11 de jun de 2018

12. The Unforgiven

Essa música é dez anos mais velha que 2011, mas foi a minha música em 2011.

Bom, eu tive meus momentos adolescentes sofridos, infelizmente, como qualquer outra criatura desse mundão de Meu Deus. Um deles foi quase que perpétuo, ainda mexe comigo, mas terminou de uma maneira estranha e inesperada.

Não é segredo que eu adoro um rapaz socialmente desajustado. Minha relação com os mocinhos nunca foi boa, me atrevo a dizer que foi tediosa - o que faço não só cuspindo, como escarrando, no prato em que comi. Hehehe 😅 Teve, entre todos eles, dois que me viraram do avesso. Um desses dois foi Tiago. Tiago era aquele rapaz dos filmes dos anos 1980 que odeia todo mundo e não quer ser observado por ninguém. Não arranja treta, mas não tem paciência para quem está começando.

John Bender, Breakfast Club
Era meu segundo ano do ensino médio, a época mais lixo dos anos escolares. Tinha gente nova na classe, meus amigos voltaram a ser da minha turma. Tiago não era ninguém na minha vida, até ser bastante ridículo - para não dizer preconceituoso - com meu melhor amigo. E o que é que eu fiz?

☐ Defendi meu melhor amigo
☐ Entrei na onda do bullying
☒ Me apaixonei

Pois é. Tiago era lindo, "mau", dois anos mais velho que eu, curtia rock, e tinha uma boca digna do Saul Hudson (descubram quem é este homem). Boca esta que nunca beijei, mas que faz jus a muitas descrições românticas de Álvares de Azevedo.

Na verdade ele não era "mau". Era um moleque repetente com problemas familiares, sociais, econômicos, e com a ordem das coisas. Ele era por fora o que eu sou até hoje por dentro. Eu admirava essa raiva toda, e compartilhei dela. Teve até um momento em que eu soube (eu não estava presente) que ele havia me defendido de uma zoação feita por um colega meu em relação a mim, olha só.

Mas nunca ficamos. Primeiro, porque eu fugia dele. Depois, porque ele tinha sua prometida, e em sua mão reluzia uma aliança de compromisso que já durava quatro anos (isso a gente descobre stalkeando à la mode dos anos 2000: escutando conversa alheia mesmo).

Pois bem. Se não foram beijos e sarração, o que Tiago me trouxe, afinal?

1. Muitas dores. Penso que minhas palpitações de ansiedade atualmente reativadas começaram nessa época. Ou seja, são pelo menos 9 anos de palpitações sem tratamento médico. Parece brincadeira, mas eu, a partir daí, tinha pavor de ir para a escola. Era batata: até 16h00 eu estava bem, às 16h45 eu desesperava. Faltava o ar, doía o peito. Eu, supersticiosa que sou, achava que era premonição de algo ruim que estava para acontecer. Ia para escola então rápido, sem olhar para os lados, com uma raiva de tudo e de todos, querendo me enterrar lá no quinto dos infernos.

Mas ele sempre estava lá... Na escadinha em frente a um bar, quase na esquina, fumando com os amigos. Eu podia estar tanto em Breakfast Club como 10 things I hate about you nessa época. Quase sinto saudades - só que não. Quando passava pela escadinha, eu queria olhar para ele, decorar cada expressão e viver as próximas 24h só de lembranças; mas eu fugia, porque para mim é como se ele soubesse tudo o que eu estava pensando. Paranoias que ainda hoje insistem em me acompanhar.

Patrick Verona, 10 Things I hate about you
2. Aprendi a gostar de Metallica. É comum eu ser como a Vampira do X-Men e me apropriar daquilo que os crushs têm de bom a me oferecer. Até um tempo atrás eu achava que consumia tudo isso, e então, quando eles não tinham novidade nenhuma, eu metia o pé porque não tinha mais nada de útil e lucrativo para a minha vida. Pensamentos sinceros, talvez certos, talvez ridículos, mas que ficaram no passado: não sou mais assim. O fato é que ele amava Metallica, assim como amo Pink Floyd. Se alguém observar minhas tabelas do last.fm verá que Metallica ainda é minha top 5 bandas mais ouvidas desde 2009. Graças a esse rapaz. Graças a ele, também, me apaixonei por Clifford Lee Burton.

3. Sonhos poéticos. Sonhei algumas vezes com ele, eram sonhos bonitos que poderiam virar contos com uma ambientação meio Poe com Lovecraft, meio expressionista. Jamais me esqueço do breu que eram as noites nesses sonhos, da profundidade da cor preta do piche do asfalto, que reluzia como se tivesse acabado de chover. A névoa, o silêncio. Representações do jeito de ser, talvez.

Não sei se aprendi mais alguma coisa. Troquei uma ou duas palavras com ele na vida, até porque era estagiária da sala de informática da escola, então eu que configurava os computadores para as aulas. Dizia os procedimentos e ele sempre foi educado comigo. Talvez soubesse, ou não, como impactava a minha vida - e a da minha melhor amiga, por tabela.

Bom, the time is gone, the song is over... No meio do terceiro ano ele desistiu de vez da escola. Continuei, terminei. Seis meses depois passei na escola técnica de museologia e na faculdade, optando pela graduação. A partir daí conheci, fiquei e namorei com outras pessoas, diferentíssimas de Tiago. De vez em quando nos víamos pelo bairro, ou no ônibus. Podia estar apaixonada por outros, mas meu coração sempre levava uma pancada quando o via. Ainda me lembro da última vez que nos vimos. Estava com uma tatuagem no pescoço, e continuava com a mesma aliança. Voltava do trabalho e talvez tenha me visto e sorrido, como costumávamos fazer, nos cumprimentando polidamente.

Também nunca me esqueci de seu aniversário. Nasceu em 05 de outubro de 1990. Um dia depois é aniversário de mamãe. Em seu aniversário de 21 anos iniciei meu namoro com outra pessoa, que também faz parte de um passado tanto recente como distante.

Um mês após um desses aniversários, acho que em 2016, minha amiga me deu a notícia que Tiago havia falecido. Trabalhava em uma profissão que desconheço, foi acidente de trabalho. Caiu de uma escada e se foi. Os amigos que tinha lamentaram sua partida. Minha amiga e eu silenciosamente lamentamos demais também. Jamais chorei a sua morte, acho que fiquei para sempre no estado de negação. Mas é uma coisinha que a gente sente que incomoda demais. Ao mesmo tempo, eu paro para pensar em toda aquela turma de quase 45 alunos. No seu amigo William, o Gordo, que era nosso colega, e que também morreu em outras circunstâncias. Quem se lembra de Tiago? Quem soube que morreu? Quem deles se importou com isso? Quem soube o que senti? Quem prestou atenção em como ele era? Ele poderia ser mais uma história não contada, mas por um acaso existe eu para lembrar de tudo aquilo que ele deixava transparecer, como também minhas imaginações sobre sua pessoa.

E é isto. A música, na minha cabeça essa música é ele. A gravação do álbum, inclusive, foi iniciada quando ele tinha 1 dia de vidaE foi a minha mais ouvida em 2011.

12. a song that you love from 2011 (uma música que você ama de 2011)

What I've felt / What I've known / Never shined through in what I've shown / Never be / Never see / Won't see what might have been / What I've felt / What I've known / Never shined through in what I've shown / Never free / Never me / So I dub thee Unforgiven

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12 comentários:

  1. Nossa Helen, senti uma nostalgia absurda lendo o seu post. Me lembrei desses amores e dessas dores adolescentes, que a gente só sente nessa época. E que pena que o Tiago nunca soube o quanto ele marcou a sua vida. Me fez pensar no tanto de pessoas que passa pelas nossas vidas e nas tantas possibilidades de ter marcado a vida de alguém. <3

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    1. não imaginava desencadear esse pensamento. quantas pessoas são importantes para nós e não sabem, e como somos importantes para quem nem imaginamos, não é mesmo?

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  2. "The Unforgiven" fez parte do meu 2013, assim como a segunda e a terceira versão da música. Engraçado, né, como alguns acordes trazem de volta toda uma época...

    A propósito, postagem maravilhosa. Meia doída, porque perdas sempre o são, mas maravilhosa. Gosto de ler memórias.

    Abraços, Helen! Bom domingo para você!

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    1. sim, acho incrível como a música nos transporta para lugares, situações, tempos que não voltam mais... e as três músicas são maravilhosas.
      obrigada, boa semana! e fico feliz que tenha gostado, também adoro e prezo muito pelas memórias.

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  3. Caraca, nem sei o que dizer depois dessa historia toda. Adoro como as musicas nos movem através do tempo, é tão louco pensar que algo assim tem tanto significado em nossas vidas. Mesmo que pra você seja uma historia doida, eu a achei muito interessante, me lembrou muito uma fanfic que li a tempos atras (sim fanfic :/). Enfim, amei a postagem.

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    1. nossa, fiquei curiosa com essa fanfic! pode me passar depois? hahahahaha mas a minha história foi verdade (talvez um pouco romantizada, mas ainda assim real). fico feliz que gostou!

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  4. Fico até sem jeito em ler uma postagem dessa,afinal me fez lembrar do que passei alguns dias atrás. É horrível ter a sensação de amar e não ser amado,e o pior é que eu sinto um algo pela minha melhor amiga mas minha aparência física me prejudica demais.

    É péssimo isso,mas stalkeando nós descobrimos se a pessoa ter uma outra cara metade. Eu fico a imaginar como é você continuar vendo pelas ruas da cidade a pessoa que você gostava no ensino médio,é tão diferente e apaixonante.
    // clareiamô

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    1. nem me fale em amar e não ser amado... eu até agora não sei o tipo de coisa que estou vivendo nesse setor da vida. e como assim aparência física, Lucas? se o carinho é sincero isso não deve interferir de jeito nenhum.

      sobre ver a pessoa que a gente gosta, não contei mas depois que o Tiago morreu eu imaginava que era ele os rapazes fisicamente semelhantes. só um segundo depois entendia que vê-lo novamente era impossível. não era dolorido, mas dava muita pena.

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  5. Essa música. Eu amo essa música de uma forma. Inclusive, já quase botei como nome de um dos meus blogs "The Unforgiven".
    É poderoso como uma música nos traz tanto e nos leva a tantas coisas. É louco como as pessoas nos marcam como fogo e muitas vezes sequer imaginam isso. É uma história doída e que me deixou toda bamba, mas que eu gostei tanto de ter lido.

    um beijo,
    acid-baby.blogspot.com

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    1. essa música é maravilhosa <3
      marcar como fogo, adorei essa expressão, é isso mesmo. são cicatrizes, o que me lembra scar tissue, do red hot chili peppers.

      beijo, Ana!

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  6. E eu to chocado com essa história. Como você sabe e se lembra de tantas coisas relacionadas. Como a música marcou alguém muito melhor do que uma foto que você encontra depois de revirar um baú empoeirado. Do tempo, tempo, tempo e das lembranças. Incrível.

    Boa noite. Beijos.
    ☂ Sem Guarda-Chuvas

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    1. essa quantidade de lembranças e relações é o que mais tenho medo de perder, sobre qualquer história, Ricardo! e sim, marca mais que a cena de uma fotografia.

      beijos e boa noite também!

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