Um velho mundo

30 de out de 2017

27. Iracema

Costumo dizer que odeio São Paulo. Pois é. Nem sempre. Gosto do que São Paulo foi, e do que poderia ter sido (infelizmente sempre prefiro o que poderia ter sido do que o que é, isto causa muita dor). Gosto da São Paulo dos (i)migrantes. Do centro histórico, das atividades culturais (nem todas, mas cada um com seu cada qual), de edifícios históricos, mesmo aqueles de arquitetura fascista. Das periferias, favelas. Do Brás.

Ouvir a voz rouca e rasgada do Adoniran é amar São Paulo. É chorar São Paulo. Não pelos paulistânos e paulistas "tradicionais", quatrocentões, de modo algum. Mas pelo trabalhador que construiu a cidade, que levantou-a do barro e que, de um lugar inacessível e inóspito, a fez centro econômico e metrópole que acolhe diariamente milhões de pessoas de todos os cantos do mundo. Seria lindo, se não fosse trágico. Trágico, porque há xenofobia e mixofilia. Desigualdade social, econômica, e por aí vai.

Não posso dizer "mas vamos falar de coisa boa!", porque o post é mesmo trágico. É a história de Iracema, é a música que me parte o coração.

27. a song that breaks your heart (uma música que parte seu coração)


De vez em quando, geralmente quando estou triste, minha playlist (antes de me interessar pelo post-punk britânico) certamente tem Nelson Gonçalves, Bezerra da Silva e Adoniran Barbosa.

Mamãe sempre cantou o trem das onze, e até vivo como os moradores do Jaçanã que não podiam perder o tal do trem das onze, o último da noite. Porque moro em periferia, distante de tudo. Tanto, que teve um dia, curiosamente dia em que vi ao vivo Demônios da Garoa, que chorei Iracema, sorri e apertei a mão de Dedé Paraízo, que cheguei com mamãe bem depois das onze no terminal de ônibus, e só amanhã de manhã (sorte que tinha o tal do uber e a casa de um amigo próximo, com festa; regalias que não existiam em meados do século XX). Além de morar longe e correr o risco de perder o último transporte da noite, ainda passo todos os dias mais ou menos pelo caminho do antigo trem, entre trabalho e escola, que subia do Tamanduateí para Guarulhos, e passava pelo Carandiru - e Jaçanã.

Voltando à Iracema. Me senti Adoniran quando ouvia os Demônios e chorei, eu chorei de dor porque, bem, a vida não é lá essas coisas que a gente acredita na juventude. Ainda tenho abissal dificuldade em dizer meus sentimentos, então recorro às artes audiovisuais e textuais. Me mascarando em coisas já ditas, me sinto protegida, porque qualquer coisa eu digo que não sou eu, é a música que está falando, olha só. É aquele texto com referências e ABNT. Eu apenas concordo, não quer dizer que eu sinta, ou que eu seja. Mas é: eu sou tudo isso sim, apenas covarde e pequena.

Me senti Adoniran, porque Iracema, eu nunca mais eu te vi. Porque Iracema, eu perdi o seu retrato.

Não sei se é assim com vocês, mas enquanto me lembro de datas, e associo  com cré, minha memória visual é bem comprometida. Tudo me lembro atrás de nuvens, mesmo que tenha acontecido uma hora atrás. E me forço a lembrar revivendo momentos. É até interessante essa parte, porque me lembro das aulas da professora Sandra e ela explicava sobre temporalidade, testemunhos, etc.

Lembro de algo como que a memória se confunde muito com a imaginação. E como as lembranças são efêmeras, para compôr uma linha do tempo decente nosso cérebro vai inventando o que perdeu de informação. É como um restauro mental: fica parecido com o que foi, mas já não é mais. Até o momento em que o frágil papel da memória se dilui e tudo o que se tem é o material enxertado, posterior, não original.

Quando ouço de lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos, Iracema, eu perdi o seu retrato, me sinto o noivo de Iracema, faltando vinte dias para o nosso casamento, naquela confusão do público em volta do corpo outrora pinchado no chão da avenida São João, recolhendo suas meias e seus sapatos. Naquela época registros fotográficos não eram como hoje. Uma fotografia era cara. Mas Iracema se manteve viva no coração de seu noivo e na música de Adoniran Barbosa.

Avenida São João, déc. 1950.
Por que essa música é tão importante? Porque como zelo pela memória, levo muito da minha profissão para minha vida pessoal. Então Iracema não só morreu. Morreu também sua imagem, a da fotografia perdida. Futuramente, não haverá nenhum testemunho da história de Iracema, de tantas Iracemas. E saber que isso é tão completamente possível, dá um aperto no peito e real vontade de chorar. Então, assim como o noivo de Iracema, nos apegamos às meias e aos sapatos, para ao menos fingir que a pessoa está ali, conosco.

Há uma questão que professora Sandra também dizia nas aulas. "Uma árvore caiu no meio de uma floresta. Ninguém viu. A árvore caiu?" - como dizer que sim, se ninguém viu? Que árvore? Que floresta? Se ninguém viu, não aconteceu. Então, tem também tem essa citação que encontrei num livro da biblioteca do museu:
No México existe a crença de que cada pessoa morre três vezes:
A primeira é no momento em qua suas funções vitais cessam.
A segunda é quando o seu corpo é colocado na tumba.
A terceira acontece em algum momento no futuro, no qual o nome do falecido é pronunciado pela última vez.
Aí então a pessoa realmente morre.
Ted Klein para a Roots Web Review. (apud. REZZUTTI, 2013, p.267)
Parece um texto sobre morte. Mas não somente. É sobre perdas, sobre momentos findos, tempos que não voltam mais. Sobre não ter o timing. Não aproveitar o presente, ou querer tanto aproveitar todo o presente que a profundidade dele é pouca e se anuvia facilmente. A São Paulo que não é, a Iracema que foi minha, e nem o retrato dela tenho mais. O caminho que estava traçado e foi riscado. A não preservação de indícios, o desconhecimento da História. A memória que falha, a imaginação que confunde, a expectativa que se cria, a decepção que chega a galope (e é culpa do que expecta). O abandono, Iracema, meu grande amor foi embora.





Mamãe e eu, Dedé Paraizo e os Demônios da Garoa.

* Este post faz parte do 30 day music challenge. Leia mais.

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