6 de mai de 2018

O dia em que eu encontrei a Consolação

Estou há um mês querendo e postergando o relato sobre meu encontro com Antônio José Santana Martins. Mas, em algum momento da minha vida isso deve sair, e é melhor logo para não perder mais pedaços de minha lembrança.

Foi um dia ruim. Era sexta-feira, muito intensa e exigente. Já eram uma semana, um mês, um ano complicados para mim. Para compreenderem, há pouco comecei terapia, porque sozinha não está dando mais, de modo algum.

Então, depois do serviço, fui tomar um café, porque eu mereço um café, e me paparico com cafés ou chás sempre que estou péssima, ou simplesmente à toa. Eu estava os dois. A cafeteria tem wifi grátis, então lá estava eu dando coraçõezinhos no instagram, quando vi a notícia embaixo da foto de Antonio José: "Hoje, turma! 20h No evento São Paulo - a capital tropicalista, para uma conversa com o diretor da #CCSP, Cadão Volpato, sobre a São Paulo da época do tropicalismo. Será na Sala Adoniran Barbosa, às 20h e é gratuito!"

Eu pensei assim: será que é hoje? Porque o instagram costuma ser anti-cronológico. Aí eu olhei, triste que só uma condenada, e pensei: é melhor ficar triste tentando ver essa palestra do que ir triste para casa. Porque, meus amigos, era uma tristeza do diabo. Vi a notícia - que havia sido postada há 3 horas atrás - às 18h30. Estava no Ipiranga, cheguei na Vergueiro às 19h00. Perguntei o local para o moço da sala de informações, que se chamava Vinícius e era um doce e pura simpatia, e ele me disse onde era e sugeriu de eu ver a exposição enquanto não chegava a hora. Tentei ir na exposição, mas tinha uns burgueses safados um pessoal meio estranho na porta, e eu já não estava legal e queria ficar sozinha, então desci para a porta da sala e fiquei ouvindo Animals até dar o horário.

Deu 20h e nada, só eu e mais alguns burgueses safados jovens hipsters à espera. Daí o moço que organizou a fila dizendo que não começava 20h coisa nenhuma e que era 20h30 - claramente uma mentira, o coitado do entrevistado deveria estar no trânsito ou algo assim; a gente perdoa o trânsito, mas a mentira é fazer a gente de trouxa; mas tudo bem, a vida estava uma merda mesmo -, e deu uns catálogos da exposição para todos nós, e eu dançando de desespero, fiquei em pé na fila trinta minutos sacudindo para lá e para cá, não ansiosa com o futuro, mas desgraçada no meu presente.

Abriram a porta e eu, que cheguei primeiro, mas que não era a primeira da fila, fui até lá e escolhi sentar na segunda fileira de frente para o palco. Mas pensando que ia me dar mal, porque não sei vocês, mas todo lugar aparentemente tranquilo e confortável que escolho para sentar, em ônibus ou qualquer lugar, é exatamente do lado, na frente ou atrás de alguém que não cala a porra da boca e fala num volume altíssimo, Rogerinho, coisa de louco um negócio desse. Impressionante. Mas eram hipsters-fãs, então começou o negócio e graças a Deus eles se calaram porque vangloriam Antônio José como eu mesma faço mas não quero admitir meu hipsterismo meio rebelde.


Eu estava lá, sentada, cansada, com uma profunda dor no peito que parecia uma cena de Suspiria, vendo um dos homens que mais amo nessa vida (e que o crush denominou como meu novo crush), do meu Nordeste, falando, magro e pequeno, com aquele sotaque mais gostoso e mais familiar da face da terra, sobre suas lembranças de Irará, de quando veio para São Paulo, de como é Caetano bravo (vamos ver um filme, ter dois filhos, ir ao parque, discutir Caetano), de como dividia a comida com Bethânia, e as pensões em que morou, e o corno da cidade de Irará, e como funcionavam as lojas antes de inventarem a compra a crédito, uma novidade que transformou os armazéns em verdadeiros bancos, o gibi da Valentina, etc. Ele não respeitava as perguntas do diretor do CCSP, que estava adorando sua independência e o fluxo contínuo de lembranças, assim como todos nós, rindo, inclusive eu, mesmo que triste.

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Em minhas dores eu só pensava: como ele está um senhorzinho, com a mão tremendo, esquecendo nomes, se perdendo em suas lembranças e esquecendo coisas pequenas. Mas tão juvenil ao mesmo tempo, de jeans e camiseta, fazendo graça, reclamando do prefeito mão-de-vaca, e o diretor que deu boa noite a todos nós, agradecendo nosso comparecimento mesmo num dia tão triste em que prenderam o maior presidente que o país já teve até o presente momento, e ai que dor, meu deus do céu, como posso estar triste vendo esse homem na minha frente, tão excessivamente perto? (eu não estava triste sobre o Lula, por mais que não o queira preso, é que o existencialismo foi lá no quinto dos infernos neste dia)



Então acabou, mas como diria o rato do Castelo Rá-Tim-Bum, ainda não acabou não, vem cá, vem! Na hora de ir embora, ele falou que venderia umas coisas (discos, cds, livros) e assinaria autógrafos, e eu pensei beleza, vou comprar um vinil e receber um autógrafo de Antônio José. Então eu passei por ele e tinha uns jovens falando com ele e eu só pensei que eram conhecidos, pra chegarem assim tão facilmente. Mas aí parei no meio da escada de repente para tentar a aproximação, porque a vida está uma merda mesmo, se ele me ignorar não tem como eu ficar pior.

Eu só tive tempo de abrir tímida e esperançosamente meus braços como o Cristo Redentor, e já identifiquei aquele sorriso mais gostoso da história da Tropicália e desse país, e ele me abraçou, olhou e continuou abraçado em mim como se eu fosse de Irará na Bahia, uma moradora de sua cidade, uma colega de infância, uma amiga da escola, uma vizinha de sua rua. Porque eu NUNCA ME SENTI TÃO CONFORTÁVEL COM ALGUÉM em um abraço, parecia eu me olhando no espelho de tão comum e corriqueira que foi a situação. Não era apenas Tom Zé, o cantor tropicalista que cantou no 4º Festival de Música Popular Brasileira na Record em 1968 e venceu com "São Paulo, meu amor", o pai da invenção, pela Rolling Stone, e que é amigo e trabalhou com David Byrne, ex-vocalista dos Talking Heads, que me abraçou, mas também Antônio José Santana Martins, baiano, um senhor de 81 anos, nordestino, me abraçando, como só o Nordeste tem pessoas assim, que nem te conhecem e te puxam para dentro de casa para tomar café com queijo e biscoito (e não porra de bolacha), e falar da vida e da sabedoria simples dos homens, sem nem saber seu nome ainda.

Então Tom Zé determinou o tempo do nosso abraço. NÃO FOI DE MODO ALGUM aquele abraço tímido de desconhecidos, sem jeito, de meio segundo. Ele subiu as escadas ABRAÇADO EM MIM MEU-DEUS-DO-CÉU. Foi assim: quando abracei, primeiro que ele quase caiu da escada porque pisou em falso (kkkk risos nervosos), segundo que as pessoas estavam anestesiadas como eu então não havia um ser humano arrogante naquele espaço, o que já é um milagre, e eu só disse Você foi a única coisa boa do meu dia, com toda a minha sinceridade e calor e dor e dor de minha alma. E ele, abraçado em mim, com um sorriso maior que nós dois, falou entusiasmado algo como Ôh, que bom! Agora vamos lá, que eu nem bebi água ainda, mas vou autografar para vocês, e eu não lembro muito bem o que ele disse além disso, mas andamos juntos até a mesa dos autógrafos, e ele me deu um até logo. E eu fiquei naquela muvuca de pessoas querendo ver se eu encontrava Com defeito de fabricação, que é o disco que tem Xiquexique, mas eu nem sabia a capa do disco (eu acho que tinha um lá, mas não identifiquei e alguém pegou), porque sou fã há míseros quatro anos e estou muito velha para decorar discografias, então eu peguei o vinil de Vira Lata na Via Láctea e mais um cd Brazil Classics 4 The best of Tom Ze, paguei naquela zona porque não tinha fila, e fui para a fila do autógrafo.

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O pessoal estava se revezando nas fotografações, porque Tom disse que não tiraria fotos, por causa do tempo e que não tinha autorização de não sei quem, mas é óbvio que nenhum de nós cumpriu o que prometeu e saímos todos rindo, maravilhados. Combinei com o casal de trás que fotografariam para mim, mas a moça da frente pediu para eu fotografá-la, e que depois ela me fotografaria, então ficou combinado assim. Fotografei-os, e foi a minha vez. O Tom: agora fotografa a amiga também, já que ela te fotografou!

Ele pegou o meu vinil, que eu já tinha aberto, e perguntou meu nome. E como está um pouco surdo já, eu fiquei sussurro-gritando em seu ouvido É HELEN. E acho que ele perguntou se era com H, e ele falou que era como o nome da mãe dele. Meu paraibanismo saiu naquela frase: "e é?", e ele falou "É, mas ela era Helena". Autografou tremendo a mão como vovó Ritinha, ditando o que escrevia P/ Helen, abraços, sorte, Tom Zé. Escreveu abraçado em mim, e abraçado em mim se despediu com um Deus te abençoe. Eu me importo 0% com os leitores ateus - que eu respeito tanto quanto ou mais que certos religiosos - quando digo que eu precisava muito ouvir isso. Nem sou religiosa, apesar de católica, mas meu Deus do céu, como eu precisava disso. Parecia um anjo acalmando o meu coração com esse sorte e essa lembrança da própria mãe e esse Deus te abençoe. Quase uma Anunciação do anjo Gabriel, mas essa é a música de Alceu.

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Então fui embora com a mocinha de minha frente da fila, descendente de coreanos. Demos uma última olhada para ele, já atendendo o casal que quase nos fotografou, e que agradeci mesmo assim, e fomos conversando até o metrô sobre essa maravilha de homem, e de como eu estava triste e com saudades da Paraíba, porque quero um dia - não sei quando - deixar São Paulo, e ela muito simpática, dizendo que os nordestinos têm um calor e hospitalidade incríveis (totalmente verdade), e se despediu de mim após a catraca, agradecemos-nos, e me abraçou, desejando sorte, que coisas ruins acontecem, mas passam, e quando passam percebemos como saímos mais fortes do que antes dessas situações. Uma outra anja falando em meus ouvidos. Não sei seu nome, mas sei seu rosto e agradeço essa amizade de dez minutos, que já comentei que é um tipo das melhores amizades que existe.

Cheguei na plataforma sentido Sé no ápice, como um vulcão em erupção, e só sentei e chorei. Chorei, chorei, chorei sorrindo vendo o Tom Zé que acabara de conhecer estampado na capa do disco, chorei pensando se tinha alguém me vendo chorar, rezando para ninguém interromper meu momento, por melhor que fosse a boa vontade, chorei porque percebi que era de dor, mais que de realização, por mais que fosse também de realização, chorei por estar grata (e não estar gratidão, gente parem com isso de gratidão, é grata) de isso ter acontecido, porque sabia que poderia mesmo assim estar chorando, mas seria só de coisas ruins, caso tivesse ido diretamente para casa. E eu chorei! Chorei!

Chorando, agradeci meu amigo Wipsley por cantar "a Brigitte Bardot está ficando ve-lha", descendo as escadas da Etec comigo em 2014, e me contando como eram ótimas as músicas do Tom Zé. Me contando dele chamando a Rita de aquela filha da puta, aquela cachorra sem vergonha, querendo dizer que deve ser muito chato um documentário sobre ela, porque não há nada de mal a se dizer sobre Rita Lee, nunca um documentarista vai achar alguém que diga aquela filha da puta, aquela cachorra sem vergonha!

Continuei chorando, pedi socorro a uma amiga que voltava do trabalho, para que descesse na Sé e voltasse comigo, e chorei para ela, dizendo como a vida é horrível e eu não sabia mais o que queria dela, se até as coisas boas estavam sendo ruins. Mas também contei como foi maravilhoso aquele abraço, e que precisava dizer quantas vezes pudesse ao mundo tudo o que aconteceu para não me esquecer jamais deste dia.

Então, quando acabei de chorar, fomos embora, conversamos, melhorei, mandei áudios contando àqueles que amo o que aconteceu, postei na internet fotos. E assim foi, há exato um mês, meu encontro com o maior tropicalista da história deste país, que tem a música que mais gosto de dançar, que tem a música que mais me lembra meu pai (que um dia uma amiga comentou que numa foto em que postei parecia Tom Zé), que foi massacrado no facebook por pós-modernos porque fez uma propaganda da Coca-Cola, que cantou uma São Paulo que eu tento gostar, mas que só gosto na imaterialidade e não como um todo, que tem uma mãe chamada Helena, o meu nome em português.

Espero que vocês, assim como eu, terminem a leitura desse texto com essa carinha mais fofa do universo 🌌

* Visitem a exposição "Tom Zé 80" até 20 de maio na Caixa Cultural. Ela é bem simples a meu ver museológico, mas bem acessível e informativa sobre a obra desse grande artista que a crítica, a ditadura, e sei lá mais quem tentaram apagar - querendo ou sem querer - da história brasileira, mas que, graças a Deus, ganhou o mundo sendo o pai da invenção.

1 comentários:

  1. Que lindo ♥ Sei nem o que dizer porque nunca passei por uma experiência dessas, mas isso é lindimais

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