12 de ago de 2018

Deus te faça feliz minha menina Jesus e te leve pra casa em paz

Erick Lima
Quando criança eu sabia muito bem o que queria ser quando crescesse. Fiz até um desenho que, em dia tal de 2010 estaria eu fazendo cabeçalho com giz numa lousa dando aulas, porque em 2010 eu já teria os desejados 18 anos. Quando recebia broncas - principalmente aquelas sem sentido ou razão nenhuma, o que acontecia na maioria das vezes por puro desejo de poder sobre mim -, jurava vinganças, me imaginando uma mulher forte, independente e violenta.

Quando adolescente, eu decidi que queria viver aventuras surreais, e fui me embrenhando mais e mais pelo que já não mais é. Então pensei em ser paleontóloga. Arqueóloga. Astrônoma. Astronauta. Só o que não tem no Brasil, meninas, tutupom. Lembro até de uma vez em que comentei que me interessava por museus - na época nunca tinha entrado em um -, e meu professor sabiamente me deu este conselho (lembrem-se do que eu acho de conselhos): você nunca vai trabalhar em museus, porque não há vagas. Todos os que estão em museus são concursados e de lá só saem aposentados. Onde eu estou hoje, há 4 anos?

Já que eu não conseguiria arqueologia, meu grande sonho do ensino médio, pensei em quatro grandes temas na hora de me inscrever no ProUni, depois de meu primeiro Enem em 2010: História, Filosofia, Física ou Matemática. Se eu ainda não relatei isso aqui, minhas melhores notas em todo o período escolar (menos depois de ser aluna da professora Conceição) eram em matemática. Ganhei Menção Honrosa na primeira OBMEP, em 2005. Queria física só por enxerimento, porque sempre fui mal na disciplina, infelizmente. Mas amo física quântica e congêneres até os dias atuais. E a História... Sempre me fascinou. Vou pular a explicação e adianto que a Mia sabe bem o que eu sinto, pois ela escreveu aqui algo parecido.

Fiz História. Foram os melhores anos da minha vida. Porque sutilmente fiz o que queria, alcancei minha liberdade, fiz coisas que antes não fazia, andei sozinha, andei com pessoas mais velhas, namorei, viajei. Não foi uma coisa que se diga nossa, que vida de Stifler você levou!, infelizmente. Mas foi bom enquanto durou. Tinha, até certo tempo, lembrança vívida das minhas manhãs na UniCastelo, universidade que deixou de ser e que ninguém conhece. Mas que era o melhor lugar do mundo. Repleto de pessoas ruins, mas de pessoas admiráveis também. Nunca os primeiros anos do Pink Floyd fizeram TANTO sentido. Então era dar play no disco que os meus bons tempos eram reproduzidos juntos, e eu relaxava. eu conseguia chapar sóbria só com a música, com o caminho do ônibus e com as lembranças.

Mas aí vem o Lado B da minha vida. Lado B sempre tem a fama de ser ruim, ou inferior. Eu concordo um pouco, com base em uns discos de rock progressivo como o The Dark side of the moon ou o Selling England by the pound, onde as primeiras músicas começam te cativando e dilatando as pupilas, mas quando você vira o disco de repente se sente melancólico e perto do fim... Concordo também, porque se o complemento que Marx deu a Hegel fosse um vinil, com certeza o lado A seria "a História se repete. primeiro como tragédia", e o lado B seria "e depois como farsa".

Então minha farsa começou. Veio tudo junto: Copa do Mundo de 2014. Curso Técnico em Museologia. Vida de Cidadão, com quatro condução (no meu caso não é duas para ir, duas para voltar, mas sim quatro para ir, quatro para voltar). O Curso Técnico em Biblioteconomia foi meu retorno triunfal ao lugar que tanto odiei. Melhor turma, uma vírgula, uma pausa nessa ladeira abaixo que tem se tornado minha vida.

Não sou mais satisfeita com o que construí. Sou grata, eternamente grata às 47289792384782 coisas que tenho aprendido desde que decidi o que decidi. Tenho tentado me enganar fazendo mini cursos, terapia, natação, bebendo drinks com pimenta dedo de moça, chás diferenciados e outros tipos de coisas experimentáveis. Mas chega o domingo e eu me transformo nisso. Chega o domingo de dia dos pais então e eu nem posso comentar o que eu fico aqui, porque não interessa, mas não é algo bom. Nada tem sido bom. Quando vai tudo bem, eu preciso que alguém me diga que deu tudo certo, porque sozinha não sei mais discernir. E a pessoa me dizendo que está tudo bem eu ainda nem acredito. E cresce aquela angústia no meu peito. Uma angústia que some bem antes da terapia que até me esqueço de comentar com a psicóloga. E se eu comento com quem quer que seja, não fica assim, Helen. Ok, não fico. Só que fico. kkkkkk. E como fico.
Eu consultei e acreditei no velho papo do tal psiquiatra
Que te ensina como é que você vive alegremente
Acomodado e conformado de pagar tudo calado
Ser bancário ou empregado sem jamais se aborrecer 
Então como eu posso mudar de rumo, se o mais aceitável entre as pessoas responsáveis é ter um segundo caminho pré-planejado para poder fazer sentido deixar tudo para trás? Não que eu queira ser aquelas pessoas que viajam pelo mundo com uma mão na frente, a outra atrás, e os bolsos cheios de dinheiro dos pais (eu nem poderia, por questões óbvias familiares, nem quereria, tenho horror e sempre tive de receber dinheiro dos pais). Mas eu só queria ser alguma coisa que não sou agora, e nem sei dizer o que é.

Só sei que eu quero a simplicidade da vida que a minha vida atual não me permite. E tenho medo de conseguir o que quero, mais uma vez, e me sentir infeliz como agora. Apática. Sem vontade, sem gosto, vivendo a vida como um sonho distante e, ao dormir, ter sonhos vívidos e perturbadores, com o próprio serviço ou com o declínio da humanidade. Eu, que tanto fugi e desprezei as carreiras comuns de trabalho, me vejo agora do mesmo jeito. Sufocada pelas minhas escolhas e pelo cenário do teatro que é a minha vida. Porque eu não gosto de nada, nada neste mundo neste século. Nem daquilo que eu sinto. Daquilo que eu penso. Daquilo que eu faço. Daquilo que eu não faço.

Eu só me engano. Todos os dias, vivo rindo. Vivo satisfeita. Mas só por fora. Eu fui em um lugar outro dia e tive umas percepções sobre a vida. Meu corpo é a parede que limita o meu próprio universo. É uma casca, como o caranguejo (que é meu signo). E essa casca aparenta aquilo que ela não contém. As pessoas não têm muito interesse em perceber o outro, pois você pode estar morrendo e dizer que está tudo bem que a pessoa vai dizer Ok. Ou vai dar conselhos a você, de como ela é uma ótima superadora de obstáculos e quem quer consegue. Coisas genéricas assim. Então o que a gente faz mesmo? Como vai, como vai, como vai? Como vai, como vai, vai vai? Muito bem, muito bem, muito bem. Muito bem, muito bem, bem... bem.

Minha vida é um misto de Monalisa, Cotidiano (eu nem gosto mais tanto assim deste Chico), Ouro de Tolo e É fim do mês.
Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa
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