21.11.22

O que somos nós?

Essa filosófica questão foi apontada por Chico à sua mãe, na infância, e parece muito com o que sempre me perguntei, também desde criança, ao me olhar no espelho: por que eu sou eu? E não sou a Fulaninha? Qual o motivo de eu ser eu e não outra pessoa? Eu devo ser muito importante e ter uma missão para ser eu e não outro.

Independente da opinião alheia sobre cada vida ter uma missão ou não (a.k.a. foda-se o que você acha — não "você" você, mas você), isso sempre me levou adiante e me fez pensar que, se eu sou Eu, é porque isso é algo muito importante.

Aguma coisa importante
Um cara muito brilhante
Raul Seixas — Quando você crescer

Acabei de mandar uns áudios para o próprio Chico e para a Manie pensando pensamentos. Tão abstratos que eu tive que recorrer ao blog para poder entender a mim mesma, tamanha abstração. São áudios sobre QUEM SOMOS, e não O QUE FAZEMOS.

Perdi a referência, mas essa semana vi um tiktok onde uma humorista imita um direitomacho num date, e o encontro vira uma entrevista de emprego. Porque a moça diz "me fale mais sobre você 😏" e o cara começa a dizer onde estudou e onde trabalha, os prêmios que recebeu, o carro que comprou e várias palavras gringas usadas no marketing. E eu ri porque isso SEMPRE me incomodou. "Ah é? Você estudou o que? Aonde? Hm, não conheço. Nossa, que legal, se eu tivesse TEMPO SOBRANDO... Eu gostaria, mas não sou inteligente pra isso"... Coisas do tipo — note que "não ter tempo" para fazer o mesmo que eu fiz implica em dizer, mesmo que sem querer, que eu me formei na minha profissão porque tive tempo de sobra e estava coçando o saco entediada, e resolvi fazer o que fiz. Ou, dizer que não tem inteligência pra isso, causa um desconforto, porque escancara a desigualdade social e de oportunidades e eu, mesmo sendo tão pobre e periférica como a pessoa, sou uma "força estranha" (pegando o tema inicial da minha conversa com Manie), quase que uma "rica-pobre", uma "elite periférica" porque rasguei um buraco de oportunidade onde nunca teve, ou nasci com a bunda virada pra lua, no bom português.

Fato é que deu trabalho. 11 anos de muito trabalho. Muita distância, muitas percepções simbólicas, autoafirmação — para entender, sentir e aceitar o que estava acontecendo — e autopromoção para ser lida, vista, admirada. Não por vaidade, porque meu interesse em escrever e pesquisar é apenas um: ser lida. Nem preciso de concordância (discorde aí da sua casa), talvez só um pouquinho... Só pra sentir que não estou trabalhando para o Vento. Talvez nem seja problema trabalhar para o vento, desde que pra mim importe, já posso estar feliz.

Esse jorro de coisas sobre profissão vem uma hora em que eu trabalho no meu quarto, estou monetizando (finalmente!) meus textos, minhas pesquisas, meus cadernos, meus bordados, meus freelas. Eu sou profissional da educação e da cultura, presto serviços, e também sou manufatureira e comerciante. Está tudo lá no meu CNPJ. Mas faço tudo com amor e com intensidade de artista — que é um trabalhador, um artesão, um artífice. Então onde fica o limiar entre quem sou e o que eu faço?

Pois o homem é o exercício que faz
Raul Seixas — Eu sou egoísta

Eu sou autônoma por autonomia também. Não foi algo que eu não quis e tive que lidar com essa vitória do neoliberalismo em meio a pandemia e guerras (lembrando que o mundo está constantemente em guerra). Eu escolhi trabalhar com tudo o que sei, porque sei muitas coisas, tantas coisas (não para me gabar, mas porque estudar é minha válvula de escape desde sempre) que um emprego formal não comporta, e minha rebeldia não aceita.

Odeio conversar sobre isso porque sempre solto um "não quero trabalhar para ninguém" e o ouvinte sempre solta um "ninguém quer" — eu quero que se foda os outros, estou pensando em mim. EU não quero. Se ninguém quer isso é problema de cada um e do capitalismo. O que quero dizer é que estou ciente que vivo nesse sistema, e acho burrice pensar que até o dia da minha morte vai ser diferente. Ou que votar em partidos que recebem menos de 5% dos votos é algo inteligente — vou encher o saco com esse pensamento até ele fazer sentido na minha cabeça, porque não faz. Na verdade a gente tem que viver apesar do capitalismo, e não necessariamente desistir de tudo e segui-lo, muito menos acreditar no impossível sem uma praxis bem feita. Mas, quando estou falando de mim, é de mim que estou falando. E se eu digo que não quero, não aguento, é porque é a responsabilidade sobre mim que está sendo posta em jogo. Os outros a gente resolve da melhor forma possível que é: política, movimentos e ações sociais.

Estou lendo Bauman. Lembro que alguém no twitter o criticou por não-lembro-o-motivo, mas eu adoro o velho. Ele estava certo décadas antes desde dia de hoje, e isso está comprovado em suas palavras. Mas eu fico pensando. E lendo, tentando entender. Como era antes do capitalismo? Como eram as guildas e os merchants e os contratos, parcerias em outros tempos. O que era ou não trabalho ou lazer? Obviamente (e se você pensou aqui que estou defendendo uma servidão feudal, pelo amor de Deus hein, se liga) não quero regredir no tempo, apenas vivê-lo à margem.

Viver à margem. Porque foi assim que as condições da vida desigual, racista, etc. e tal que todo mundo fala e não tô a fim de militar, me puseram no mundo. Não quero estar ao centro, mas perambular onde quiser. Eu gosto da margem. Gosto de provocar, de fazer pirraça, de dizer não quando todos dizem sim, e sim quando todos dizem não. Porque tenho horror a opiniões iguais e atitudes mesmas. "Mas todo mundo se sente assim" — foda-se.

Leia meu "foda-se" na voz de João Seu Pimenta

Mas nem era isso que eu ia falar do Bauman. Eu ia fazer uma "autocrítica" sobre como ele fala do mundo descartável e individualista e eu aqui querendo ser solta no mundo e não me amarrar a ninguém, fugindo da CLT que eu defendo e virando mais uma autônoma que se diz empreendedora (mas na internet não pode porque os chatos ou vão achar que sou coach ou alienada do marxismo). Mas eu sou isso, ué, porque eu quero e porque trabalhar com pessoas para mim tem que ser algo com começo, meio e fim, porque todo dia quero algo diferente, e fico desquerendo algo que eu já quis. Na verdade eu tenho que fazer como Lula: que fazer autocrítica o que, quem critica são os adversários, não eu. 

Estou buscando, sim, estabilidade, segurança, enraizamento do meu trabalho autônomo, que basicamente é criar coisas com as mãos e com a mente. Talvez eu até me apresente assim agora: oi, me chamo Helen e crio coisas com as mãos e com a mente. "O que?" Descubra. Mas é isso. É uma busca de estabilidade por mim mesma, para que eu seja mais um ser agente na sociedade que caminhe entre projetos e ajude pessoas sem conexões eternas, porque eterno é o Universo e não eu. Me incomoda muito (por mais que eu agradeça a intenção e a lembrança) as vagas de emprego a mim compartilhadas e os "você é muito necessária nas escolas", porque parece que estou ouvindo "arranje um emprego útil", ou "arranje um emprego", quando de fato já tenho. Na verdade estou criando. E acho que vou sentir que estou criando para sempre. Porque sempre estou estudando. Inclusive eu não tenho um atelier ou oficina, mas sim estúdio porque tudo o que sei e que faço são estudos. Eu nasci para estudar o mundo. Nasci com essa fome de Eresictão, insaciável. Quero estar em lugares, ao mesmo passo que quero ir embora deles. Sou um ser escrevivente, sobrevivente, caminhante, me entedia e me mata o cotidiano (e aqui imagino que já vou receber comentários como "eu também pensava assim, mas tive que trabalhar", ou "o cotidiano mata a todos" — por favor, não faça isso).

Tudo que é sólido desmancha no ar, eu sei. E estou tentando criar aqui algo sólido. Mas não tão sólido a ponto de me perder do que sou eu e do que é o trabalho (que com certeza não é nada do que o jovem twitteiro comum diz. Trabalho é sim necessário e é uma atividade de nossa espécie, mas essa crítica fica pra quando eu tiver mais organização com meus compromissos). Hoje as redes sociais, além de tirar o foco, borraram nossas personas. Li textos importantes sobre isso, mas não me lembro quais. Redes sociais são o vício da atualidade, e também a coleira do capital a qual gentilmente enfiamos nossos pescoços. E nossos modos massivos, desfocados, precipitados, rasos (com limites de caracteres) de pensar estão me matando. Todos os dias eu acordo com raiva de pertencer a esse tempo presente, e tentando fugir de todos os modos. "Todo mundo é assim" — foda-se todo mundo.

Max Klinger — Drowning. Gravura em metal. (foto minha)

Enfim, uni a essa indignação minha vontade maluca de escrever, não escrevo há eras, mesmo escrevendo todos os dias. Eu não desisto e assino uma carteira e posto foto com ela para a alegria geral da nação porque realmente confio que as coisas que faço com as mãos e com a mente valem para alguém e o desejo de Marx era esse mesmo: que todo jovem pudesse se formar na profissão que quisesse, a exercesse com liberdade e com paixão. Nisso, ele escreveu o Capital e não foi admitido numa Agência dos Correios porque a caligrafia era ilegível. Talvez eu seja ilegível. Eu não sei me ler. Fico fingindo que eu sou quem digo quem sou só para fugir das coisas que tenho que criar com as mãos e com a mente.

Sábado eu tenho uma atividade que não queria fazer, e vou fazer apenas por dinheiro. É a maior tradução da obra completa de Marx e Engels, uma prostituição das minhas horas e dos meus saberes. Mas vai financiar o que eu quero, o que eu penso e o que eu faço.
Se você acha o que eu digo fascista
Mista, simplista ou anti-socialista
Eu admito, você tá na pista
Eu sou ista, eu sou ego
Eu sou ista, eu sou ego
Eu sou egoísta, eu sou, eu sou egoísta

Raul Seixas — Eu sou egoísta
Sim eu tenho trinta anos e isso parece postagem de uma adolescente de 16. Mas essa caixa de texto me faz viajar ao ano de 2008 e pensar que minha essência continua a mesma: não aceito coisas, xingo mesmo, despejo palavras sem me importar muito em revisá-las. 

Quer me ver trabalhando com textos revisados? Leia meu lattes, Querido Clássico ou o que eu publicar lá no meu site. Aqui é mesa de bar e eu já tomei umas (não literalmente, hoje estou só no café com leite). Talvez o um velho mundo seja uma parte minha que não é trabalho nem obrigação, convenção social. É meu diarinho mesmo e quero expor em praça pública porque não faz sentido escrever para ninguém ver. 

No mais, me siga e acompanhe meu trabalho, que é criar coisas com as mãos e com a mente. E a newsletter! A segunda edição sai dia 28.

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