23 de jul de 2018

Não sou feliz no século XXI

Sempre, de certa forma, fui muito dona de mim, e daquilo que me rodeava.
- Quero ser Historiadora, papai.
- Mas minha filha, por que você não faz algo que dê dinheiro - direito ou administração, risos -, e depois que estiver estabelecida, segue seu sonho?
- Não, quero estudar História.
Estudei história. Foram os melhores anos de minha vida, obscurecidos pelos anos posteriores. Se eu me sinto bem com alguma coisa, é com a pesquisa, com o marxismo. Estudando História, decidi que não queria dar aulas.
- E aí, Helen, estudando para o concurso? - perguntam alguns colegas de classe.
- Não vou dar aulas. - viram o rosto e me ignoram.

Engatei minha graduação com a copa de 2014 e, logo após, sem férias nem nada, iniciei o curso técnico em Museologia, tendo poucas vezes na vida entrado em um museu, apenas para fugir das salas de aula - engana-se quem acha que fujo de alunos, fujo mesmo é dos professores - e me embrenhar no mundo da pesquisa. Estudei e me encontrei nos museus. Ou me perdi. Amo preservar o patrimônio, divulgar a história, deixá-la didática e fisicamente bonita para toda e qualquer pessoa que se interesse ou que caia ali. Adoro ver a satisfação em seus sorrisos. Mas me sinto oca. De repente, assim.


Amo História. Odeio intelectuais. Amo o marxismo, odeio a burguesia. Amo a pesquisa, detesto os prepotentes rebuscados que não pensam em propagar a pesquisa para o entendimento de todos. Do mesmo modo, odeio aqueles que buscam "democratizar" estudos acadêmicos avacalhando-os porque imaginam que aqueles com "menos instrução" são incapazes de entender de forma não desenhada. Sabe aquela pessoa desconstruída tão artificialmente gentil que fala conosco como se fôssemos bebês incapazes de entender o be-a-bá e chamam a gente de Flor? As pessoas são medíocres.

Eu quero arte, quero filosofia, política e o concreto da arquitetura. Mas não quero os acadêmicos. Os escritórios. Os colegas de profissão. Os "da escala superior de ensino".
Eu quero bares, oficinas mecânicas, prédios em construção. Quero falar bobagens e rir de piadas horríveis, beber e comer e falar mal da vida despretensiosamente e de chinelo, sem, para isso, estar em algum lugar gourmet gentrificado.
Eu assisto filmes suecos, mas não quero estar com aqueles que também assistem e ficam brigando entre si com seus intelectualismos proferidos por aquêle sôtáquê paulistânô, vélhô, sáábê, Juliâná? Bânner Câma Spotshifái Brêja Vilá Madá Píínáá_ MÊU.

Eu odeio São Paulo também. Percebem o tanto de coisas que odeio? Mas não mais que o século no qual tenho que viver. Não sei, de repente eu percebi como não aguento mais isso que vocês inocentemente denominam globalização. Tinha apagado o twitter porque lá só se fala bosta. Quase apaguei facebook pelo mesmo. E o que dizer do stories do instagram? Nem numa missa você vai mais sem os celulares estarem filmando tudo. Se eu fosse Deus poria fogo em todos aqueles aparelhos na missa de Corpus Christi de 2017.

Me sinto muito ludibriada pelas gerações anteriores, onde a vida adulta parecia uma bela de uma putaria, mas somos na verdade corpos virgens cansados se digladiando na linha vermelha do metrô, fazendo piadas safadas na internet mas tendo uma timidez digna de vergonha na vida real, onde nossas festas são jovens estilosos mexendo em seus iPhones e colocando para tocar artistas e bandas de nome estranho que é uma frase sem sentido com o mesmo sotaque que não vou repetir aqui. Nós nem cara de velhos temos mais. Eu sei lá se estou inventando, se estou doida, se sei lá o que. Mas chega o domingo à noite e eu começo a pensar na merda sem sentido que é a vida. A gente se enche de saberes e objetos para preencher um vazio que só se expande. É a fome do Eresictão. Eu queria a simplicidade de um mundo mais silencioso e de luz natural. Do escuro da noite sombrear as árvores, e de ser possível enxergar meu próprio pé pela luz da lua e das estrelas. Sem para isso esse estilo de vida virar moda e hashtag também.

Então hoje, aos 26, diferentemente dos últimos anos da adolescência, não sei que porra estou fazendo que nada me agrada. Não sei o que devo fazer de minha vida. Um breu maior que o final do ensino médio, quando temos correr atrás de uma profissão para sobreviver, pela primeira vez. Temos que pensar em quem nada ou menos que nada têm? Com toda a certeza. Talvez sejam as únicas pessoas que vivam de verdade. Mas angústias são angústias. A minha, a de Graciliano, a de mamãe, a de Vovô Zequinha, que era um Fabiano de Vidas Secas. Sou plenamente consciente de tudo isso, e talvez justamente por isso me agonie viver reclamando de barriga cheia. Era no mínimo um dever estar feliz, mas, e quando o deprimido é justamente o palhaço que se apresenta para fazer o resto da cidade gargalhar?

Agora nem de mim sou dona mais. Perdi a mão, perdeu a graça. São horas preenchidas só para dizer que compareci. As pessoas me vêem rindo e vivendo, então é isso que importa para eles: minha casca. Aí, de repente, chegam aqueles conselhos não solicitados, de quem é Senhor da Razão e sabe das coisas.
- Ah, relaxa.
- Ah, eu já fui assim.
- Ah, não pense nisso.
- Ah, fica bem.
- Ah, isso passa.
Passa. Mas dizer que passa só aumenta a ansiedade para o momento de passar. E ansiedade paraliza. E o que importa é o agora, e não o depois. O problema está agora, a solução deveria estar agora. Então esses conselhos e merda são a mesma coisa. 😀

Now I lay me down to sleep, pois partes desse texto não serão publicadas porque eu seria ofensiva e ingrata demais. Mais do que já fui exatamente agora hehehe


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