devaneios repletos de referências e inúmeras playlists, porque a graça da vida é essa

eternamente grávida de ideias

Helen: eu gosto de escrever. Mas acho brega perfil em 3ª pessoa. Porque eu sou eu. Tenho quase 27, me divido entre São Paulo e Paraíba, presente e passado. Gosto de ler, ouvir, assistir. E cito tudo o que conheci em conversas e apresentações, mesmo que aparentemente não faça sentido.
sobre | siga!

10 de nov de 2014

Eu calço é 35

Quando somos menores de idade a grande esperança é chegar aos 18 e à emancipação familiar. Isso sim é utopia. A família não te emancipará (muito menos a sociedade), e mesmo que você sentir ter declarado independência, é apenas um estado de alienação ou algo do tipo. E quanto mais o tempo passa, mais membros (não necessariamente familiares) alimentam essa dependência forçada e bombardeiam a sujeita da história com questões morais e impondo certo e errado numa visão pessoal, egoísta e totalmente arbitrária. Até lembra aqueles filmes de comunidades no meio dos EUA onde pessoas vivem como colonos de séculos anteriores inventando monstros para que os habitantes não ultrapassem as barreiras da realidade.

Crescer é difícil. E pior ainda quando se há a possibilidade de florescer e atingir altos índices, mas ser podado justamente por quem exige amadurecimento. Existem plantas que não necessitam de interferência externa para viver saudável, só precisam do mínimo: uma terra boa, luz do sol, água, espaço. Certas interferências chegam a ser ignorantes do ponto de vista do cuidado, e acabam por murchar aquele ser vivo. É um problema grave.

Ditar o que alguém deve fazer e que rumos essa pessoa deve tomar na vida é historicamente um problema. "É para o seu bem" muitas vezes é a pior frase a se ouvir, pelo simples motivo da existência do seguinte questionamento: o que se pode considerar meu bem? O meu bem é o que eu considero bom pra mim, ou o que a sociedade impõe como bom pra mim, por questões de costume, políticas, ou puramente de preconceito?

Por exemplo: para mim, o ensino superior está aí para promover a possibilidade de expansão e difusão do conhecimento científico, e criação e/ou refutação de teses que serão propostas de discussão para uma melhor e mais efetiva organização da sociedade. Basicamente, são estudos atrelados a outros estudos que acarretam em mais estudos, presentes e posteriores. Para outros, o ensino superior é simplesmente uma maneira de arranjar um emprego que exige maiores qualificações (e nem sempre é melhor - no sentido de superior, de mais ou menos importante - que outros empregos que exige ensinos médio ou fundamental).

Para essas pessoas, o fato de eu estudar e querer continuar os estudos, é motivo de espanto: "pra quê você vai fazer o enem?" "você já não fez faculdade?" "mas esse curso não tem nada a ver com o anterior" "você não vai arranjar um emprego?" "só estuda, não vive não?", etc. Para mim, o espanto advém justamente dessas questões: "como assim pra quê?" "e daí se já fiz faculdade?" "quem disse que esse curso não tem nada a ver?" "vou arranjar um emprego, justamente estágio nessa área que pretendo estudar" "para mim, estudar é viver". Muitas respostas ficam só voando e se repetindo na minha mente em situações em que me imagino nervosa e distribuindo sermões a torto e a direito.

É claro que eu sei a importância de muitas das coisas que exigem de mim, incluindo estabilidade financeira, melhoria de vida, etc. Mas a maneira que tentam me "proteger" (de mim mesma) é como se me vissem ainda como uma criança que não sabe falar. De fato, eu não sei falar. Só me sinto solta para dizer o que quero quando estou num grupo muito pequeno e quando tenho intimidade. Se eu não falo direito é simplesmente porque estou desconfortável e não confio muito no ouvinte. Mas me proteger de mim mesma não é lá uma atitude muito inteligente. Nem saudável, porque é mexer num vespeiro.

Talvez todas essas questões e essas coisas que não aceito definam quem eu sou, e de que lado estou. O lado dos que não têm voz, dos que não têm vez, dos que não têm liberdade, igualdade, identidade, independência. Os meus movimentos são friamente calculados, já dizia o Polegar Vermelho. E são mesmo.

Creedence Clearwater Revival/Raul Seixas
O título se refere à música Sapato 36 de Raul Seixas.
(1) Quadrinho da Petúnia Pomposa.
(2)Imagem do 9gag.

9 de mai de 2014

Ouro de tola

Noisli - Lua e Fogueira
Acho que fiquei meio mal porque meu amigo se formou e colou grau, e agora é bacharel. Não que eu esteja triste por ele, estou deveras orgulhosa, porque sei um pouco do que ele passou até aqui, e porque finalmente tem o título almejado.
Por escolha não quero colar grau nem serei bacharel, mas licenciada. Licenciada pelo desespero de entrar na faculdade logo, já que era o que muita gente acreditava que eu fosse fazer, inclusive eu mesma, então não queria decepcionar ninguém, mesmo com o bacharel ficando cada vez mais longe de mim. Eu via pessoas que não imaginava que fossem tentar o Ensino Superior entrando nele, e não queria não tentar.
“O que quero é História, definitivamente” - pensei, então Licenciatura não parecia de todo ruim. E não foi. Foi praticamente maravilhoso, só não foi totalmente pela parte pedagógica da grade, justamente o que a Licenciatura exige; aprendi muito com as disciplinas, mesmo aguentando-as – ainda hoje – como um martírio infindável.
Me pergunto se estou fazendo certo em não querer colar grau agora... Acho um evento extremamente desnecessário (e chato, e brega), mas tem um significado simbólico que explica sua existência. Se eu não me importasse necessariamente com isto que chamo de brega, não teria ficado mexida com as fotos postadas por meu amigo.
Talvez eu não queira colar grau porque é uma despedida de fato, pública e memorável: com direito a certificado de despedida, que equivale ao anel do Papa e/ou governante que amassa a cera que lacra o documento. A colação seria, pra mim, justamente isso: o colar, o lacrar um período – ínfimo, curtíssimo para a História e para a minha vida – que eu gostaria que não acabasse. Gostaria que não acabasse a ponto de querer refazer as disciplinas do F., quando a S. lembra para os alunos do 2º/3º semestre (que dividem sala comigo alguns dias da semana) que eles ainda terão tais disciplinas. Coisa que já aprendi – mas não sei 100%, nem nunca saberei – mas que se fosse pra viver em loop, não reclamaria. Porque aprendi algumas disciplinas antes de outras, e as de agora explicam as que vi lá atrás (fiz, nessa ordem: 2º, 1º, 4º, 5º, 6º e, agora, 3º semestre), e trazem consigo uma nostalgia tremendona. Eu meio que invejo esses caçulas do curso (a maioria com mais idade que eu, mesmo assim), por ainda terem curso. Por ainda terem aulas e apostilas e dicas de livros e filmes, e piadas inteligentes e inesperadas (por mais que muitos não dêem valor a essas coisinhas).
Corredor
A rotina de acordar cedo, chegar nas Montanhas com a Carolina (ou a Carolina com as Montanhas?), subir as infinitas escadas reclamando do pessoal do outro curso que senta nos degraus e não tá nem aí, chegar na sala e caçar uma cadeira que não tenha gente nem bolsa – e que seja uma cadeira com braço reto, de preferência baixa e toda da madeira mais antiga –, antes ou depois do professor. Anotar tudo o que se coloca na lousa e o que se diz e pensa em meio a flechas (tão ou quase tão numerosas que as dos arqueiros das guerras medievais, talvez), alternando com desenhos (coisa que há muito tempo não faço por divagar cada vez menos). Descer para o intervalo e ver gente (ver significa falar, mas acho que nesses três anos ninguém entendeu, ou não fiz entender), e saber que sabem que o pedido é “um café com leite, por favor”, porque esse é o pedido de sempre. Subir do intervalo e escrever e desenhar um pouco mais, e no fim odiar aqueles que interrompem a aula pedindo a chamada pra sumir dali. Odiar como se fossem hereges, porque qual é o maluco que quer que essa aula se acabe? Um ódio passageiro claro. Daquele que volta todo dia, na mesma hora, no mesmo canal, mas passa.
Vista de uma das janelas
E na volta pra casa uma vontade de sair pesquisando tudo o que vem pela frente, como um vento que te impulsiona e te leva pra onde ele quer. Mas que vai se sumindo aos pouquinhos nas divagações do ônibus, que viram cochilo, e depois preguiça, depois desânimo. Mas que retorna todos os dias (exceto os dias pedagógicos, enfatizemos).
E daí que faltam duas semanas de aula. E duas de prova. Não sei se me formo esse semestre porque o desânimo citado acima não some quando o assunto é atividade complementar e estágio, então é claro que não completei essas etapas. Mas, me formando ou não, eu realmente não queria que isso acabasse. O que vem depois? O que eu quero que venha depois? Porque eu me pergunto e daí? Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso mais ficar aí parada.
Créditos: Raulzito Seixas