Atenção! Agora os comentários do blog são via disqus. Eu utilizava o modelo mínima ♥ (não se faz mais templates como antigamente), mas estava dando bug no ato de responder comentários. Mudei para o modelo simples (vocês já perceberam que esses templates grátis são todos iguais? Deus me livre), e deixei o mais simples possível. Daí movimentei meu disqus e vi que tem algo novo e legal, como as reações e os gifs, que são a melhor invenção da internet. Então aproveitem! Qualquer erro, call me!

28 de jun de 2018

19. Réquiem para uma flor

Raul Seixas - Krig-ha, bandolo! 1973
Hoje é feriado, é dia da saudade!

Neste Raul dos Santos Seixas Day não posso deixar de homenagear o canceriano sem lar. Ele, que como disse bem a Vani Américo na rádio esta manhã, está completando seus dez mil e setenta e três anos. Que é o início, o fim e o meio da minha vida, que aprendi a gostar com papai. Que me lembro do exato dia, lá pelos anos de 1997, no Brás, em que papai comprou o disco que me fez pensar por toda a infância, que me traduziu na adolescência, que mexe comigo até hoje. Um dos nossos primeiros objetos denominados Compact Discs.

Vocês não fazem ideia do que é o ser humano "eu" somada a outros raulseixistas cantando, pulando e interpretando Raulzito. Raul tem quarenta e oito quilos certo, quarenta e oito quilos de baião (eu tenho quase isso), que mistura Gonzagão com Presley, Gonzagão este que uma conhecida minha comentou em sua infância que era o "Elvis Presley brasileiro", com toda a sabedoria. A união do forró com o rock que é totalmente a minha essência, e toda a graça da minha vida. Porque, sem música, a vida seria um erro, et cétera e tal.

A música de hoje é aquela que a gente sempre tem - espero, ao menos -: é aquela que tem a função de socar bem forte a nossa alma até o infinito de nós mesmos, como que se abrisse um buraco negro bem lá no fundo do peito e a respiração se invertesse. É um mergulho no absoluto desconhecido, uma volta àquele passado que não vivemos, mas que nos é mais caro e conhecido que o nosso próprio.

"Vida" para mim, se eu fosse resumir, com todas as referências que tenho, seria melhor exemplificada por réquiem para uma flor. É aquilo lá: curto, direto, lacrimoso, poético, latinoamericano, da natureza, das palavras, do vento - porque essa música para mim sou eu voando acima deste planeta, com exatamente mais 0.000.000.000 de seres humanos ao meu redor ou abaixo de mim. E esse sentimento, minhas amigas e meus amigos, é a minha particular percepção de Deus. Deus é o vento nas árvores e o silêncio das pedras. As montanhas caladas e os girassóis que se movem diante do Astro-Rei. 🌞

19. a song that makes you think about life (uma música que te faz pensar sobre a vida)
Incapaces los hombres que hablam de todo y sufren callados.

* Por quem os sinos dobram é uma parceria entre Raul Seixas e o argentino Oscar Rasmussen, nele está contida Réquiem para uma flor.
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11 de jun de 2018

12. The Unforgiven

Essa música é dez anos mais velha que 2011, mas foi a minha música em 2011.

Bom, eu tive meus momentos adolescentes sofridos, infelizmente, como qualquer outra criatura desse mundão de Meu Deus. Um deles foi quase que perpétuo, ainda mexe comigo, mas terminou de uma maneira estranha e inesperada.

Não é segredo que eu adoro um rapaz socialmente desajustado. Minha relação com os mocinhos nunca foi boa, me atrevo a dizer que foi tediosa - o que faço não só cuspindo, como escarrando, no prato em que comi. Hehehe 😅 Teve, entre todos eles, dois que me viraram do avesso. Um desses dois foi Tiago. Tiago era aquele rapaz dos filmes dos anos 1980 que odeia todo mundo e não quer ser observado por ninguém. Não arranja treta, mas não tem paciência para quem está começando.

John Bender, Breakfast Club
Era meu segundo ano do ensino médio, a época mais lixo dos anos escolares. Tinha gente nova na classe, meus amigos voltaram a ser da minha turma. Tiago não era ninguém na minha vida, até ser bastante ridículo - para não dizer preconceituoso - com meu melhor amigo. E o que é que eu fiz?

☐ Defendi meu melhor amigo
☐ Entrei na onda do bullying
☒ Me apaixonei

Pois é. Tiago era lindo, "mau", dois anos mais velho que eu, curtia rock, e tinha uma boca digna do Saul Hudson (descubram quem é este homem). Boca esta que nunca beijei, mas que faz jus a muitas descrições românticas de Álvares de Azevedo.

Na verdade ele não era "mau". Era um moleque repetente com problemas familiares, sociais, econômicos, e com a ordem das coisas. Ele era por fora o que eu sou até hoje por dentro. Eu admirava essa raiva toda, e compartilhei dela. Teve até um momento em que eu soube (eu não estava presente) que ele havia me defendido de uma zoação feita por um colega meu em relação a mim, olha só.

Mas nunca ficamos. Primeiro, porque eu fugia dele. Depois, porque ele tinha sua prometida, e em sua mão reluzia uma aliança de compromisso que já durava quatro anos (isso a gente descobre stalkeando à la mode dos anos 2000: escutando conversa alheia mesmo).

Pois bem. Se não foram beijos e sarração, o que Tiago me trouxe, afinal?

1. Muitas dores. Penso que minhas palpitações de ansiedade atualmente reativadas começaram nessa época. Ou seja, são pelo menos 9 anos de palpitações sem tratamento médico. Parece brincadeira, mas eu, a partir daí, tinha pavor de ir para a escola. Era batata: até 16h00 eu estava bem, às 16h45 eu desesperava. Faltava o ar, doía o peito. Eu, supersticiosa que sou, achava que era premonição de algo ruim que estava para acontecer. Ia para escola então rápido, sem olhar para os lados, com uma raiva de tudo e de todos, querendo me enterrar lá no quinto dos infernos.

Mas ele sempre estava lá... Na escadinha em frente a um bar, quase na esquina, fumando com os amigos. Eu podia estar tanto em Breakfast Club como 10 things I hate about you nessa época. Quase sinto saudades - só que não. Quando passava pela escadinha, eu queria olhar para ele, decorar cada expressão e viver as próximas 24h só de lembranças; mas eu fugia, porque para mim é como se ele soubesse tudo o que eu estava pensando. Paranoias que ainda hoje insistem em me acompanhar.

Patrick Verona, 10 Things I hate about you
2. Aprendi a gostar de Metallica. É comum eu ser como a Vampira do X-Men e me apropriar daquilo que os crushs têm de bom a me oferecer. Até um tempo atrás eu achava que consumia tudo isso, e então, quando eles não tinham novidade nenhuma, eu metia o pé porque não tinha mais nada de útil e lucrativo para a minha vida. Pensamentos sinceros, talvez certos, talvez ridículos, mas que ficaram no passado: não sou mais assim. O fato é que ele amava Metallica, assim como amo Pink Floyd. Se alguém observar minhas tabelas do last.fm verá que Metallica ainda é minha top 5 bandas mais ouvidas desde 2009. Graças a esse rapaz. Graças a ele, também, me apaixonei por Clifford Lee Burton.

3. Sonhos poéticos. Sonhei algumas vezes com ele, eram sonhos bonitos que poderiam virar contos com uma ambientação meio Poe com Lovecraft, meio expressionista. Jamais me esqueço do breu que eram as noites nesses sonhos, da profundidade da cor preta do piche do asfalto, que reluzia como se tivesse acabado de chover. A névoa, o silêncio. Representações do jeito de ser, talvez.

Não sei se aprendi mais alguma coisa. Troquei uma ou duas palavras com ele na vida, até porque era estagiária da sala de informática da escola, então eu que configurava os computadores para as aulas. Dizia os procedimentos e ele sempre foi educado comigo. Talvez soubesse, ou não, como impactava a minha vida - e a da minha melhor amiga, por tabela.

Bom, the time is gone, the song is over... No meio do terceiro ano ele desistiu de vez da escola. Continuei, terminei. Seis meses depois passei na escola técnica de museologia e na faculdade, optando pela graduação. A partir daí conheci, fiquei e namorei com outras pessoas, diferentíssimas de Tiago. De vez em quando nos víamos pelo bairro, ou no ônibus. Podia estar apaixonada por outros, mas meu coração sempre levava uma pancada quando o via. Ainda me lembro da última vez que nos vimos. Estava com uma tatuagem no pescoço, e continuava com a mesma aliança. Voltava do trabalho e talvez tenha me visto e sorrido, como costumávamos fazer, nos cumprimentando polidamente.

Também nunca me esqueci de seu aniversário. Nasceu em 05 de outubro de 1990. Um dia depois é aniversário de mamãe. Em seu aniversário de 21 anos iniciei meu namoro com outra pessoa, que também faz parte de um passado tanto recente como distante.

Um mês após um desses aniversários, acho que em 2016, minha amiga me deu a notícia que Tiago havia falecido. Trabalhava em uma profissão que desconheço, foi acidente de trabalho. Caiu de uma escada e se foi. Os amigos que tinha lamentaram sua partida. Minha amiga e eu silenciosamente lamentamos demais também. Jamais chorei a sua morte, acho que fiquei para sempre no estado de negação. Mas é uma coisinha que a gente sente que incomoda demais. Ao mesmo tempo, eu paro para pensar em toda aquela turma de quase 45 alunos. No seu amigo William, o Gordo, que era nosso colega, e que também morreu em outras circunstâncias. Quem se lembra de Tiago? Quem soube que morreu? Quem deles se importou com isso? Quem soube o que senti? Quem prestou atenção em como ele era? Ele poderia ser mais uma história não contada, mas por um acaso existe eu para lembrar de tudo aquilo que ele deixava transparecer, como também minhas imaginações sobre sua pessoa.

E é isto. A música, na minha cabeça essa música é ele. A gravação do álbum, inclusive, foi iniciada quando ele tinha 1 dia de vidaE foi a minha mais ouvida em 2011.

12. a song that you love from 2011 (uma música que você ama de 2011)

What I've felt / What I've known / Never shined through in what I've shown / Never be / Never see / Won't see what might have been / What I've felt / What I've known / Never shined through in what I've shown / Never free / Never me / So I dub thee Unforgiven

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2 de jun de 2018

13. Aqualung

Warning: este é um daqueles posts feitos no calor do momento enquanto balanço ao som de uma música, então sai algo completamente doido e extenso, porque são apenas feelings, no melhor modo Helen de ser.
Do you still remember december's foggy freeze?
Existiu um tempo perturbadoramente delicioso e solitário neste blog, entre dez e sete anos atrás, onde meu eu adolescente escrevia coisas que eu completamente não entendo hoje em dia, mas que fazem mais sentido que a vida adulta (se ninguém contou a vocês ainda, ela é uma merda).
Leg hurting bad as he bends to pick a dog-end
O Ian sou eu mesma quando de folga
Sou fã doente de John Frusciante, Vincent Gallo e Jethro Tull. É possível que haja ligação histórica entre esses artistas, fato que ignorarei - como sempre - nesse post. Ele é resultado de um dia relembrando meus eus passados, com uma nostalgia que só não dói mais que meu corpo, porque meu corpo está doendo muito, depois de um dia de banho em cachorras, troca de vasos de plantas e rinite atacada.
Feeling like a dead duck spitting out pieces of his broken luck
Lembrar de meus eus passados é importante, já que faltam 34 dias para meus 26 anos (façam as contas), e no último ano não fui de modo algum eu mesma, ou, se fui, fui uma eu completamente oposta aos meus eus passados. Novos sentimentos, novas (muitas) dores, novas insistências, submissões (ai, que ódio disso), desesperos, necessidades, descontroles, crises de choro e de ansiedade, enfim. Não tenho sido quem eu costumava ser.
Yesterday's dreams
Para vocês terem uma ideia, em pelo menos dois aniversários meus, estava sentada aqui escrevendo textos intitulados too old to rock and roll, too young to die. Isso quando eu tinha quase 200 postagens de menina, xingando Deus e o Diabo na terra do sol. Vou fazer um post com esse título esse ano? Muito provavelmente. Ou não. A música fala basicamente, mas não só, de roqueiros que não abandonam seu posto jamais, enquanto os amigos "cresceram", casando-se, tendo filhos, comprando e trocando carros conforme a moda, participando de eventos irritantes da sociedade, enfim, moldados por ela. O que um rockstar raiz tem absoluto horror. Antes e depois de conviver com pessoas que se tornaram absolutamente conservadoras, eu tinha horror a isso. Ainda tenho, mas foda-se. Aprendi o foda-se que tanta gente me aconselhou (o conselho "basta tacar o foda-se" ainda é uma merda, não ouçam nem digam - nem leiam, argh). Então foda-se a vida de merda que as pessoas levam, porque a minha vida mesmo está desestabilizada e eu sou prioridade para mim mesma.

Mudo de assunto, gosto de azul: não era para lamúrias que vim aqui. Era para comentar do Jethro Tull, que é uma banda que aprendi a gostar ouvindo uma vinheta da kiss.fm, e os programas apresentados pelo Rodrigo Branco quando ele era um cara legal e não um cara esquisitamente nórdico nas redes sociais.

Então estava lá, aquela música com um quê de medieval setentista, satírica, desesperada, exposta, gritando para mim, totalmente a minha cara. Porque eu sou absolutamente introvertida, só que não, na verdade eu sou o Ian Anderson mulher, sem aquela barba maravilhosa, porém com os mesmos olhos infinitos, querendo dizer, juntamente com o corpo, o que a voz que sai do profundo da garganta não dá conta de dizer. Quem me conhece e não imagina, me dê algo para beber e toque uma playlist com aqualung e war pigs, para ver se eu não fico doida.
When the ice that clings on to your beard was screaming agony 

O rock  progressivo e a década de 1970 são duas das 3,1415... coisas que me resumem, então quando tento falar sobre, é rasgando meu peito, é querendo parar o mundo e obrigá-lo a sentir todas as infinitas e profundas sensações que eu mesma sinto em cada milésimo de segundo de minha vida, inclusive dormindo. Temos o costume de dizer que "isso é coisa de jovem, é da natureza do adolescente essa confusão de sentimentos", porém tenho quase vinte e seis e ainda sou um completo grito dentro de mim, abafado, contínuo, contido, para satisfazer as mais diferentes pessoas e se adequar a qualquer situação, porque infelizmente nasci versátil (o que facilmente pode se confundir com covarde).
You poor old sod, you see, it's only me
Sempre apontei o dedo para quem não era corajoso demais, ou para quem tinha personalidade de menos, ditando o que deveriam fazer. Sou autoritária que nem o cão. Mas teve uma professora que uma vez ensinou aquele ditado que pode ser exemplificado com as mãos: enquanto aponto um dedo para alguém, há três apontando para mim. Então eu reclamo daqueles de pouca personalidade e muita covardia, sendo eu mesma uma deles. Como diria Raul "eu que me achava diamante nas mãos de mendigos, pelo medo de não sê-lo" - reflitam.
Ian Scott Anderson
Eu poderia simplesmente ter resumido esse post em: pelo amor de deus ouçam essa música na versão de estúdio de 19 de março de 1971 (dia de São José!), e assistam na melhor versão ao vivo de 1977, porque Ian Anderson é minha persona ébria, medieval, fisicamente deliciosa (eterno crush), desesperada, apaixonada, lírica, trovadora, ruiva, barbuda, flautista. Também poderia resumir em: leiam Dostoiévski e Graciliano Ramos. Ou ainda: não percam a essência, revisitem-na. É o único modo de ser muito velha para o rock and roll, e muito nova para morrer. Não nos entreguemos por completo à ordem, que a desordem prevaleça: seja nos desesperos da literatura russa, ou nos gritos, nos graves e nos agudos do rock progressivo.

13. one of your favorite 70's songs (uma de suas músicas favoritas da década de 1970)


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1 de jun de 2018

Lavoura Arcaica - 2001

"Quanto mais engrossam a casca, mais se torturam com o peso da carapaça. Pensam que estão em segurança, mas se consomem de medo. Escondem-se dos outros, sem saber que atrofiam os próprios olhos. Fazem-se prisioneiros de si mesmos e nem sequer suspeitam. Trazem na mão a chave, mas esquecem que ela abre. São obsessivos, afligem-se com seus problemas pessoais, sem chegar à cura, pois recusam o remédio. A sabedoria está precisamente em não se fechar neste mundo menor. Humilde, o homem abandona a sua individualidade para fazer parte de uma unidade maior, que é de onde retira a sua grandeza."
"Nos que gritam de sede, ardência e solidão: era só neles que eu pensava."

Me indicaram este filme duas vezes: direta e indiretamente (a segunda vez foi aqui).
Para ler: Lavoura arcaica e Obra completa de Raduan Nassar.