devaneios repletos de referências e inúmeras playlists, porque a graça da vida é essa

eternamente grávida de ideias

Helen: eu gosto de escrever. Mas acho brega perfil em 3ª pessoa. Porque eu sou eu. Tenho quase 27, me divido entre São Paulo e Paraíba, presente e passado. Gosto de ler, ouvir, assistir. E cito tudo o que conheci em conversas e apresentações, mesmo que aparentemente não faça sentido.
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24 de dez de 2017

С НОВЫМ ГОДОМ!

Искринская Ирина Павловна (1929 – 1980)


Agradeço quem me acompanhou até aqui! Desejo boas festas e, se vocês não são de festas religiosas, boa e farta bebida e comida neste fim de ano! Que 2018 seja infinitamente melhor que 2017, com a copa na Rússia, as eleições (eita), memes e menes que aparecerão... Enfim. Muitos sentimentos profundos e muita poesia nestas nossas vidas.
Dasvidaniya, tovarishchi!

23 de dez de 2017

A dança proibida

Artista anônimo de Tarragona, Espanha - Euterpe, séc 2
Eu vou tirar meu pé da estrada e vou entrar também nessa jogada e vamos ver agora quem é que vai güentar:

Desde sábado aconteceram algumas questões que me lembraram de algo que me ferve o peito de ódio e eu preciso escrever aqui,  já que a porcaria do facebook não serve de nada e os intelectuais são arrogantes demais para prestar atenção no que a gente fala, se escondendo atrás de nomes históricos.
Olho os livros
Na minha estante
Que nada dizem
De importante
Servem só prá quem
Não sabe ler

Raul seixas - Eu também vou reclamar
Poderia ser blasé e dizer foda-se, mas meus amigos, minhas amigas, eu odeio gente e minha única faca possível para cortá-las são as palavras.

Existem forrós e forrós. O forró que aprendi com minha família é simples, ritmado e combina com as músicas que ouvimos. Gonzagão, Dominguinhos, Flávio José, Assisão, Amazan, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino e por aí vai. A simplicidade dos passos dessa dança é a simplicidade dos passos de um agricultor cansado que tem um momento de folga e vai tocar sanfona para ter um dinheiro a mais para sustentar a família. Meu avô paterno fazia isso. Na minha cabeça é isso. Os forrós de casamento de sítio são isso, um terreiro varrido debaixo de uma tenda e os casais dançam. Botam para fora tudo aquilo que está engasgado no peito e latejando no cérebro, é hora de comer (muito bem, diga-se de passagem) e curtir.

O forró paulistâno, mêo, é outro. É cheio de giros e quase-giros, uma perna para a frente e outra para trás, muito semelhante ao samba-rock e outras danças de salão. Que se aprende em salão. Para quem dança forró desse jeito é possível que aconteça um estranhamento nesse texto, bem como é possível eu ter conhecido pessoas idiotas que dançam desse jeito, e não as pessoas legais que dançam desse jeito. Agora sim: foda-se.

Algumas pessoas com quem dancei acham que preciso "treinar" um pouco os giros. Que devo fazer cursos. Ou simplesmente dançam por dançar só reproduzindo os mesmos giros e os mesmos para-lá-e-para-cás em qualquer música, não importa se é xaxado, baião, pé-de-serra, coco ou frevo. Não há proximidade, pelo contrário. Eu já dancei com um rapaz que só ia me girando enquanto conversava com o amigo, parado. Outro era tão alto e estava tão bêbado que a coisa não fluiu e me indicou aulas de dança, aquele filho da puta. Eu, em meus exageros passionais, consigo enxergar simbolicamente aquela coisa chamada hierarquia de uns poucos "melhores" e outros muitos "piores", ou mesmo a luta de classes.

Em 2015 andei por alguns forrós em São Paulo e Santo André. Estava empolgada. Até que "que bom que você veio de sapatilha, não danço com mulher de salto alto"; "mulher deve ser conduzida na dança, e não conduzir"; entre outras bobagens e o fato de que o pessoal daquele grupo costuma dançar apenas com o pessoal daquele grupo. Estrangeiros são estrangeiros. É uma apropriação sudestina de dança nordestina que eu não sei explicar porque está no âmbito simbólico da coisa. É no modo de se mexer, de falar, de sorrir, de mostrar simpatia, são máscaras anti-naturais. Perdi o gosto de dançar forró em SP. Até dancei sábado junto a um trio elétrico com nordestinos de verdade tocando suas zabumbas, triângulos e sanfonas do Marabá à Mário de Andrade. Mas dancei mais sozinha do que com as pessoas desses grupos que só giram e dançam artificialmente. Para mim é artificial. Ponto. Mas são estes passos que estão exportando para a Alemanha. Não que os passos sejam ruins: são ou estão vazios de significado.

Eu não imagino meu avô, em 1940, dançando com uma moça daquele jeito. "Minha donzela, você tem que girar assim e assado, veja, quando eu virar aqui você vira ali e etc." Dá pra imaginar? Um agricultor analfabeto da seca da Paraíba mandando uma moça ter aulas de dança? Você aprende dançando. Sentindo. Cochilando nos ombros do seu parceiro de dança, no chiado na chinela, com a poeira levantando e o coração pulsando e as mãos em sua cintura fina e essas coisas.

Pierre Bourdieu (já que os intelectuais adoram referenciar outros intelectuais) fala de arrogância e timidez. É aquele momento, por exemplo, que você acha uma senhora rica metida num espaço e se sente uma pessoa tímida no mesmo espaço porque não sabe se portar. Você chama isso de timidez e arrogância mas é o poder simbólico atuando naquele espaço. É uma pessoa demonstrando poder sobre os demais.

Eu fico fudida com isso.

Essa semana saiu uma música nova da Anitta. Eu fui a última a ver, e adianto que gostei da batida; adoro rebolar. Ouvi opiniões contrárias e a favor, não concordei com nenhuma. Minha postura marxista questiona essa coisa de "visibilidade": eu vejo isso como vender-se ao capital, perigando esvaziar uma luta em troca de fama; mas acho bom ver a sociedade como ela é e questioná-la, sempre: um lado conhecer o outro. Outras pessoas acham isso positivo, porque as famílias que estão alheias a todas essas questões intelectuais percebem essas vivências com as quais possuem preconceitos nas novelas, nos "casos de família" e a coisa vai fluindo. Não sei quem de nós está certo, mas são discussões saudáveis, correto?

Não para quem se põe num pedestal. Para essas pessoas, música pop é um lixo, só o gosto musical delas é bom, e etc. Que música "ruim" imbeciliza pessoas. Será?

Conheço personagens históricos paulistas que possivelmente adoravam Mozart, Guiomar Novaes, Schubert, Bach, Wagner, Liszt, Vivaldi... E financiaram a Ditadura Civil-Militar que golpeou este país em 1964. Conheço livros, dessas mesmas pessoas, que em 1977 ainda chamavam esse movimento de Revolução. Do mesmo modo, conheço verdadeiros pensadores do século XXI, colegas de profissão, militantes de causas grandes e importantes, que leem intelectuais e mais intelectuais que... detestam Beatles e Rolling Stones mas amam Molejo, Raça Negra. Pessoas queridas com bons questionamentos na internet, inclusive amigos próximos, que são fãs de Pabllo Vittar, Anitta, Valesca, Karol Conka, etc. Aprendi com algumas delas e com minha querida irmã a não ser mais uma roqueira idiota que acha pagode e funk um lixo. As canções que embalaram meu curso de biblioteconomia este ano, por exemplo, foram: Qual bumbum mais bate? e Bohemian Rhapsody.

Não estou nem aí se Platão dizia que "cuidado com as músicas que o governo te proporciona". Muito bem, podemos discutir isso. Mas Platão conheceu nossas músicas? O rádio? Os vinis e fones de ouvido? Muitos "super-músicos" eram anti-semitas, racistas, entre outras coisas. Escolas de arte como a Bauhaus foram fechadas por Hitler, do mesmo modo que minha querida URSS cortou as asas do Construtivismo Russo e outras manifestações artísticas que são referência nos manuais de história da arte. Também foram criadas músicas que estavam a favor dos governantes. Músicas "eruditas", conservadoras. Charles Manson e Helter Skelter, etc. Então a coisa não é tão simples assim não, meu irmão.

Houve um movimento na história recente de luta contra música popular versus erudita, que hoje persiste e até o professor Marcos Napolitano vive comentando por aí. Acho ótimo. Tem o Manifesto Antropófago, o livro do Guerra-Peixe, o Movimento Armorial, o manguebeat... Ai, ai, como quero comentar tudo isto aqui!

Gonzagão também deve ter sido comparado com música "vulgar" de um governo "que aliena". Assim como o... SAMBA! Quantas pessoas não foram tidas como malandros imprestáveis, vagabundos e todas essas construções. No governo de Vargas mesmo! Aprendemos isso na Academia, ou não... acadêmicos?

Música, para mim, é a batida do coração. De que adianta a técnica? E aqueles remixes do funk com música clássica, com o hino nacional: não está ali a técnica? Posso estudar a vida inteira que vou poder fazer os solos virtuosos de não-sei-quem, tocar tão rápido quanto o fulano daquela banda. "Nossa, que foda", eles dizem. E eu só penso naquela frase de Clarice: "ou toca, ou não toca". Eles riem de Moonchild e eu penso como é minha música favorita do King Crimson. Eles pensam "ha ha ha, Reginaldo Rossi" e eu rebolo Recife: minha cidade e me lembro dos meus seis anos na casa de Cilene, cansada de sono no colo de mamãe, enquanto os adultos conversavam em roda à luz do luar...

Música é memória, afeto, lembrança, contato. Termino com uma frase que me foi a eureka desse texto e pretendo estudar nos próximos tempos, e com o meu espírito animal dançando no carnaval:

A música é Euterpe, uma das nove musas do templo de Museion, filhas de Mnemosine (memória) e Zeus.

Vadinho, em sua última alegria em vida

18 de dez de 2017

Nesta vizinhança sou filha bastarda

Hieronymus Bosch - O jardim das delícias terrenas, 1504.
2017 foi um ano estranho. Tudo de pior aconteceu com coisas boas acontecendo por dentro. Ou pelas beiradas. Preciso começar dizendo que, muitas vezes em minha vida, principalmente quando se tratava do meu pai, minha mãe e minha irmã costumavam dizer que eu sempre agia diferente dependendo de com quem eu tratava. Pois bem. Nunca achei ruim, me defendi - ou criei uma desculpa para mim mesma - dizendo e pensando que para cada pessoa há um trato. Textos exotéricos - genéricos - dizem que quem tem libra no mapa astral costuma ser muito sociável e diplomático. Quem tem câncer, então, costuma saber manipular. São, respectivamente, minha lua e meu sol. Eu culpo os signos mesmo, para não ter que culpar a mim mesma por não conseguir mudar ou ser como se deve.

2017 começou ruim, porque começou com pendências de 2016. Há pessoas na internet se achando muito sábias ao dizerem aquela tal "novidade" que esperar que o ano acabe é um pensamento idiota e que a vida não muda. Olha, muda sim. Só pelo simples fato de termos calendários milenares, fases da lua, posição dos astros, rotação e translação da terra e mudança de estações. As pendências podem virar a página do calendário conosco, mas é um novo ciclo sim, nosso corpo percebe isso, e sua chuva de likes não muda este fato.

Posto isso, 2017 foi um ano de término de relações, quebra de laços. Começou por minha culpa e terminou por meu senso de justiça. Este meio não é simples de explicar, mas não posso fingir que não aconteceu. No mesmo ano, reconectei-me com pessoas do passado e me empolguei bastante, conheci pessoas novas - ontem mesmo! - e queridas, me senti esquecida, e esqueci também.

Em 2017 apaguei de vez meu twitter. Cansei das pessoas de lá. Cansei mais das bolhas esquerdistas cirandeiras good vibes gratidão sororidade do que dos piores trolls da história da humanidade recente, reavivadores de pragas preconceituosas horrorosas. É como se eu estivesse, nos últimos cinco anos, indo do centro do espectro político, caminhando paulatinamente para a extrema esquerda e pulando no penhasco do plano cartesiano, para o sul de lugar nenhum. Sempre tive problemas com gente, independente ou até mesmo por causa de sua posição política e da quantidade de sua externalização de simpatia, antes mesmo de saber ler. Continuo seguindo comunista, mesmo que comunistas possam vir atestar que não o sou: neste aspecto, só confio em Marx e nada mais.

Dizer especificamente o que estou tentando explicar pode ser um problema: nunca cometo pequenos erros enquanto eu posso causar terremotos. Inclusive, um dos motivos de eu pegar ranço de twitter é justamente a péssima interpretação que as pessoas têm, não importa se elas votam em Bolsonaro ou curtem vídeos do Gregório Duvivier. Se elas são estudantes que querem prestar Fuvest para a famigerada FFLCH ou se são engenheiros civis com pós-doc. Então deixa pra depois.

Apesar da humanidade, me descobri frágil. O robô, o encoleirado que eu adorava apontar, do Dahmer, também era (sou) eu. Fugi tanto de rotinas, padrões, coisas estabelecidas, que quando dei por mim estou vivendo assim mesmo. Inclusive é um spoiler da vida que vou dar aqui: fazer aquilo que se gosta não significa ter sucesso acima daqueles que fazem as coisas por obrigação e sobrevivência. No final das contas vamos todos morrer mesmo, e os sonhos realizados também entediam. Isso está escrito em músicas, livros e séries. E mesmo nos contos de fadas! O fim é o felizes para sempre, imagina ser feliz para todo o sempre, sem poder modificar um instante sequer, sem poder variar um sentimento sequer? Quantas vezes nos perguntamos o que há depois do final feliz? Eu estaria numa pior se a vida fosse resolvida. Que mais absoluto tédio.

André Dahmer - Malvados
Meu sonho, na faculdade, era "subir" todos os degraus da academia. Isso há quatro anos atrás. Fui em simpósios, escrevi artigo, mas sempre incomodada. Porque as pessoas vivem em grupos. E detesto estar em grupos. As pessoas conseguem mestrados como se fossem bromélias e seus orientadores plantas que aceitam bromélias como parasitas. Tudo é por indicação. Você, se não é daquele grupo e não concorda com ele, é porque é do grupo contrário. Que preguiça disso. Que preguiça do modo como palestrantes discursam sobre "o lusco-fusco da revolução russa" na FESPSP às 21h da noite, com aquela voz arrastada, lendo um texto próprio - bem mal escrito - e se achando o máximo da genialidade. Que preguiça de ir comer na lanchonete de uma faculdade da qual não pertenço - nem conseguiria - e sentir um peso em meu cangote como se todos estivessem me olhando como acontece naquelas cenas sufocantes do Roman Polanski e do Orson Welles.
Roman Polanski - Repulsion, 1965
Falando em Polanski, aprecio a vivacidade com que vocês discutem sobre obra versus postura do artista. É uma boa pauta, de verdade. Mas é uma "bandeira" para a vida inteira. Dou boa sorte a vocês nessas questões, me privarei delas. Assim como me privei dos jornais. Dos comentários de portais. Da timeline que bloqueei no facebook. Das assinaturas que cancelei.

Houve momentos na vida que tinha certo receio de afirmar minhas coisas. Porque as pessoas cobram. Tanto cirandeiros como impeachmistas possuem a necessidade de querer censurar algo. Geralmente quando querem censurar algo aí é que esse algo se torna famoso, então cuidado. Sempre procuro conhecer e discutir as coisas, e não proibir nada de ninguém. Mesmo que às vezes me aflore um autoritarismo, um exagero.

Hoje tenho preguiça de afirmar minhas coisas só por afirmar. Se afirmo, é porque simplesmente quero dizer como me foi importante a experiência e que sim, vale a pena. Geralmente é clássico, me dou bem com clássicos como vocês se dão bem com o contemporâneo, e assim segue a diversidade.

Hoje tenho preguiça de algo que eu adorava: artigos. Jornalistas são bons em escrever artigos. Eu estava feliz querendo escrever artigos. Mas aconteceram dois artigos esse ano, um deles emocionante, e eu descobri que nem isso quero mais. O tcc vai virar capítulo de revista digital e eu só queria cancelar isso. Percebi que sigo uma área de atuação até bem definida, e isso foi sem querer, mas as coisas são tão iguais sempre que meu deus do céu. Mas tem lugares e temas tão mais burocráticos que até sou uma privilegiada na posição em que estou. Tenho o luxo de reclamar do que conquistei, mas eu confesso que estou decepcionada.

Meu grande problema com aquela frase de Graciliano, com as músicas que ouço, os filmes que vejo e os livros que leio, é que as coisas que sinto não são deste mundo. Pode parecer, e até talvez seja, discurso de adolescente, mas o que me rodeia parece tão apático, igual, padrão, que não cabe toda a minha expectativa - que não sei não ter, mesmo sabendo que a decepção é culpa minha mesmo.

Não sei como terminar esse texto. Só sei que esse ano descobri novos sons, novos vídeos, novos textos, novas pessoas. Também conheci o que é sentir demais e o sentir de menos. Só sei que esse ano parece que vai durar até o fim da minha vida, mesmo que eu escreva outras datas em meus papéis. As pessoas dizem "pode aparecer coisa melhor" e eu penso "como, melhor? melhor para quem?"; "você vai conhecer mais pessoas e lugares" e eu penso "que gasto de energia é conhecer gente, é sempre a mesma coisa: oi, tudo bem, tudo e você, que bom, legal", e a partir de certo momento a gente se acostuma e aí começa tudo outra vez.

Até parece um texto triste e etc., mas essas coisas passam pela minha cabeça desde pelo menos 1995, então eu não estou na pior. Só não gosto de fugir de tristezas e pensamentos perturbadores que levam à reflexão. Detesto conselhos que não servem para nada como "fica bem", "não fica triste", "não chora". É como você aconselhar a um gripado a não ter febre. E não me sinto bem estando bem demais e não conversando comigo, porque parece vazio e... plástico. Tem dias que merecem reflexão. Feliz ou infelizmente minha retrospectiva de 2017 é mais ou menos essa. De alguma forma mudei, me sinto diferente. Tem gente que nem percebe. O grande problema é que tenho horror a rotinas, ciclos, padrões, várias pessoas seguindo um mesmo caminho. Sei que estou dentro disso e não tem como não estar. Lido com isso externamente numa boa enquanto a cabeça pensa nisso e muito mais.

A parte boa nisso tudo é sempre que alguém, lá num passado não muito ou tão tão distante, já falou sobre isso. Ou pintou, fotografou, filmou, cantou. Fez parecer bonito, ou horrível. Porque de alguma forma é. É uma metamorfose, não é mesmo? Mudança de pele, como as cobras fazem. E que bichos bonitos são as cobras. Então me sinto amiga de quem viveu há mais de 200 anos e, apaixonado por uma mulher casada, escreveu Werther, de quem viveu até quando eu tinha dois anos e soube exatamente explicar coisas que eu mesma sinto e vejo, mesmo que a galerinha cool ache que ele é um "babaca do caralho".

Certa vez comentei sobre profissões com a chefia, e esta concordou: há pessoas que nascem para solucionar problemas, nós nascemos para criá-los. Serve para a minha vida toda. Sou aquela que não fala mal das fórmulas matemáticas (inclusive detesto quem fala, e quando fala), nem está tanto assim a fim de saborear o resultado. Sou a que se diverte montando o problema, quebrando a cabeça, vivendo o caminho. Sou, imodestamente, uma moleca maravilhosa.
Eu sou o moleque maravilhoso
Num certo sentido o mais perigoso
Moleque da rua, moleque do mundo, moleque do espaço 
Raul Seixas - Moleque Maravilhoso, 1974.

1 de dez de 2017

Onde eu estava quando Belchior morreu: prelúdio para um tcc

Dia 28 de abril eu tive um sonho - sim, mais um - estranho, já começa por aí.

Escola Normal Caetano de Campos
Estava andando pela cidade à noite, e passava por um edifício que se assemelhava muito à Escola Normal Caetano de Campos, da Praça da República. Era um pouco mais quadrado, mas amarelo e neoclássico do mesmo jeito. A cidade tinha um ar diferente, e eu estava voltando para casa e morava com alguém, não sei quem. Parei para observar os detalhes da arquitetura, e pelas janelas dava para perceber que era um edifício público e cheio das burocracias, portanto kafkiano (essa parte é bastante simbólica, mas talvez eu não saiba explicar o porquê). De tanto observar os detalhes, as características neoclássicas iam "derretendo" até o edifício, que era visto de perspectiva construtivista, se transformar num grande pedregulho com janelas à noite. Percebia que uma caixa de ar condicionado, ou caixa de luz, se desprendia do seu local habitual e a fiação iria soltar faíscas. Não só senti como esperei, quase torcendo para que pegasse fogo. De algum modo queria dizer, a quem morava comigo, que algo de interessante aconteceu em meu caminho.

O sonho acaba. No dia seguinte fui até a Estação Pinacoteca para uma aula, e depois corri para a Estação da Luz, pois iria para o Tietê me encontrar com a amiga. Fomos para São Thomé das Letras - MG aproveitar o feriado de Dia do Trabalho/Trabalhador. Nisso encontrei por acaso com Caju e Castanha, os abracei e beijei, mas já é outra história.

No caminho, chegando a São Thomé por volta das 19h, 20h, eis que acontece um absurdo. Tem uma pedreira na entrada da cidade. Esta pedreira, da minha vista no ônibus, era exatamente o edifício de meu sonho, na mesma composição diagonal que confere movimento à imagem e destaca a grandiosidade das formas, inclusive. Foi impactante, mas ainda tem mais. Conhecemos a cidade, dancei Comfortably Numb na sacada da pizzaria, morrendo de frio, etc., turistamos e no dia seguinte partimos rumo às cachoeiras. Fomos a pé, pois sou uma pessoa que definitivamente detesta carona.

Descemos e vi a pedreira de dia, linda, meu coração afundado no peito. Fomos nas águas, fizemos amizade com um casal hippie latinoamericano sem dinheiro no banco, compartilhamos certas coisas e enfim. Mais à frente uma família cantava Tropicana, e eu cantei também, porque né: Alceu. Subimos a estrada em direção à cidade novamente.



A internet ali é péssima, funciona de quando em quando. De volta à pedreira, olhando o mundo e a infertilidade das pedras, aquele Sol quente-frio, sinto o celular vibrar. Colega de classe afirma que Belchior morreu, e eu nos pés da pedreira no meio da estrada. Belchior morreu. Não sei se senti a dor ou a beleza do momento, talvez os dois. Belchior sempre me conferiu dor e beleza. Por exemplo, quando pequena eu tinha medo da melodia de Velha roupa colorida. Medo que me dava dor, mas dor e medo porque é minha música favorita dele. De início costumo sentir dor e medo do que é belo, como magnetismo de um imã, que ora rejeita, ora se gruda e quase que não larga mais.

Então senti a dor e a beleza da morte de Belchior aos pés da pedreira de meus sonhos. Foi a morte mais bonita de toda a minha vida.

Um mês depois entreguei um artigo para o curso, coisas aconteceram e minha vida rodopiou como o diabo gosta. Se foi bom ou ruim, não faço ideia; mas ainda mexe muito comigo, é como aquele livro favorito que te frustra e você jamais esquece. Estou dentro dos livros mais doloridos, pesados, profundos, bonitos, maduros, que já li.

Depois desse artigo, teve um segundo, que foi trabalho de conclusão de curso. Entreguei na quarta-feira. A conexão com a história de Belchior é a edificação, além de questões subjetivas que nem sei explicar porque nem pensei direito. É o seguinte: decidi falar da ligação pessoa-edifício, justamente desse imã que ora repele e ora atrai. Porque, veja bem, como é que pode um edifício público não ser frequentado por toda a população de um determinado lugar? A simbologia das estruturas, o conceito arquitetônico, os projetos políticos, a imposição dos intelectuais, tudo influencia na agonia que a gente sente às vezes entrando num edifício. Como o curso é de biblioteconomia, falei de bibliotecas. Citando o Poder Simbólico de Pierre Bourdieu, o Manifesto de Warchavchik, A Cidade de Chico Science. Falta a correção e, se tudo der certo (ou nada der errado), será publicado em breve.

O que aconteceu com esse texto? De olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava. Tive de agosto a novembro para escrever 15 páginas, e as quatro últimas - e essenciais - fiz, como sempre, na madrugada do dia anterior. Porque eu funciono de noite. Então fui dormir às 5h e acordei às 7h35. Ajustei detalhes até as 19h e entreguei às 20h. Cronograma e antecipação não trazem emoção (quase uma frase Jack Torrenciana, hein?).

All work and no play makes Jack a dull boy
Então é isso. Desde que me entendo por gente, sonho com edifícios. Desde que nasci estou relacionada de alguma forma com o construtivismo russo. Com pedra, areia e sol. Com dores que proporcionam prazeres. Com angústias. Com questões sociais e de poder. Com O processo de Franz Kafka, que ilustra meu artigo na obra de Orson Welles, de 1962. Faz todo o sentido do mundo eu trabalhar com patrimônio e memória, com apropriação de espaço e questionamento de poder. O poder invisível, sobretudo. É possível que eu tenha escolhido o rumo nesse próximo quinquênio de minha vida: as questões arquitetônica, artística, estética e social.

Era mais ou menos essa cena: o edifício e eu
Agora estou aqui, com algumas coisas mais ou menos resolvidas, com o curso acabando, problemas de maio para cá se resolvendo, o artigo entregue. Estava ansiosa para 29 de novembro para ter sossego. E agora que risquei todas essas tarefas de minha lista, adivinha o que aconteceu? Tédio. E com o tédio das questões cotidianas resolvidas, eu me lembro de quem? Dele, a mosca, meu irmão:
Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso, abestalhado, que eu estou decepcionado
Por que foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto: e daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado
Esse ano eu morri, mas ano que vem eu não morro! ✌