1 de dez de 2017

Onde eu estava quando Belchior morreu: prelúdio para um tcc

Dia 28 de abril eu tive um sonho - sim, mais um - estranho, já começa por aí.

Escola Normal Caetano de Campos
Estava andando pela cidade à noite, e passava por um edifício que se assemelhava muito à Escola Normal Caetano de Campos, da Praça da República. Era um pouco mais quadrado, mas amarelo e neoclássico do mesmo jeito. A cidade tinha um ar diferente, e eu estava voltando para casa e morava com alguém, não sei quem. Parei para observar os detalhes da arquitetura, e pelas janelas dava para perceber que era um edifício público e cheio das burocracias, portanto kafkiano (essa parte é bastante simbólica, mas talvez eu não saiba explicar o porquê). De tanto observar os detalhes, as características neoclássicas iam "derretendo" até o edifício, que era visto de perspectiva construtivista, se transformar num grande pedregulho com janelas à noite. Percebia que uma caixa de ar condicionado, ou caixa de luz, se desprendia do seu local habitual e a fiação iria soltar faíscas. Não só senti como esperei, quase torcendo para que pegasse fogo. De algum modo queria dizer, a quem morava comigo, que algo de interessante aconteceu em meu caminho.

O sonho acaba. No dia seguinte fui até a Estação Pinacoteca para uma aula, e depois corri para a Estação da Luz, pois iria para o Tietê me encontrar com a amiga. Fomos para São Thomé das Letras - MG aproveitar o feriado de Dia do Trabalho/Trabalhador. Nisso encontrei por acaso com Caju e Castanha, os abracei e beijei, mas já é outra história.

No caminho, chegando a São Thomé por volta das 19h, 20h, eis que acontece um absurdo. Tem uma pedreira na entrada da cidade. Esta pedreira, da minha vista no ônibus, era exatamente o edifício de meu sonho, na mesma composição diagonal que confere movimento à imagem e destaca a grandiosidade das formas, inclusive. Foi impactante, mas ainda tem mais. Conhecemos a cidade, dancei Comfortably Numb na sacada da pizzaria, morrendo de frio, etc., turistamos e no dia seguinte partimos rumo às cachoeiras. Fomos a pé, pois sou uma pessoa que definitivamente detesta carona.

Descemos e vi a pedreira de dia, linda, meu coração afundado no peito. Fomos nas águas, fizemos amizade com um casal hippie latinoamericano sem dinheiro no banco, compartilhamos certas coisas e enfim. Mais à frente uma família cantava Tropicana, e eu cantei também, porque né: Alceu. Subimos a estrada em direção à cidade novamente.



A internet ali é péssima, funciona de quando em quando. De volta à pedreira, olhando o mundo e a infertilidade das pedras, aquele Sol quente-frio, sinto o celular vibrar. Colega de classe afirma que Belchior morreu, e eu nos pés da pedreira no meio da estrada. Belchior morreu. Não sei se senti a dor ou a beleza do momento, talvez os dois. Belchior sempre me conferiu dor e beleza. Por exemplo, quando pequena eu tinha medo da melodia de Velha roupa colorida. Medo que me dava dor, mas dor e medo porque é minha música favorita dele. De início costumo sentir dor e medo do que é belo, como magnetismo de um imã, que ora rejeita, ora se gruda e quase que não larga mais.

Então senti a dor e a beleza da morte de Belchior aos pés da pedreira de meus sonhos. Foi a morte mais bonita de toda a minha vida.

Um mês depois entreguei um artigo para o curso, coisas aconteceram e minha vida rodopiou como o diabo gosta. Se foi bom ou ruim, não faço ideia; mas ainda mexe muito comigo, é como aquele livro favorito que te frustra e você jamais esquece. Estou dentro dos livros mais doloridos, pesados, profundos, bonitos, maduros, que já li.

Depois desse artigo, teve um segundo, que foi trabalho de conclusão de curso. Entreguei na quarta-feira. A conexão com a história de Belchior é a edificação, além de questões subjetivas que nem sei explicar porque nem pensei direito. É o seguinte: decidi falar da ligação pessoa-edifício, justamente desse imã que ora repele e ora atrai. Porque, veja bem, como é que pode um edifício público não ser frequentado por toda a população de um determinado lugar? A simbologia das estruturas, o conceito arquitetônico, os projetos políticos, a imposição dos intelectuais, tudo influencia na agonia que a gente sente às vezes entrando num edifício. Como o curso é de biblioteconomia, falei de bibliotecas. Citando o Poder Simbólico de Pierre Bourdieu, o Manifesto de Warchavchik, A Cidade de Chico Science. Falta a correção e, se tudo der certo (ou nada der errado), será publicado em breve.

O que aconteceu com esse texto? De olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava. Tive de agosto a novembro para escrever 15 páginas, e as quatro últimas - e essenciais - fiz, como sempre, na madrugada do dia anterior. Porque eu funciono de noite. Então fui dormir às 5h e acordei às 7h35. Ajustei detalhes até as 19h e entreguei às 20h. Cronograma e antecipação não trazem emoção (quase uma frase Jack Torrenciana, hein?).

All work and no play makes Jack a dull boy
Então é isso. Desde que me entendo por gente, sonho com edifícios. Desde que nasci estou relacionada de alguma forma com o construtivismo russo. Com pedra, areia e sol. Com dores que proporcionam prazeres. Com angústias. Com questões sociais e de poder. Com O processo de Franz Kafka, que ilustra meu artigo na obra de Orson Welles, de 1962. Faz todo o sentido do mundo eu trabalhar com patrimônio e memória, com apropriação de espaço e questionamento de poder. O poder invisível, sobretudo. É possível que eu tenha escolhido o rumo nesse próximo quinquênio de minha vida: as questões arquitetônica, artística, estética e social.

Era mais ou menos essa cena: o edifício e eu
Agora estou aqui, com algumas coisas mais ou menos resolvidas, com o curso acabando, problemas de maio para cá se resolvendo, o artigo entregue. Estava ansiosa para 29 de novembro para ter sossego. E agora que risquei todas essas tarefas de minha lista, adivinha o que aconteceu? Tédio. E com o tédio das questões cotidianas resolvidas, eu me lembro de quem? Dele, a mosca, meu irmão:
Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso, abestalhado, que eu estou decepcionado
Por que foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto: e daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado
Esse ano eu morri, mas ano que vem eu não morro! ✌