23 de dez de 2017

A dança proibida

Artista anônimo de Tarragona, Espanha - Euterpe, séc 2
Eu vou tirar meu pé da estrada e vou entrar também nessa jogada e vamos ver agora quem é que vai güentar:

Desde sábado aconteceram algumas questões que me lembraram de algo que me ferve o peito de ódio e eu preciso escrever aqui,  já que a porcaria do facebook não serve de nada e os intelectuais são arrogantes demais para prestar atenção no que a gente fala, se escondendo atrás de nomes históricos.
Olho os livros
Na minha estante
Que nada dizem
De importante
Servem só prá quem
Não sabe ler

Raul seixas - Eu também vou reclamar
Poderia ser blasé e dizer foda-se, mas meus amigos, minhas amigas, eu odeio gente e minha única faca possível para cortá-las são as palavras.

Existem forrós e forrós. O forró que aprendi com minha família é simples, ritmado e combina com as músicas que ouvimos. Gonzagão, Dominguinhos, Flávio José, Assisão, Amazan, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino e por aí vai. A simplicidade dos passos dessa dança é a simplicidade dos passos de um agricultor cansado que tem um momento de folga e vai tocar sanfona para ter um dinheiro a mais para sustentar a família. Meu avô paterno fazia isso. Na minha cabeça é isso. Os forrós de casamento de sítio são isso, um terreiro varrido debaixo de uma tenda e os casais dançam. Botam para fora tudo aquilo que está engasgado no peito e latejando no cérebro, é hora de comer (muito bem, diga-se de passagem) e curtir.

O forró paulistâno, mêo, é outro. É cheio de giros e quase-giros, uma perna para a frente e outra para trás, muito semelhante ao samba-rock e outras danças de salão. Que se aprende em salão. Para quem dança forró desse jeito é possível que aconteça um estranhamento nesse texto, bem como é possível eu ter conhecido pessoas idiotas que dançam desse jeito, e não as pessoas legais que dançam desse jeito. Agora sim: foda-se.

Algumas pessoas com quem dancei acham que preciso "treinar" um pouco os giros. Que devo fazer cursos. Ou simplesmente dançam por dançar só reproduzindo os mesmos giros e os mesmos para-lá-e-para-cás em qualquer música, não importa se é xaxado, baião, pé-de-serra, coco ou frevo. Não há proximidade, pelo contrário. Eu já dancei com um rapaz que só ia me girando enquanto conversava com o amigo, parado. Outro era tão alto e estava tão bêbado que a coisa não fluiu e me indicou aulas de dança, aquele filho da puta. Eu, em meus exageros passionais, consigo enxergar simbolicamente aquela coisa chamada hierarquia de uns poucos "melhores" e outros muitos "piores", ou mesmo a luta de classes.

Em 2015 andei por alguns forrós em São Paulo e Santo André. Estava empolgada. Até que "que bom que você veio de sapatilha, não danço com mulher de salto alto"; "mulher deve ser conduzida na dança, e não conduzir"; entre outras bobagens e o fato de que o pessoal daquele grupo costuma dançar apenas com o pessoal daquele grupo. Estrangeiros são estrangeiros. É uma apropriação sudestina de dança nordestina que eu não sei explicar porque está no âmbito simbólico da coisa. É no modo de se mexer, de falar, de sorrir, de mostrar simpatia, são máscaras anti-naturais. Perdi o gosto de dançar forró em SP. Até dancei sábado junto a um trio elétrico com nordestinos de verdade tocando suas zabumbas, triângulos e sanfonas do Marabá à Mário de Andrade. Mas dancei mais sozinha do que com as pessoas desses grupos que só giram e dançam artificialmente. Para mim é artificial. Ponto. Mas são estes passos que estão exportando para a Alemanha. Não que os passos sejam ruins: são ou estão vazios de significado.

Eu não imagino meu avô, em 1940, dançando com uma moça daquele jeito. "Minha donzela, você tem que girar assim e assado, veja, quando eu virar aqui você vira ali e etc." Dá pra imaginar? Um agricultor analfabeto da seca da Paraíba mandando uma moça ter aulas de dança? Você aprende dançando. Sentindo. Cochilando nos ombros do seu parceiro de dança, no chiado na chinela, com a poeira levantando e o coração pulsando e as mãos em sua cintura fina e essas coisas.

Pierre Bourdieu (já que os intelectuais adoram referenciar outros intelectuais) fala de arrogância e timidez. É aquele momento, por exemplo, que você acha uma senhora rica metida num espaço e se sente uma pessoa tímida no mesmo espaço porque não sabe se portar. Você chama isso de timidez e arrogância mas é o poder simbólico atuando naquele espaço. É uma pessoa demonstrando poder sobre os demais.

Eu fico fudida com isso.

Essa semana saiu uma música nova da Anitta. Eu fui a última a ver, e adianto que gostei da batida; adoro rebolar. Ouvi opiniões contrárias e a favor, não concordei com nenhuma. Minha postura marxista questiona essa coisa de "visibilidade": eu vejo isso como vender-se ao capital, perigando esvaziar uma luta em troca de fama; mas acho bom ver a sociedade como ela é e questioná-la, sempre: um lado conhecer o outro. Outras pessoas acham isso positivo, porque as famílias que estão alheias a todas essas questões intelectuais percebem essas vivências com as quais possuem preconceitos nas novelas, nos "casos de família" e a coisa vai fluindo. Não sei quem de nós está certo, mas são discussões saudáveis, correto?

Não para quem se põe num pedestal. Para essas pessoas, música pop é um lixo, só o gosto musical delas é bom, e etc. Que música "ruim" imbeciliza pessoas. Será?

Conheço personagens históricos paulistas que possivelmente adoravam Mozart, Guiomar Novaes, Schubert, Bach, Wagner, Liszt, Vivaldi... E financiaram a Ditadura Civil-Militar que golpeou este país em 1964. Conheço livros, dessas mesmas pessoas, que em 1977 ainda chamavam esse movimento de Revolução. Do mesmo modo, conheço verdadeiros pensadores do século XXI, colegas de profissão, militantes de causas grandes e importantes, que leem intelectuais e mais intelectuais que... detestam Beatles e Rolling Stones mas amam Molejo, Raça Negra. Pessoas queridas com bons questionamentos na internet, inclusive amigos próximos, que são fãs de Pabllo Vittar, Anitta, Valesca, Karol Conka, etc. Aprendi com algumas delas e com minha querida irmã a não ser mais uma roqueira idiota que acha pagode e funk um lixo. As canções que embalaram meu curso de biblioteconomia este ano, por exemplo, foram: Qual bumbum mais bate? e Bohemian Rhapsody.

Não estou nem aí se Platão dizia que "cuidado com as músicas que o governo te proporciona". Muito bem, podemos discutir isso. Mas Platão conheceu nossas músicas? O rádio? Os vinis e fones de ouvido? Muitos "super-músicos" eram anti-semitas, racistas, entre outras coisas. Escolas de arte como a Bauhaus foram fechadas por Hitler, do mesmo modo que minha querida URSS cortou as asas do Construtivismo Russo e outras manifestações artísticas que são referência nos manuais de história da arte. Também foram criadas músicas que estavam a favor dos governantes. Músicas "eruditas", conservadoras. Charles Manson e Helter Skelter, etc. Então a coisa não é tão simples assim não, meu irmão.

Houve um movimento na história recente de luta contra música popular versus erudita, que hoje persiste e até o professor Marcos Napolitano vive comentando por aí. Acho ótimo. Tem o Manifesto Antropófago, o livro do Guerra-Peixe, o Movimento Armorial, o manguebeat... Ai, ai, como quero comentar tudo isto aqui!

Gonzagão também deve ter sido comparado com música "vulgar" de um governo "que aliena". Assim como o... SAMBA! Quantas pessoas não foram tidas como malandros imprestáveis, vagabundos e todas essas construções. No governo de Vargas mesmo! Aprendemos isso na Academia, ou não... acadêmicos?

Música, para mim, é a batida do coração. De que adianta a técnica? E aqueles remixes do funk com música clássica, com o hino nacional: não está ali a técnica? Posso estudar a vida inteira que vou poder fazer os solos virtuosos de não-sei-quem, tocar tão rápido quanto o fulano daquela banda. "Nossa, que foda", eles dizem. E eu só penso naquela frase de Clarice: "ou toca, ou não toca". Eles riem de Moonchild e eu penso como é minha música favorita do King Crimson. Eles pensam "ha ha ha, Reginaldo Rossi" e eu rebolo Recife: minha cidade e me lembro dos meus seis anos na casa de Cilene, cansada de sono no colo de mamãe, enquanto os adultos conversavam em roda à luz do luar...

Música é memória, afeto, lembrança, contato. Termino com uma frase que me foi a eureka desse texto e pretendo estudar nos próximos tempos, e com o meu espírito animal dançando no carnaval:

A música é Euterpe, uma das nove musas do templo de Museion, filhas de Mnemosine (memória) e Zeus.

Vadinho, em sua última alegria em vida

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