

Então eu estava hoje (seg, 10 jun.) lendo no twitter as consequências dos textos do The Intercept - que li ontem comendo pipoca, e não foi proposital -, quando fui procurar um fulano pernambucano que foi homofóbico com o Greenwald né. Daí vi que ele escreve para a Revista Continente (que eu adoro, muito bem feita), e fui rever a linha de raciocínio que a revista segue.

De repente, e não mais que de repente: uma notícia de que Ave Sangria havia voltado!

A notícia explica a biografia da banda, que tem uma extensa discografia de 01 (hum) disco só. Por que? Porque saiu em 1974 e a ditadura deu umas barradas, em capa e canções, então esses pernambucanos maravilhosos ficaram mais de 40 anos sem lançar mais nada. Até que, depois de um evento bem sucedido, decidiram voltar. Agora a banda já não é a mesma da década de 1970, pois três de seus integrantes alçaram seu voo de ave para o outro plano. Mas eles tinham um material em fita, que foi pensado, selecionado, e postado. Eu gostei bastante. Não é como o primeiro disco, e nem poderia, já que infelizmente não estamos mais na década de 1970. Mas a essência é a mesma.

Fui compartilhar no twitter, e lembrei que estava conversando esses dias sobre minha saudade do twitter de 2011. Já devo ter comentado esse tipo de nostalgia por aqui, sobre blogs, sobre vida, sobre qualquer coisa. Talvez a maior motivação de todas para eu me tornar historiadora foi ser um ser intrinsecamente nostálgico. É da minha natureza e ponto final. Comentei na rede que 2011, até então, foi o clímax do filme que é minha vida. É aquele sonho que a gente vê nos filmes, a pessoa com a luz da manhã batendo no rosto e as árvores passando rápido pela janela do ônibus.

Prelúdio
I walk a road, horizons change
The tournament's begun
The purple piper plays his tune,
The choir softly sing

Isto é, inclusive, minha maior lembrança desse período. Foi um ano assim: seis meses de tristeza porque "eu, a CDF", não havia entrado direto na universidade. Então, foi um semestre sabático, onde assisti pela primeira vez a história de Ernesto Guevara de la Serna, numa visão brasileira e num corpo mexicano de Gael García Bernal. Assisti, depois ou antes, vários outros filmes de Gael, como Y tu mamá tambien, Amores perros, e o inesquecível La mala educación, que foi minha primeira experiência With a Little Help from My Friends, ao som de Quizás, quizás, quizás. 

Nesse período eu lia muito sobre ufologia, civilizações que não existem mais. E ficava pirada na conspiração, querendo estudar história para escrever tudo diferente. Sobre os astros, as estrelas, os jovens que não se manifestavam mais (bons tempos aqueles em que eu achava que ninguém fazia nada - fazer, fazia, eu que não sabia -, muito antes do maldito 13 de junho de 2013), as bandas e músicos maravilhosos do mundo que ninguém comentava... Eu queria evangelizar¹ toda a humanidade sobre, não o "bom gosto" que eu tinha - por mais que eu ainda fosse bem arrogante -, mas sobre as maravilhas do mundo. Foi a mesma época em que mergulhei na psicodelia floydiana, dos tempos do Barrett ainda. Foi assim que conheci a Jéssica. A Lua (ou Luna, já esqueci), o @cogumeloprofeta que infelizmente sumiu. O Eduardo. O meu primeiro namorado, quando ainda era hippie e não Olavista... E eu me achava o máximo por me encaixar nas músicas de 48 minutos, e entendê-las tão clara e limpidamente como água cristalina.

Até hoje tenho planos não concluídos de "escrever diferente", sobre as "maravilhas do mundo". Que são, de fato, maravilhas do mundo: do meu mundo. Porque uma frase também em voga nos meus textos daquela época, Raulseixista e latinoamericanista que sou, é aquela "cada persona es un mundo", ou "cada um de nós é um universo, Pedro". E de fato é isso mesmo, né? O mundo que enxergamos é tão particular que não pode ser o mundo tal qual ele é, já que ninguém o apreende por completo, senão apenas por uma face do grande prisma interpretativo, coisa que implica justamente em "a história absoluta e verdadeira não existe", apenas fragmentos, vestígios de um passado inacessível em termos práticos. Nossa própria memória, aprendi com a Sandra Colucci, conforme o tempo passa, já é preenchida pela imaginação sobre a lembrança, pois a própria lembrança se esvai e nosso cérebro cria trechos para essas lacunas, e é por isso que tudo no passado é tão nostálgico, bonito, em Super 8: porque é invenção nossa de algo que não volta mais, e essa invenção toda faz esse algo passado mais bonito e mais querido que o presente sofrido e conflituoso.
Infelizmente não encontrei a foto do buraco triangular da porta. Mas viajei no tempo dos arquivos de backup.

Interlúdio
She's a moonchild
Gathering the flowers in a garden
Lovely moonchild
Drifting in the echoes of the hours

Depois dessas ponderações, veio o mais importante daquele ano: os documentos aprovados da bolsa do ProUni e a minha matrícula na finda Universidade Camilo Castelo Branco. Foi, com certeza, o melhor período da minha vida até agora. Tudo tinha cara de 9 horas da manhã: o terminal de ônibus, o café com leite e o pão na chapa do Márcio, a Avenida e o parquinho onde dei meu primeiro beijo de namorada de alguém, as janelas manchadas, as salas com portas brancas que possuíam buracos triangulares e eu brincava que era o prisma do The Dark side of the moon, os corredores iguais a cada andar, e as portas que dividiam universidade e colégio, que davam uma sensação gostosa de labirinto. As salas de aula com carteiras velhas, porém não tão desconfortáveis como as da PUC, a lousa de giz e o palco que cada sala tinha, onde o professor Fernando fazia um barulhão andando daqui para ali falando dos sans-culottes. Até o ódio que eu sentia pelos colegas de classe era algo saudável e natural, passageiro. Tudo ali fazia sentido. Porque era como se eu estivesse numa pintura ou num filme conceitual, onde cada cena e objeto estranho tinham seu papel e seu motivo de estarem ali.
Foi tempo do meu primeiro emprego (e não estágio); meu primeiro choque com a vida adulta, quando percebi que os adultos são tão ou mais incompetentes que os jovens que eles tanto oprimem e reprimem. Tudo corria bem, de alguma forma. Eu comprava livros de filosofia que até hoje não li, tirava xérox dos textos que marquei bastante e não me lembro mais, mas guardo com a desculpa que vou reler um dia.

Pósludio

Knowledges are a deadly friend
If no one sets the rules
The fate of all mankind I see
Is in the hands of fools

Eu tenho uma teoria, e falo isso agora, dia 15, ouvindo In the court of the Crimson King, do King Crimson (finalmente esses putos disponibilizaram o streaming dessa obra de arte): a vida é como um disco de vinil, ou uma fita K7 (qualquer mídia que tenha Lado A e Lado B); a obra começa maravilhosa e promissora, tem seu ápice lá pela quarta ou quinta canção, e depois descamba em melancolia e desespero, até um fim avassalador, tranquilo ou seco. Pelo menos assim costuma ser nos discos conceituais progressivos, favor ouvir The Dark side of the moon, Selling England by the pound, The Wall, Animals... É tudo assim. Vida e morte. Um rompante e uma tristeza. Ascensão e queda. Bem como funciona a euforia e a falta dela. From Genesis to Revelations.

O twitter também fez parte desse momento único: a timeline era pura psicodelia e progressivismo. Saudade de um período desmoralizado, por mais que bem menos politizado. Não sufocava esse liquidismo desta pré década de 20. Esses padrões estabelecidos, desmontados e recriados como um espelho. Você tem que viver bem, feliz, ticando sua checklist, saindo fora de relacionamentos porque aparentemente lidar com ser humano é sempre uma explosão de Chernobyl. Reciclando, mesmo que as grandes multinacionais é que estão acabando com o planeta. Capitalismo: o sempre inimigo nº 1. O mundo está uma bagunça e os debates acalorados são tantos e sobre tantas coisas, que toda a beleza da manhã que era 2011 tornou-se um engarrafamento poluído e barulhento, desarmônico, exato oposto das músicas de 48 minutos. O hippie votou no capitão da reserva, a @cogumeloprofeta fechou a conta, a Universidade Camilo Castelo Branco faliu e foi vendida para uma empresa parceira da CBF e do Flamengo, o professor Fernando se mudou para Tocantins, eu mal me lembro das disciplinas, odeio outras pessoas, um ódio agressivo e que me dá azia mental. Eu queria que meu lado B fosse Echoes, porque em Meddle o melhor lado é o B. Mas parece que não. O que me resta é o bom disco do Ave Sangria, que não é ótimo, porque é um vestígio do passado misturado com este presente, mas ainda bom, ainda um alívio. E eu não posso deixar de (e sempre quero) terminar esse texto com a voz do Richard Wright
Every year is getting shorter
Never seem to find the time
Plans that either come to naught
Or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the english way
The time has gone, the song is over
Thought I'd something more to say

1. Engraçado é que quinta-feira 13 foi o dia em que a palavra evangelização estava em todos os lugares: no Museu, na terapia, na Paróquia de N. S. Achiropita. Para os desinformados, evangelizar significa "trazer a boa nova". Não necessariamente se aplica a religião.
* Texto terminado em 16 jun. 2019 01:06.