devaneios repletos de referências e inúmeras playlists, porque a graça da vida é essa

eternamente grávida de ideias

Helen: eu gosto de escrever. Mas acho brega perfil em 3ª pessoa. Porque eu sou eu. Tenho quase 27, me divido entre São Paulo e Paraíba, presente e passado. Gosto de ler, ouvir, assistir. E cito tudo o que conheci em conversas e apresentações, mesmo que aparentemente não faça sentido.
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15 de dez de 2018

Shut up and play my songs

Meu alter ego é o Pingu
Muitos já me disseram que só gosto de músicas tristes. Mamãe, a Tatiana, a Beatriz. Até indiretamente, eu estava feliz que finalmente havia começado uma música que gosto numa festa de natal, e a pessoa com o controle remoto apenas disse "ai que música triste", e trocou por uma alegre e pop.

Passo horas ouvindo músicas consideradas tristes. Mas não as considerava até o momento em que ouvia alguma lamúria de Belchior e mamãe reclamou. Ou a Tatiana dizendo que meus mantras pareciam pessoas gemendo, morrendo. A Bia disse esses dias "não sei como você consegue ouvir esse tipo de música" - era Vapor barato.

Talvez vocês já tenham percebido que eu adoro impôr e quase que enfiar minha mão pela tela dos computadores de vocês e dar eu mesma play nas músicas que recomendo. Seria capaz de imobilizá-los e fazê-los ouvir mesmo que não queiram. Sim, amigos já me disseram que tenho um - ou dois - pés no autoritarismo. Pois na vida real é o contrário. Eu sou a tradução daquele meme "hahaha você é muito engraçado nas suas postagens, deve ser muito legal na vida real" *você na vida real é o Severo Snape*, só que na versão musical.

Eu fazendo vocês ouvirem o que eu quero por meio desse blog
Vou na casa das pessoas e elas democraticamente me obrigam a botar algo para tocar. Isso equivale ao fala alguma coisa, que me trava completamente e minha mente vira a tela azul do windows. Vou ter que fazer uma playlist "Coisas que eu devo ouvir na casa dos outros", para não ser pega de surpresa com essa imposição.

Seria o meu momento de autoridade, de mostrar para o pessoal minhas qualidades auditivas™, mas eu simplesmente me escondo na minha carapaça de carangueja. Botar uma música minha para alguém ouvir é ficar nua. Nua em alma. Porque em corpo, convenhamos, é muito fácil. Principalmente quando tento colocar as minhas top 10 e a pessoa diz "não gostei". Nada contra a pessoa não gostar das minhas músicas, também não gosto das músicas dos meus amigos. Mas como são coisas de eras atrás, e que me atraem muito além dos riffs de guitarra, ouvir um comentário que deveria ser natural é a mesma coisa de me chamar gratuitamente de filha da puta.
Parece drama. Mas não é a intenção, só estou apontando o quão curiosa é essa relação que tenho com o que ouço, e como é perigoso mostrar essas coisas que nem são minhas, mas que são tão de mim, que me embaraço, me escondo, sinto ciúme. É como dar o ouro ao ladrão.

Mas escrever sobre música, ah. Isso eu faço com os pés nas costas, de olhos fechados, de cabeça para baixo. É a grande graça desse blog, inclusive. Vocês não acham? Eu acho. Nietzsche estava certíssimo em considerar que sem música, a vida seria um erro. A minha, por exemplo, não faria sentido algum.


Só comecei esse texto porque estava ouvindo Nights In White Satin do The Moody Blues e fiquei com aquele aperto no peito que me fez querer escrever. Nem sei que fim dar a esse post, mas acho que vou utilizá-lo como pretexto introdutório para criar playlists temáticas e compartilhá-las aqui, mesclando as ideias muito boas da Michelle e da Gabriela, além de, de fato, ter o que tocar na casa do boy. Ou mesmo o que tocar conforme meu humor para criar os relatórios lá do museu. Porque às vezes você perde a vontade de ouvir música, ou a inspiração para alguma atividade simplesmente porque deu play na estação errada, ou buscou tudo e não encontrou nada, ficando enfastiada.

E é claro que vou desenhar bastante. É um projeto de anos que eu movimentei 0 dedos para concretizar, até agora. Mas 2019 está chegando, e fim de ano é o momento das promessas. O 30 day music challenge é algo que continua, e que virará playlist também. Pretendo buscar mais tags e memes para concretizar aqui no blog - se souberem de alguma, me avisem. Ousar resenhar filmes com trilhas sonoras que arrancam suspiros do meu coraçãozinho. Isso tudo vai me ajudar nos artigos, resenhas da pós e, quem sabe, no projeto de mestrado de logo mais.

Tudo isso dito, nada me impede de ouvir e dançar todo tipo de música. Tenho meu lado Apolo e meu lado Dionísio, temáticas que posso abordar aqui depois também. Então é claro que, se há festa, e se na festa há álcool, obviamente rebolo até não aguentar mais. Clique aqui para assistir meu gosto musical resumido em 15 segundos.

Eu ontem na festa da firma (sério)

9 de dez de 2018

Salamandra

Desenhado (por mim) a partir daqui
Salamander, burn for me
And I'll burn for you

2 de dez de 2018

8. White rabbit

Grace Slick, 1960's
O que me salvou na adolescência certamente foi a música.Vivia embebida de videoclipes, que eu assistia desde o primeiro horário, enquanto me arrumava para a escola, com os meus 14 anos. Assim eu conheci o Red Hot Chili Peppers, a MTV, o Pink Floyd, o Black Sabbath, Genesis...

Com a chegada do meu primeiro computador, que foi na mesma época, e a troca da internet discada pelo Speedy - atualização tecnológica que acarretou em meu maldito vício nas novas tecnologias -, comecei a ler bastante sobre essas coisas e encontrar mais coisas, seja no Orkut, blogs, outros fóruns, pesquisas no buscador Cadê?...

E tinha o Top Top MTV, que era a melhor coisa do universo naquele momento. Era uma linguagem engraçada e jornalística de Marina Person e Leo Madeira contando fatos e curiosidades históricas de bandas clássicas e outras nem tão clássicas assim. Cada episódio possuía um tema e um cenário; era quase como se fosse um antepassado dos canais atuais de youtube.

Meus episódios favoritos eram sobre os artistas que morriam aos 27 anos, sobre o Ozzy arrancando cabeças de morcegos (e pombas brancas) com a boca, os artistas mais drogados e as mortes mais estranhas... Enfim. Muito mais legal que repassar corrente sobre mamadeiras de piroca.

E teve um episódio. Ah, aquele episódio. Não me lembro o tema, mas me lembro que um dos 10 do Top Top era Grace Slick. Que mulher!

Pois bem. Ela era vocalista da banda psicodélica Jefferson Airplane (chega a manteiga derrete). Nesse momento de minha vida eu tinha o sonho impossível de ser hippie. Digo impossível, porque os hippies de agora são completamente diferentes, e acuso até de estragadores do movimento. Então eu achava o máximo o Woodstock, as mulheres dançando sem a parte de cima da roupa, os casais dentro de uma kombi com um quadradinho na boca e um caleidoscópio na cabeça.

Terry Gilliam's Fear and loathing in Las Vegas - Johnny Depp e Flea, 1998
Janis Joplin! Quando, na mesma MTV, comentaram que ela era feia, ou que era considerada feia, eu simplesmente não acreditei. Acho ela lindíssima, inclusive a chamaria para sair. Hendrix, outros artistas que morreram cedo... O lisérgico teoricamente salvava minha vida de uma realidade brasileira familiar insuportável. Sem a música, a (minha) vida seria um erro.

Grace Slick e Janis Joplin
Voltando aos Jeffersons... Eles apareceram num Top Top relacionado às drogas, onde a Marina Person enfatizava que Grace Slick se drogava (dizem) com uma droga diferente a cada gravação de uma mesma música, para ver se ela estava psicodélica o suficiente. Essa música narrava a história de Alice no país das maravilhas, por um motivo específico:
Grace has always said that White Rabbit was intended as a slap toward parents who read their children stories such as Alice in Wonderland (in which Alice uses several drug-like substances in order to change herself) and then wondered why their children grew up to do drugs. For Grace and others in the ’60s, drugs were an inevitable part of mind-expanding and social experimentation. With its enigmatic lyrics, White Rabbit became one of the first songs to sneak drug references past censors on the radio.
O texto acima, traduzido pelo wikipedia, foi tirado do site da banda antes de sua atualização (é possível verificar a veracidade no web.archive.org), em português fica mais ou menos assim:
[...] para Grace, a intenção da canção era como um "tapa" aos pais que lêem histórias infantis tais quais a de Alice (em que ela usa diversas substâncias alucinógenas para mudar a si mesma), e depois se perguntam por que seus filhos começam a se drogar. Para Grace e outros da década de 1960, as drogas eram parte inevitável de um processo de transcendência da mente e experimentação social. 
Alice in wonderland - Caterpillar, 1951
And if you go chasing rabbits
And you know you're going to fall
Tell 'em a hookah-smoking caterpillar
Has given you the call

Outro comentário legal sobre a música está no site Universo Retrô, mais 8 fatos sobre Grace Slick que nem eu conhecia:
Canção composta por Grace em 1966, ainda antes dela entrar no Jefferson Airplane, White Rabbit teve enorme sucesso e é emblemática do chamado Acid Rock ou Rock Psicodélico. De forma muito sutil (para driblar a censura da época) descreve o efeito de drogas alucinógenas na mente usando passagens dos livros Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho. A cadência da música é propositalmente lenta e suave no início e segue um crescendo, como que tentando induzir um transe no ouvinte. Os vocais cavernosos de Grace contribuem para a sensação de “fora da realidade” proporcionada pela canção.
E mais:
Com um crescendo similar ao empregado por Maurice Ravel em seu famoso Bolero, e tendo forte influência da música espanhola, a composição e sua letra sugerem as distorções sensoriais experimentadas com o uso de alucinógenos.
Agora sim, ouçam essa belezinha, pois não podia ser outra a indicada sob esse tema.

8. a song about drugs and alcohol (uma música sobre drogas e álcool)



Leia os outros textos do 30 day music challenge, e aguarde que ao final haverá playlist!
Ouça também a ótima versão da Pink para o filme bosta 😷 live action que o Tim Burton fez!

17 de nov de 2018

Não é coisa de momento

Eu sempre quis ser aquelas mocinhas sensíveis minimalistas e naturalistas que eu sigo em blogs singelos por aí, que ouvem Loreena McKennitt e apreciam Beatrix Potter. Até porque eu aprecio tudo isso, como com os olhos. Eu queria ser Lisbela. E até que sou. Também devoro os filmes apaixonados e as feições dos personagens principais, engulo suas histórias até revestir-me delas como se eu mesma fosse daquele mundo.
Beatrix Potter - The Story of Miss Poppet, 1906
Mas eu também sou Inaura. Desmantelada, esbaforida, desesperada, angustiada. Apaixonada. Também sou rancorosa, sinto inveja de Lisbela e de Leléu, quero matar meu Frederico Evandro e seguir sozinha pelo mundo com uma bala marcada com uma cruz rezando pelas almas que encomendo a Deus.

Estou participando de encontros femininos que discutem a imagem da mulher através da história. Isso dialoga com  minha primeira disciplina da pós graduação, inclusive. A mulher, pelo patriarcado, foi separada em pelo menos duas: Eva e Lilith, Maria e Madalena. Ou Eva e Maria, genericamente. A pecadora e a mãe. Assim é no filme de Guel Arraes, e em tantas outras histórias teatrais, ou mesmo novelas fascistas da Guerra Civil Espanhola: a mocinha, correta, pura, cândida, em tons pasteis e timidez. A vilã, ou anti-heroína, carnuda, em tons de sangue, segura de si e gostosa.

Eva e a Serpente (em algumas histórias a serpente é Lilith)
Sempre me senti muito mais Inaura. Por mais que socialmente possa até ser vista como Lisbela. E sempre quis ser Lisbela, mas quando estou perto disso me sinto animal preso e com raiva. Como um gato, que deita de barriga para cima para receber um afago e ronrona... Até lhe tocarem num ponto em que não gosta e meter patadas e mordidas.

Sempre quis ser dona de mim. Não aceito conselhos, a menos que eu os peça e que sejam-me úteis para eu aprender sozinha o que quero fazer. Detesto depender dos outros porque sei que sou autoritária e quero as coisas já, ou assim, assim e assado. Para não haver desavenças - e eu sei que estaria errada -, já faço eu mesma porque assim se der xabu já sei que a responsável sou eu. E se tiver pressa, será no meu ritmo. E se tiver gosto, será de meu agrado.

Então assim eu decidi o que queria ser, decidi que não queria dinheiro nem pensão, por mais que merecesse e fosse legalmente justo. Porque eu sei que quem ajuda tem o mau costume de cobrar. E eu não aceito ajuda que me seja cobrança, que me prenda, que me limite.

Tenho vivido limitada, enjaulada, humilhada, com a desculpa ou motivação de que estou também aproveitando desses contratos completamente desiguais. Fui enraizando essas desculpas até não perceber os vários tipos de exploração que venho recebendo, em todos os campos da vida. Conscientizar-se disso é doloroso, porém um acordar. E esse acordar é violento. É uma tigresa enjaulada batendo nas grades, balançando a jaula prestes a cair. Porque quem explora, diante de seu conforto que o poder carrega, não percebe que as amarras não são eternas, não são nem fortes.

Basilica di Giunio Basso, séc. IV d.C.
Mas como um animal preso, o mundo lá fora, tão esquecido e desacostumado ainda é hostil. Então vê-se o cadeado enferrujado, o trinco aberto, e a pata ainda não empurra a portinhola para sair. Vai saber se há mais outra gaiola, e quão mais forte e resistente ela será, quão mais implacável?
Quando vi aquele passarinho na gaiola… Pensei que minha vida inteira, se eu ficasse, ia ser assim, vida de triste, de quem desejou, de quem quis de corpo e alma e, mesmo assim, não fez.
Osman Lins - Lisbela e o Prisioneiro
Eu sempre fui uma pessoa desmantelada, desorganizada. Algumas pessoas me chamam de organizada, mas acho que isso fica mais em pensamento do que em questões materiais. Eu sei fazer tantas coisas, mas não enxergo a mim mesma e minha força, então não termino nada. São livros, bordados, cadernos começados, nunca terminados. Jogados pelo chão. Assim como as vontades, que são tantas.

Queria ser, às vezes, Lisbela. Que também é forte e destemida, quando decide que é aquele quem ama, que naquele momento não, que compreende a sensibilidade do olhar do médico-monstro e, portanto, saberia cuidar bem daquilo que começa, terminando e aperfeiçoando tudo o que sabe com muito amor e esperança. Mas a paixão desenfreada de minha Inaura só me faz gritar, desafiar, riscar fósforo* e sair desembestada pelo mundo, procurando qualquer coisa que nem sei o que é, talvez a liberdade.

Na Paraíba chamamos isso de riscar fósforo

4 de nov de 2018

Sunshine blogger award pt. 2

Leia a parte 1 aqui
Eu fui indicada mais duas vezes para o Sunshine Blogger Award! Vou responder na ordem de indicação. Como sou péssima com perguntas, vou repetir todas em cada post. Sintam-se à vontade para fazer e me mandar o link com as respostas depois 😄 Essas perguntas quem me fez foi a Juli, ó:

1. Para você é fácil ficar sem internet, ou você é daquelas que já começa a surtar quando não vê um wifi disponível?
Se estou sozinha, ou em casa, eu fico agoniada de não ter internet. Mas se estou com pessoas queridas ou fazendo atividades que não necessitam de internet, eu realmente não ligo.

2. Que tipo de filmes, séries e livros você mais gosta de assistir e ler?
Gosto de séries engraçadas, existenciais, de desenho ou policiais (ou tudo isso junto), com certo romance. Livros clássicos e filosóficos, e filmes de todos os tipos. Menos musicais, ou com animais que falam e crianças que salvam o mundo.

3. Você gosta mais de gatos ou cachorros?
Gatos. Mas possuo 2 de cada.

4. Em que pessoas se inspira?
Nos estudiosos e idealistas.

5. Que música(s) faz(em) você sair dançando pela casa?
Forró.

6. Tem algum(ns) país(es) pelo(s) qual(is) tem fascínio e queria morar ou conhecer?
Chile é um deles. Se eu sair do Brasil, quero começar pela América do Sul.

7. O que mais gosta de fazer nas horas livres?
Ler, bordar, conhecer blogs novos, ouvir música.

8. Se você gosta de flores, qual sua preferida?
Hortências, rosas amarelas.

9. Você gosta de cozinhar?
Tenho muita preguiça, então não gosto. Mas cozinho muito bem.

10. Como é seu desktop do PC: bagunçado ou organizado? (se não se importar mostre um print)
Gosto de deixar poucos ícones no desktop, se salvo algo é temporário ou como lembrete. O wallpaper é da Malipi 😊


11. Qual outifit é ideal pra você?
Outfit é roupa? Gosto de calças largas de tecido leve que não peguem nas minhas canelas (detesto, mas uso jeans) ou saias, camisas masculinas ou camisetas. E amo vestidos.

Minhas 11 perguntas

1. Como você lida com situações de ansiedade, caso tenha? O que te acalma?
2. Como organiza seus estudos? Utiliza apps, programas, ou é tudo manual?
3. Que atividade você faz para se desligar do mundo?
4. Qual seu sabor de chá favorito?
5. Prefere filmes únicos ou trilogias?
6. Há algum livro clássico que te cativou? Diga qual.
7. Sente saudade de algo do tempo da escola? O quê?
8. Aprecia momentos de solitude?
9. O que é se apaixonar, na sua concepção?
10. Você acredita que a humanidade vá evoluir para algo melhor?
11. Se você fosse outro ser vivo na face da terra, qual ser vivo seria? (Não precisa ser apenas do reino animal)

Espero que quem tenha interesse responda, porque não vou indicar ninguém 🙈

19 de out de 2018

Sei lá eu

Eu fiz um post meses atrás em lista que deu muito certo. Na mesma linha, recebi o conselho de anotar, diariamente, coisas boas que me aconteceram, ou tarefas que concluí, para me sentir útil no final do dia, sem a falsa sensação de dia perdido.

Não sei se é o que vou fazer aqui, talvez não. A semana tem sido absolutamente estranha, cansativa e libertadora, ao mesmo tempo. Não faz sentido, eu acho.

Bom, todos sabemos a merda em que estamos. E que ficaremos, já que a Justiça não só é cega em suas representações imagéticas, como se faz cega porque infelizmente ela não é uma Deusa Olimpiana imparcial e fora da esfera humana. A justiça fazemos nós, conforme nossos interesses, ou intere$$es (ai, que trocadilho mais senhor de 60 anos).

Eu estava pensando hoje, existem dois - na verdade muitos - tipos de pessoas. Os que pensam coletivamente, e os que pensam individualmente, mesmo estando em grupo. Fiquei sabendo, por acaso, que haverá uma manifestação denominada PT NÃO, no próximo dia 21. E eu parei para pensar, bem informalmente mesmo, na lógica das pessoas que vão em eventos assim, e o que elas buscam. E me veio algo singelo em mente. São grupos formados por pessoas que não pensam no outro, mas em si próprios. São vários uns. Seu pensamento sobre a economia, diz respeito a suas vidas pessoais e seus empreendimentos; e é um pensamento econômico possivelmente ruim até para eles mesmos, em longo prazo. Não sou boa em economia, mas boto fé que até o que eles querem tão convictos é prejudicial.

Posto isso, há a questão ética. Essa guerra contra a Corrupção, um fantasma, uma coisa, um troço que não possui corpo, forma, especificidade. Não tem nada a ver com as filas dos hospitais, com a educação ruim, com o transporte horroroso (nem vou tocar no assunto transporte hoje). Está mais para uma vaidade de colocar-se como incorruptível, do que acreditar de fato em instituições funcionando. Até porque as instituições não funcionam, e eles acreditam que muitos juízes por aí estão fazendo um belo trabalho (!) hahaha. Fora as corrupções diárias, que tem gente que ri quando a gente comenta, mas é aquela coisa né, quem nos representa no Estado reflete como nós somos. Se a preocupação fosse genuína com essas questões básicas do povo brasileiro, eles apoiariam manifestações de professores, acs, melhoria no transporte coletivo e inserção das bicicletas nas pistas.

A ética, até onde compreendo e ouvi por aí, tem a ver com o que praticamos de mais correto e inofensivo possível para nós e para o outro. Então, como é possível, nessa altura do campeonato, criar um evento contra o lado mais democrático da luta pela faixa presidencial? Aliás, o único lado democrático? Lutar contra um sistema corrupto aos domingos na frente do pato - agora sapo - da Fiesp não é nada factível, não traz resultados, nem faz sentido diante do caos que se instala do outro lado, que tem exponenciado nossa violência cotidiana para um patamar absurdo. Então, para mim, essa ética é uma ética de si mesmo. E ética de si mesmo, não existe. A menos que a sociedade seja você com você mesmo. Mas temos o que? Exagerados 7 bilhões.

Saia daqui com sua crítica a esse homem 👉👧👈lálálá
Mentira pode criticar 😲📣
Por outro lado, há aqueles que se manifestam não necessariamente aos domingos. Os que param o trânsito. De modo geral, o que eu vejo, sinto, percebo, e concordo - talvez seja por me inserir nesse grupo, então podem considerar que estou puxando sardinha para o meu lado à vontade - é que estes são de fato um grupo. Não são vários uns, mas sim um diverso. Não sei se é assim com os outros, mas eu defendo pautas que são importantes não apenas para minha vida pessoal, mas a vida do próximo. Não consigo de modo algum ser egoísta a ponto de pensar em economia como algo mais relevante que integridade física de pessoas negras, mulheres, LGBTQ+, pobres, nordestinos, imigrantes, enfim. Concordo que o maior e pior problema desse país seja desigualdade econômica e social, mas nem por isso vou fechar meus olhos para assassínios diários.

Minhas questões mais programáticas são outras. Nem vou comentar aqui porque não estou mais com saco para discutir isso, juro por Deus. Tenho vivido os textos sobre a situação atual. Em casa, no caminho do serviço, no serviço. Até minhas aulas da pós viraram um panorama sobre o que caralhos aconteceu no Brasil desde o Mensalão, e metade da turma é fascista. Então imaginem 4 horas por sábado de um embate caloroso entre contexto histórico versus fake news. Ou, como bem comentaram em uma das dezenas de textos que li: as pessoas nem coragem têm mais de dizer mentira, no lugar de fake news.

Meu grande medo, falando como pessoa física, é, além de todas as questões de violência possíveis que nos bombardeiam hora a hora, a possível impossibilidade (que?) de eu não poder falar sobre aquilo que eu falo. Não acredito numa segunda ditadura naqueles moldes do século XX. Agora eu sinto medo de até ser pior. De ser como em 1984, onde os vizinhos te vigiam e denunciam por crime de pensamento. Porque a violência, antes atribuída ao Estado, transbordou para fora dessa esfera, e está no meu vizinho, no meu colega de classe, no meu tio, nos nossos patrões. Porque, ao contrário do que alguns colunistas tentaram emplacar por aí, é sim uma sociedade fascista. Inclusive a minha tia (que hoje comprovei ser racista das piores), também. Então não poder pensar, falar, escrever e estudar sobre as minhas convicções, convicções essas que moldam a minha vida e me entrelaçam ou me desamarram de laços afetivos e profissionais, é desesperador. Minha grande pergunta existencial é: se eu não puder ter isso, qual é o sentido de minha vida? Porque não ter isso é não ter eu. Eu sou integralmente política, e os últimos posts demonstraram que quando a política e as questões abordadas pelo marxismo estão adormecidas em mim, é a mesma coisa de eu ser um pedaço de carne miserável se condoendo por não saber conviver com outros seres humanos. Porque o que me liga a eles é minha paixão pela mudança e pela justiça social. É o meu verdadeiro tesão da vida. E o que é a vida? O que é a vida sem o livre pensamento (fake news não pode)?

Eu já não sei mais. Sei mesmo não.

7 de out de 2018

Como funciona a minha ansiedade

  • Não consigo me concentrar em tarefas ou lazeres, me sentindo culpada por não fazer nada, e por fazer demais;
  • Tudo o que faço é insuficiente, e sinto como se estivesse enganando as pessoas e não fazendo nada;
  • Consequentemente esqueço o tanto que faço todos os dias, considerando, assim, que os dias são inúteis e sou improdutiva;
  • Não chego a ter sensação de estar morrendo, mas sim de estar em perpétuo e imutável sofrimento;
Hieronymus Bosch - The Last Judgment (Bosch triptych fragment), 1506-1508
  • Meu peito dói como se eu realmente estivesse com uma faca cravada no coração, e como se fosse viver para sempre com essa chaga;
    Dario Argento - Suspiria, 1977

  • Tudo é para sempre. Não existe amanhã, não existe vai passar;
  • Sinto culpa que eu não sei de quê;
  • Busco motivos para estar nessa situação e não os encontro;
  • Tudo o que eu digo, ou tudo o que me dizem, possui mais de duas interpretações, nunca enxergo a verdadeira;
  • Não penso que sou desprezível a ponto de todos estarem me enganando e aturando; mas penso que todos estão me enganando e aturando porque são pessoas ruins e indignas de confiança;
  • Me sinto muito sozinha;
  • Me sinto muito cansada;
  • Quero mudar minha rotina, caminhos, propósitos, mas não acho alternativa melhor;
  • Penso nas coisas que eu gosto de fazer e não percebo motivo para gostar dessas coisas;
  • Nada possui gosto ou me anima o suficiente;
  • Penso que amanhã tudo começa outra vez;
Detail of Colossal Krater from Altamura, about 350 B.C., Greek, made in Apulia, South Italy.  Fonte
  • Durmo, mas meus sonhos têm tão alto volume que é como se eu tivesse uma vida dupla, e na verdade meus sonhos seriam uma realidade paralela tão cansativa quanto a realidade real;
  • Enquanto não faço o que tenho programado, sinto uma forte angústia, e ao mesmo tempo enrolo e protelo o que deveria ter como concluído e ultrapassado, piorando a angústia;
  • Qualquer fala menor me causa mágoa, desgosto, medo de ser demitida, medo de ser abandonada, medo de um embate que vai me fazer chorar e sentir vergonha;
  • Tédio;
  • Melancolia;
Todo santo domingo, toda santa segunda, tem sido a mesma coisa. Na família, nas relações, na vida profissional. O setor "eu" está desativado e, quando ativado, é obscurecido.


30 de set de 2018

De volta à História

Taxi driver, 1976
Esse ano passei por tantos altos e baixos (e baixíssimos), que não sei definir direito as coisas que aconteceram. De coração, eu diria que foi o pior ano da minha vida. Mas meu cérebro me faz rememorar coisas incríveis e necessárias que aconteceram comigo em 2018.

Toda vez que eu sentia que ia cair, ou que já havia caído, buscava algo novo para fazer e me desafiar, para pelo menos tirar o foco da dor e da falta de ar que a ansiedade proporciona. Busquei ajuda psicológica, me acostumei a me dar cafés e chás gostosos depois do expediente, comecei a sentir fortes dores nas costas e nas pernas, e decidi ser fitness pero no mucho, porque detesto atividade física: procurei a natação, que era um grande medo e um desejo. Conheci e abracei o Tom Zé naquela que foi a pior crise de ansiedade que já tive, depois de quatro anos disse que estava apaixonada, pedi para estar cada dia mais longe do setor educativo que eu tanto detesto (infelizmente essa parte não se concretizou ainda, mas one way or another não haverá mais disso em minha vida em breve), estou buscando mais sobre hinduísmo, aprendendo francês nos caminhos da vida... Até tenho me divertido em embates políticos que não dão em nada.
May 10th. [...] Days go on and on. It don't end. [...]
June 8th. [...] The days move on with regularity, over and over. Then suddenly, there is change. [...]
Taxi driver
Mas todo domingo é a mesma sensação de derrota. Uma encruzilhada, um groundhog day. E todas as vezes que eu demoro mais de três horas para chegar no serviço - normalmente são duas horas -, eu me pergunto o quanto isso me faz bem, o quanto vale a pena. Eu sei que não vale, quando reflito sobre tudo isso é somente para arranjar desculpas e continuar. Num desses dias de grande estresse e indecisão, eu perguntei se eu não fosse da área de museus, você me veria fazendo o quê? E a resposta que obtive foi você ficaria boa na área de pesquisa acadêmica.
Now I see it clearly. My whole life has pointed in one direction. I see that now. 
Taxi driver
Elementar, minhas caras e meus caros. É isto o que eu sempre quis, e nada mais. Tudo o que me tornei era para eu ter condições de ser o que sempre quis: uma pesquisadora que lê e escreve todos os dias. Então pesquisei algumas coisas no mês de agosto, sem muito compromisso com decisões a serem tomadas. Mas aí um dia, às dez da manhã, eu estava muito cansada da minha vida e perguntei se eu poderia me ausentar do serviço em dias x para me matricular em um curso de pós graduação, ou se seria mais prudente esperar para o semestre seguinte, que não tem compromisso nenhum na agenda. A resposta foi positiva para o início ser ainda em 2018.

Quinze minutos depois e eu estava inscrita no lato-sensu da PUC-SP. Até o fim do mês, matriculada. Setembro começou com aulas, que têm sido excelentes. Estou tão feliz que tenho aguentado eleitores do Bolsonaro e até dei uma discutida toda torta ontem, porque eu não sou boa em oratória. Mas foi bem divertido e eu percebi que a graça da minha vida é apenas essa. É tentar decifrar palavras difíceis e ler a sociedade através de metáforas, sons, gestos, entrelinhas.

Museus e bibliotecas são locais maravilhosos para propagar conhecimento. Não à toa o Museion de Alexandria durou 600 anos. Adoro tudo o que aprendi e o que pratico todos os dias. Mas essas duas profissões carimbam um sorriso no meu rosto que não é meu. A alegria que demonstro não é de mim, mas é por ver alguém satisfeito com o que fazemos, pelo serviço que prestamos. É um alívio por não ter dado nada errado, ou por não ter dado tão errado assim. Mas não é genuíno de mim mesma. A única área em que eu me sinto como um balão recebendo ar quente e flutuando pelos céus é a História. E eu me esqueci dela, mesmo utilizando-a todos os dias dentro da museologia e da biblioteconomia.

The Three Muses statue at the National Drama Theatre in Vilnius, Lithuania.
Quando me sentei naquela cadeira verde e dura da sala de aula voltei sete anos no tempo. Eu era a Helen de 2011, ingressando no ensino superior e sonhando com capas de livros contendo meu nome. Deixei, por muitos anos, o que deveria protagonizar figurando, e o que deveria figurar, protagonizando meus dias.

Participei de um evento esse ano que me fez ter um insight: na minha cabeça veio a cena de um homem sentado no topo de uma montanha observando o horizonte, e essa cena era a representação visual da minha verdadeira profissão.

Casper David Friedrich - Wanderer above the Sea of Fog, ca. 1818
A história é o estudo da ação humana no tempo e no espaço. Faço parte desse processo, e quero participar tanto como estudante, quanto como estudada. Eu quero ser lida, quero pôr em exposição a paisagem vista e vivida através de minha perspectiva. Quero deixar algo de mim circulando pelo mundo quando eu já não mais morar nele. E que esse algo seja útil, fundamentado, transformador, meio para outras transformações.

Acredito que duas grandes lições aprendi de janeiro até aqui:

1. Não posso omitir o que eu sinto por conveniência alheia, vergonha ou medo;
2. Não posso viver de desculpas para não ser aquilo que eu sou. Pensar no outro é lindo, mas se anular por isso é a morte.

Infelizmente continuo achando que estou morrendo todos os dias. Parece que o corpo vicia na negatividade espalhada pela ansiedade. Mas ao mesmo tempo as coisas estão mudando e se concretizando. Dizem os astros (para quem acredita) que este é o início da temporada de colher o que se plantou. Estou colhendo frutos amargos, cansada sob o sol que arde minha plantação. Mas em algum momento vou chegar na sombra para separar o joio do trigo e aproveitar o fruto do meu trabalho. Enquanto isso, ora et labora.


9 de set de 2018

Sunshine blogger award pt. 1

Por mim mesma, mas fiquei com preguiça de tanta flor. Não sou o Van Gogh né "mores"
Como fui indicada em dois blogs, vou fazer dois posts com a mesma tag! A primeira indicação foi feita pela Ana, e vou responder suas 11 perguntas. Muito obrigada e desculpe a demora, Ana!

Regras

* Não pode dançar agarrado, mas se quiser pode

1. Agradecer à blogger que nomeou ✔
2. Responder às 11 questões feitas ✔
3. Nomear 11 bloggers ✖ e fazer 11 perguntas ✔
4. Colocar as regras e o logótipo no post (a imagem original é esta do link, mas preferi desenhar) ✔

1. O que você sempre quis ser quando crescer?
Pesquisadora.

2. Qual o seu maior sonho atualmente?
Morar no nordeste, seguir estudos acadêmicos.

3. Indique 3 filmes para quem está lendo esse post.
Dessa vez vou indicar diferente, só filmes leves para a gente fingir que a vida presta:
1. Para todos os garotos que já amei
2. Só você
3. Muito bem acompanhada

4. O que você mais ama na internet?
A facilidade de encontrar bons conteúdos para estudos - como o marxists.org, neruda.uchile.cl, unesp aberta etc., assim como pessoas legais e criativas de todos os lugares.

5. E o que mais odeia (na internet)?
Pessoas que acreditam ser donas da razão (nem sempre se pode ser Lenin) por terem lido conversas em páginas do facebook, ou terem assistido ted talks e lido jornais independentes. Isso vale para o esquerdismo, a doença infantil do comunismo, e todos os partidários de qualquer ideologia de direita, conservadora, preconceituosa, que aparentemente não estudam seriamente offline. Odeio também não só redes sociais, como também redes sociais de empresas, que estão se apropriando de discursos para enganar trouxas, lucrando mais por conquistar e seduzir públicos que antes eram seus potenciais rivais.

6. Por que você bloga?
Porque sempre amei ler e escrever, porque não consigo escrever em diários, se nem eu mesma releio o que escrevo. Escrever em blog me aproxima dos outros, mesmo eu não sendo pop. E escrever num espaço personalizado, só meu, é gostoso.

7. Qual post mais gostou de escrever até hoje?
O que me lembra de um dos melhores e piores dias da minha vida. O dia em que eu encontrei a consolação.

8. Qual série está acompanhando?
Monty Python flying circus, Bojack Horseman, Brooklin 99.

9. Netflix ou cinema?
Cinema.

10. Sorvete ou chocolate?
Sorvete no calor, chocolate no frio. Nenhum dos dois com dor de dente.

11. Filme ou livro?
Livro.

Minhas 11 perguntas

1. Como você lida com situações de ansiedade, caso tenha? O que te acalma?

2. Como organiza seus estudos? Utiliza apps, programas, ou é tudo manual?

3. Que atividade você faz para se desligar do mundo?

4. Qual seu sabor de chá favorito?

5. Prefere filmes únicos ou trilogias?

6. Há algum livro clássico que te cativou? Diga qual.

7. Sente saudade de algo do tempo da escola? O quê?

8. Aprecia momentos de solitude?

9. O que é se apaixonar, na sua concepção?

10. Você acredita que a humanidade vá evoluir para algo melhor?

11. Se você fosse outro ser vivo na face da terra, qual ser vivo seria? (Não precisa ser apenas do reino animal)

Pessoas que indico

1. Kennedy
2. Gabriela
3. Mary
4. Ana

4 de set de 2018

Pferdesegen (contra uermes)

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Gang uz, nesso, mit niun nessinchilinon
Uz fonna demo marge in deo adra
Uonna den adrun in daz fleisk
Fonna demu fleiske in daz fel
Fonna demo uelle in diz tulli
Fonna demu fleiske in daz fel
Fonna demo uelle in diz tulli

Gang ut, nesso, mid nigun nessiklinon
Ut fana themo marge an that ben
Ut fan themo bene an that flesg
Ut fan themo flesgke an thia hud
Ut fan thera hud an thesa strala
Ut fan themo flesgke an thia hud
Ut fan thera hud an thesa strala

27 de ago de 2018

Não perder tempo

... é talvez uma das virtudes mais difíceis de se adquirir.
Ter aproveitado bem o dia é um dos mais doces prazeres da alma. Saber ocupar-se e não ter nunca que perguntar: "Que hei de fazer?" é a ciência mais útil para a felicidade e a virtude. Começar com prontidão, operar com firmeza, continuar com constância, interromper o trabalho com paciência, volver a retomá-lo com tranquilidade e concluí-lo com um pouco de lentidão, é o sinal mais seguro de uma alma virtuosa e forte.


Balmes, transcrito pela Condessa Vicente de Azevedo em arquivo do Museu Vicente de Azevedo.

18 de ago de 2018

Helen Warhol

Gente, estou muito feliz e realizada com este desenho, que fiz a partir de uma foto, camadas transparentes, brush de ink pen e minha mesa digitalizadora. Um dia vou desenhar só de ver, ou mesmo criar os meus próprios desenhos. Esse ofício me tranquiliza demais, eu me concentro e tudo mais.

Karl Marx (1818-1883)
Se escolhermos a posição na vida a qual podemos trabalhar pela humanidade, nenhum encargo irá nos pôr para baixo, pois esses encargos são sacrifícios pelo bem de todos, então não experimentaremos alegria mesquinha, limitada e egoísta, mas nossa felicidade irá pertencer à milhões, viveremos de ações silenciosas mas em constante trabalho, e sobre nossas cinzas serão derramadas quentes lágrimas de pessoas nobres.*

* MARX, Karl. Reflexões de um jovem sobre a escolha de uma profissão. 10-16 Ago. 1835. Disponível em <http://marxists.org>.

12 de ago de 2018

Deus te faça feliz minha menina Jesus e te leve pra casa em paz

Erick Lima
Quando criança eu sabia muito bem o que queria ser quando crescesse. Fiz até um desenho que, em dia tal de 2010 estaria eu fazendo cabeçalho com giz numa lousa dando aulas, porque em 2010 eu já teria os desejados 18 anos. Quando recebia broncas - principalmente aquelas sem sentido ou razão nenhuma, o que acontecia na maioria das vezes por puro desejo de poder sobre mim -, jurava vinganças, me imaginando uma mulher forte, independente e violenta.

Quando adolescente, eu decidi que queria viver aventuras surreais, e fui me embrenhando mais e mais pelo que já não mais é. Então pensei em ser paleontóloga. Arqueóloga. Astrônoma. Astronauta. Só o que não tem no Brasil, meninas, tutupom. Lembro até de uma vez em que comentei que me interessava por museus - na época nunca tinha entrado em um -, e meu professor sabiamente me deu este conselho (lembrem-se do que eu acho de conselhos): você nunca vai trabalhar em museus, porque não há vagas. Todos os que estão em museus são concursados e de lá só saem aposentados. Onde eu estou hoje, há 4 anos?

Já que eu não conseguiria arqueologia, meu grande sonho do ensino médio, pensei em quatro grandes temas na hora de me inscrever no ProUni, depois de meu primeiro Enem em 2010: História, Filosofia, Física ou Matemática. Se eu ainda não relatei isso aqui, minhas melhores notas em todo o período escolar (menos depois de ser aluna da professora Conceição) eram em matemática. Ganhei Menção Honrosa na primeira OBMEP, em 2005. Queria física só por enxerimento, porque sempre fui mal na disciplina, infelizmente. Mas amo física quântica e congêneres até os dias atuais. E a História... Sempre me fascinou. Vou pular a explicação e adianto que a Mia sabe bem o que eu sinto, pois ela escreveu aqui algo parecido.

Fiz História. Foram os melhores anos da minha vida. Porque sutilmente fiz o que queria, alcancei minha liberdade, fiz coisas que antes não fazia, andei sozinha, andei com pessoas mais velhas, namorei, viajei. Não foi uma coisa que se diga nossa, que vida de Stifler você levou!, infelizmente. Mas foi bom enquanto durou. Tinha, até certo tempo, lembrança vívida das minhas manhãs na UniCastelo, universidade que deixou de ser e que ninguém conhece. Mas que era o melhor lugar do mundo. Repleto de pessoas ruins, mas de pessoas admiráveis também. Nunca os primeiros anos do Pink Floyd fizeram TANTO sentido. Então era dar play no disco que os meus bons tempos eram reproduzidos juntos, e eu relaxava. eu conseguia chapar sóbria só com a música, com o caminho do ônibus e com as lembranças.

Mas aí vem o Lado B da minha vida. Lado B sempre tem a fama de ser ruim, ou inferior. Eu concordo um pouco, com base em uns discos de rock progressivo como o The Dark side of the moon ou o Selling England by the pound, onde as primeiras músicas começam te cativando e dilatando as pupilas, mas quando você vira o disco de repente se sente melancólico e perto do fim... Concordo também, porque se o complemento que Marx deu a Hegel fosse um vinil, com certeza o lado A seria "a História se repete. primeiro como tragédia", e o lado B seria "e depois como farsa".

Então minha farsa começou. Veio tudo junto: Copa do Mundo de 2014. Curso Técnico em Museologia. Vida de Cidadão, com quatro condução (no meu caso não é duas para ir, duas para voltar, mas sim quatro para ir, quatro para voltar). O Curso Técnico em Biblioteconomia foi meu retorno triunfal ao lugar que tanto odiei. Melhor turma, uma vírgula, uma pausa nessa ladeira abaixo que tem se tornado minha vida.

Não sou mais satisfeita com o que construí. Sou grata, eternamente grata às 47289792384782 coisas que tenho aprendido desde que decidi o que decidi. Tenho tentado me enganar fazendo mini cursos, terapia, natação, bebendo drinks com pimenta dedo de moça, chás diferenciados e outros tipos de coisas experimentáveis. Mas chega o domingo e eu me transformo nisso. Chega o domingo de dia dos pais então e eu nem posso comentar o que eu fico aqui, porque não interessa, mas não é algo bom. Nada tem sido bom. Quando vai tudo bem, eu preciso que alguém me diga que deu tudo certo, porque sozinha não sei mais discernir. E a pessoa me dizendo que está tudo bem eu ainda nem acredito. E cresce aquela angústia no meu peito. Uma angústia que some bem antes da terapia que até me esqueço de comentar com a psicóloga. E se eu comento com quem quer que seja, não fica assim, Helen. Ok, não fico. Só que fico. kkkkkk. E como fico.
Eu consultei e acreditei no velho papo do tal psiquiatra
Que te ensina como é que você vive alegremente
Acomodado e conformado de pagar tudo calado
Ser bancário ou empregado sem jamais se aborrecer 
Então como eu posso mudar de rumo, se o mais aceitável entre as pessoas responsáveis é ter um segundo caminho pré-planejado para poder fazer sentido deixar tudo para trás? Não que eu queira ser aquelas pessoas que viajam pelo mundo com uma mão na frente, a outra atrás, e os bolsos cheios de dinheiro dos pais (eu nem poderia, por questões óbvias familiares, nem quereria, tenho horror e sempre tive de receber dinheiro dos pais). Mas eu só queria ser alguma coisa que não sou agora, e nem sei dizer o que é.

Só sei que eu quero a simplicidade da vida que a minha vida atual não me permite. E tenho medo de conseguir o que quero, mais uma vez, e me sentir infeliz como agora. Apática. Sem vontade, sem gosto, vivendo a vida como um sonho distante e, ao dormir, ter sonhos vívidos e perturbadores, com o próprio serviço ou com o declínio da humanidade. Eu, que tanto fugi e desprezei as carreiras comuns de trabalho, me vejo agora do mesmo jeito. Sufocada pelas minhas escolhas e pelo cenário do teatro que é a minha vida. Porque eu não gosto de nada, nada neste mundo neste século. Nem daquilo que eu sinto. Daquilo que eu penso. Daquilo que eu faço. Daquilo que eu não faço.

Eu só me engano. Todos os dias, vivo rindo. Vivo satisfeita. Mas só por fora. Eu fui em um lugar outro dia e tive umas percepções sobre a vida. Meu corpo é a parede que limita o meu próprio universo. É uma casca, como o caranguejo (que é meu signo). E essa casca aparenta aquilo que ela não contém. As pessoas não têm muito interesse em perceber o outro, pois você pode estar morrendo e dizer que está tudo bem que a pessoa vai dizer Ok. Ou vai dar conselhos a você, de como ela é uma ótima superadora de obstáculos e quem quer consegue. Coisas genéricas assim. Então o que a gente faz mesmo? Como vai, como vai, como vai? Como vai, como vai, vai vai? Muito bem, muito bem, muito bem. Muito bem, muito bem, bem... bem.

Minha vida é um misto de Monalisa, Cotidiano (eu nem gosto mais tanto assim deste Chico), Ouro de Tolo e É fim do mês.
Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa

Termos que já não aguento mais

Um tanto quanto - é nocivo - problematização - desconstrução - romantização / parem de romantizar - deixa a titia explicar para vocês - um leque de possibilidades - de precisão cirúrgica - lugar de fala - frases escritas com uma ironia e/ou sarcasmo te quinta - empoderar - lacrou - berro - grito - mana - miga - sororidade - nióbio - mimimi - feminazi - pisa menos - o menino Fulano [nome do menino] - aquele do - precisamos falar sobre [tal coisa] - tóxico - abusivo - se preservar - fora temer - lula livre - gratidão - a [não sei o que] que habita em mim [faz não sei o que] com a [não sei o que] que habita em você - qualquer verbo no gerúndio terminado em ny ou ni [ex.: escreveny] - um quentinho no coração - qualquer coisa inho - está tendo - não passarão! - presente! - esquerdomacho - aquele [qualquer coisa de direita] é de esquerda - mais [qualquer coisa] por favor - somos todos / somos todas / sejamos todos - não me kahlo - antes eu sofria, agora eu sou fria - veracidade ver a cidade - slam [e como todos que recitam se mexem e possuem ritmo igual] - bandas com nome comprido e sem sentido - verbo rolar [ex.: tá rolando um show na vila Madá] - partiu [fazer algo] - thread - gatilho - manipulação - alienação - bom, vamos lá [inicia-se um argumento pedante] - flor / querida / anjo / amor - existe amor em SP [kkkk] - galera - pedindo biscoito - representatividade [e os lucradores lucrando] - vila Madá - Sampa - Pina_ [é Pinacoteca] - sarau - com açúcar, com afeto - ela [fulana] ela - há [x] primaveras - satanáries - odonto - vÉlho - mÊu - [eu] SUPER [acho que]... - olar - que [não sei o que] mais amor! - meu [não sei o que], minhas regras - beijos de luz - catioro - patriarcado - não pira, respira - desculpa, mas [coisa que não necessita de desculpas] - seje menas - sejam melhores - textão - x, @ e para neutralizar palavras - passador de pano - começando os trabalhos - foco, força e fé - mascu - cala a boquinha - vivência - é [não sei o que] que fala, né? - macho escroto - 🌺 texto escrito assim 🌺 - texto escrito em 3ª pessoa sobre si próprio - breja - churras - cagação de regra - não me representa - feministo - rupi kaur - tacar o foda-se - textos cruéis demais para serem lidos rapidamente - ursal


28 de jul de 2018

14. A saucerful of secrets

Vocês sabem o que é um codicilo? Este post tem a intenção de ser um codicilo. Estou com ele em mente desde janeiro, mas coisas ruins aconteceram, e eu achei que talvez, se postasse na época, poderia ser um presságio e, Deus me livre ser tão cedo assim. Resultados negativos positivos, estou aqui firme e forte para poder palavrear bastante ainda.

Pois então. Não acredito em matrimônio, tanto pelos motivos já apresentados por qualquer pessoa com base em suas próprias ideologias e filosofias de vida, como também por minhas questões pessoais que só Freud explica. O que não significa que eu não queira ter alguém ou alguéns, ou mesmo ninguém.

A minha última formatura na escola foi em 1999. Eu tinha 7 anos e fui oradora de turma. Foi, inclusive, o mesmo ano em que quis levar enxadas para a escola e destruir suas estruturas. A professora Estela brigou comigo naquele dia e, meses depois, chorei de saudade dela. Abri o berreiro mesmo. Depois disso, jamais quis ter formaturas, fosse de Ensino Fundamental, Médio, ou mesmo Faculdade. Mas nem foi por Professora Estela. É por ser ridículo, falso, uma encenação de quinta categoria. Um devaneio, um sonho de uma noite de verão. Tenho tanto asco por formaturas, que peguei meu diploma da universidade muitos meses depois de minha turma, porque preferi colar grau em gabinete - o que ainda é absolutamente ridículo, as pessoas fazem juramentos que sequer cogitarão cumprir em algum dia de suas vidas miseráveis.

Assim também fui com aniversários. No lugar de uma festa de 15 anos, brega em todas as suas possibilidades, falei brincando que queria um violão e o ganhei. Se eu sei tocar esse violão que recebi há 11 anos? Isso é pergunta que se faça? Claro que eu não sei. Até tenho minhas festinhas surpresa, meus Brasis perdendo a Copa ofuscando todo o meu brilho perante aos homens amantes de futebol, mas eu, montar um aniversário, gastando meu dinheiro para convidar pessoas, que convidarão pessoas, com bolos ruins e cheiro de cerveja? Não, meu amor. Me dá um litro de Rainha e muitos abraços gostosos que eu ganho mais.

Enfim. Muitos são os eventos criados pela humanidade para fingir que está tudo bem e que a união é de quereres recíprocos, quando na verdade o que existe é desprezo, avareza e soberba. Tudo é uma questão de poder. Fujo de quase todos eles. Festas de aniversário, festas de formatura, festas de casamento... Mas existe um único evento, comum a todos nós, no qual jamais poderemos faltar. Não adianta a nossa preferência, se os convidados comparecerão. Esse dia sempre chega. Já que - graças a Deus - é inevitável, transferi o propósito do 14º dia dessa minha jornada no 30 day music challenge para algo que com certeza eu tenho que pensar em organizar. Portanto, segue abaixo a música que escolhi para o meu casamento velório.


Antes de vocês se deliciarem com a música do Pink Floyd que mais ouvi em minha vida, segundo minha last.fm, preciso falar meus motivos. Me lembro de comentar com minha amiga Céu sobre essa música, e ela fala que sente uma coisa ruim com ela, ou algo assim. Eu também sinto esse algo, mas não é ruim, é apenas minha alma se rasgando todinha.

A música, que fala sobre guerra e suas consequências, se divide em quatro partes: "Something Else" (0'00") - a configuração da batalha, "Syncopated Pandemonium" (3'57") - a batalha em si, "Storm Signal" (7'16") - a visão dos mortos após o final da batalha, "Celestial Voices" (10'14") - o luto dos mortos. Nela contêm os seguintes instrumentos, listados por ordem de importância: piano, órgão Hammond, órgão Farfisa, mellotron, vibrafone (versão de estúdio), baixo, slide guitar, percussão, bateria e prato.

Nunca fui publicamente religiosa, mas particularmente eu com certeza sou. Já soltei por aí que para mim Deus é o vento que balança as árvores e o silêncio que envolve a terra (ou seja, meu Deus está para morrer). Para mim músicas com órgão e slide guitar seriam a voz de Deus. Bem assim, carola ou beata, como você preferir. Existem estudos sobre música apolínea e dionisíaca; creio que essa música seja o equilíbrio das duas vertentes. Não foi baseada em Guerra e Paz, como The Gates of Delirium do Yes, mas me dá a sensação de guerra e paz comigo mesma.

Esta música é a única coisa deste mundo que me adormece o corpo e desperta a alma. Então, como não escolhê-la para embalar meus ossos que comporão a terra, e servir de poslúdio para minha vida?

14. a song that you would love played at you wedding funeral (uma música que você amaria que tocasse em seu casamento velório)
Dedico aos 75 anos de Richard William Wright, completados hoje, e aos 50 anos desta canção, neste ano de 2018.

O vento de Pompéia nos cabelos da alma do Pink Floyd

23 de jul de 2018

Desculpa a gente pelas crises


Mas tem dia que tá foda.

Procuraremos servir bem, para servir sempre, de agora em diante.

Não sou feliz no século XXI

Sempre, de certa forma, fui muito dona de mim, e daquilo que me rodeava.
- Quero ser Historiadora, papai.
- Mas minha filha, por que você não faz algo que dê dinheiro - direito ou administração, risos -, e depois que estiver estabelecida, segue seu sonho?
- Não, quero estudar História.
Estudei história. Foram os melhores anos de minha vida, obscurecidos pelos anos posteriores. Se eu me sinto bem com alguma coisa, é com a pesquisa, com o marxismo. Estudando História, decidi que não queria dar aulas.
- E aí, Helen, estudando para o concurso? - perguntam alguns colegas de classe.
- Não vou dar aulas. - viram o rosto e me ignoram.

Engatei minha graduação com a copa de 2014 e, logo após, sem férias nem nada, iniciei o curso técnico em Museologia, tendo poucas vezes na vida entrado em um museu, apenas para fugir das salas de aula - engana-se quem acha que fujo de alunos, fujo mesmo é dos professores - e me embrenhar no mundo da pesquisa. Estudei e me encontrei nos museus. Ou me perdi. Amo preservar o patrimônio, divulgar a história, deixá-la didática e fisicamente bonita para toda e qualquer pessoa que se interesse ou que caia ali. Adoro ver a satisfação em seus sorrisos. Mas me sinto oca. De repente, assim.


Amo História. Odeio intelectuais. Amo o marxismo, odeio a burguesia. Amo a pesquisa, detesto os prepotentes rebuscados que não pensam em propagar a pesquisa para o entendimento de todos. Do mesmo modo, odeio aqueles que buscam "democratizar" estudos acadêmicos avacalhando-os porque imaginam que aqueles com "menos instrução" são incapazes de entender de forma não desenhada. Sabe aquela pessoa desconstruída tão artificialmente gentil que fala conosco como se fôssemos bebês incapazes de entender o be-a-bá e chamam a gente de Flor? As pessoas são medíocres.

Eu quero arte, quero filosofia, política e o concreto da arquitetura. Mas não quero os acadêmicos. Os escritórios. Os colegas de profissão. Os "da escala superior de ensino".
Eu quero bares, oficinas mecânicas, prédios em construção. Quero falar bobagens e rir de piadas horríveis, beber e comer e falar mal da vida despretensiosamente e de chinelo, sem, para isso, estar em algum lugar gourmet gentrificado.
Eu assisto filmes suecos, mas não quero estar com aqueles que também assistem e ficam brigando entre si com seus intelectualismos proferidos por aquêle sôtáquê paulistânô, vélhô, sáábê, Juliâná? Bânner Câma Spotshifái Brêja Vilá Madá Píínáá_ MÊU.

Eu odeio São Paulo também. Percebem o tanto de coisas que odeio? Mas não mais que o século no qual tenho que viver. Não sei, de repente eu percebi como não aguento mais isso que vocês inocentemente denominam globalização. Tinha apagado o twitter porque lá só se fala bosta. Quase apaguei facebook pelo mesmo. E o que dizer do stories do instagram? Nem numa missa você vai mais sem os celulares estarem filmando tudo. Se eu fosse Deus poria fogo em todos aqueles aparelhos na missa de Corpus Christi de 2017.

Me sinto muito ludibriada pelas gerações anteriores, onde a vida adulta parecia uma bela de uma putaria, mas somos na verdade corpos virgens cansados se digladiando na linha vermelha do metrô, fazendo piadas safadas na internet mas tendo uma timidez digna de vergonha na vida real, onde nossas festas são jovens estilosos mexendo em seus iPhones e colocando para tocar artistas e bandas de nome estranho que é uma frase sem sentido com o mesmo sotaque que não vou repetir aqui. Nós nem cara de velhos temos mais. Eu sei lá se estou inventando, se estou doida, se sei lá o que. Mas chega o domingo à noite e eu começo a pensar na merda sem sentido que é a vida. A gente se enche de saberes e objetos para preencher um vazio que só se expande. É a fome do Eresictão. Eu queria a simplicidade de um mundo mais silencioso e de luz natural. Do escuro da noite sombrear as árvores, e de ser possível enxergar meu próprio pé pela luz da lua e das estrelas. Sem para isso esse estilo de vida virar moda e hashtag também.

Então hoje, aos 26, diferentemente dos últimos anos da adolescência, não sei que porra estou fazendo que nada me agrada. Não sei o que devo fazer de minha vida. Um breu maior que o final do ensino médio, quando temos correr atrás de uma profissão para sobreviver, pela primeira vez. Temos que pensar em quem nada ou menos que nada têm? Com toda a certeza. Talvez sejam as únicas pessoas que vivam de verdade. Mas angústias são angústias. A minha, a de Graciliano, a de mamãe, a de Vovô Zequinha, que era um Fabiano de Vidas Secas. Sou plenamente consciente de tudo isso, e talvez justamente por isso me agonie viver reclamando de barriga cheia. Era no mínimo um dever estar feliz, mas, e quando o deprimido é justamente o palhaço que se apresenta para fazer o resto da cidade gargalhar?

Agora nem de mim sou dona mais. Perdi a mão, perdeu a graça. São horas preenchidas só para dizer que compareci. As pessoas me vêem rindo e vivendo, então é isso que importa para eles: minha casca. Aí, de repente, chegam aqueles conselhos não solicitados, de quem é Senhor da Razão e sabe das coisas.
- Ah, relaxa.
- Ah, eu já fui assim.
- Ah, não pense nisso.
- Ah, fica bem.
- Ah, isso passa.
Passa. Mas dizer que passa só aumenta a ansiedade para o momento de passar. E ansiedade paraliza. E o que importa é o agora, e não o depois. O problema está agora, a solução deveria estar agora. Então esses conselhos e merda são a mesma coisa. 😀

Now I lay me down to sleep, pois partes desse texto não serão publicadas porque eu seria ofensiva e ingrata demais. Mais do que já fui exatamente agora hehehe