quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Esta tarde a trovoada caiu

John William Waterhouse - Miranda (the Tempest), 1916
Aconteceram umas coisas nas últimas duas horas que atormentaram completamente meus sentidos, e foi um combo de situações abstratas desagradáveis.

Há exatos dez anos morreu meu avô materno. Tive, na vida, pouco contato com ele, e ações de familiares próximos me afastavam de vovô de maneira criminosa, coisa que sempre soube, mas como era criança, não sabia me defender e/ou me impôr. Não chorei sua morte. Liguei meu mp4 em duas músicas ad infinitum por dias, noites, madrugadas: GNR - Don't cry e John Frusciante - The past recedes.

Há exato um ano aconteceu o golpe. Foi uma voadora nos peitos, né. Politicamente me abstenho de dissertar sobre, é muito desgastante. Mas é também uma lembrança ruim, não só para mim, sem dúvida.

Hoje abri uma página e vi algo que não deveria ter visto. Sim, tudo isso tem conexão, mas são coisas que não convém detalhar. O que vi se assemelhou com o que vejo no espelho todos os dias e talvez, de algum modo, eu tenha compreendido bad trips em frente ao mesmo objeto. A memória para mim é a coisa mais importante, é o que comprova a existência. Me ver possivelmente confundida em outras memórias, que não são minhas ou de mim me causou náusea e desespero (sou muito desesperada, todos os dias, mas isso doeu mais), porque se não reflito a mim mesma para quem me enxerga, ou seja, se sou confundida, se sou uma cópia, se sou um produto, se sou um padrão, o que sou eu, se não sou eu quem transpareço? Qual é o sentido de não sermos nós?

Hoje arrebentei em algo que alguém pode chamar de choro, mas não é dos meus choros habituais. Costumava chorar como um bebê, com rios de lágrimas, soluços, nariz escorrendo, bocão-de-pá escancarado, caretas. Hoje os olhos ameaçam uma parca umidade, uma semi-careta se faz, e tudo se resolve tão rápido quanto um bocejo, sem líquido algum escorrer pelos olhos. O Paulinho da Viola (composição de Max Bulhões e Milton de Oliveira) em cada palavra conseguiu descrever o que houve, o que há, o que tem para hoje. Chorei por uma música que em toda a minha vida odiei, e de repente vi que se não tinha eu ali, agora está tendo, e parece que estou gostando. Não chorei pelas palavras - que acabo de descobrir e pensar muitos palavrões, porque como é que pode ser exatamente isso? -, mas pelo primeiro acorde, porque como eu disse, odiava essa música, mas instrumental é outra coisa.

Me sinto com 15 anos novamente. O que me lembra de vovô, era essa a idade que eu tinha quando ele faleceu. Era essa a idade que eu tinha quando ouvi The past recedes como se fosse a única música existente, e o passado parece que retrocedeu. É essa música que fui bisbilhotar a letra e de repente vi uma frase 90% semelhante a uma que eu mesma criei agorinha, antes do almoço, para poder explicar em palavras e imagens o que estou sendo hoje.

Me comunico por gifs e memes. Desde o ensino médio dizem que eu sou a própria representação de um emoji/gif em forma humana, porque minhas reações são claras e exageradas. Então, como não sou poeta, pensei no seguinte: "uma gota de veneno que transforma o oceano" - e imaginei uma animação de uma gota negra caindo lentamente no infinito azul do mar, e se espalhando por todo ele. Uma animação feita pelo artista do Pink Floyd The Wall (e da animação Hercules). O oceano são todos os meus sentimentos, e uma gotinha infima de veneno (maus pensamentos) se alastra neles todos, me deixando mal; e às vezes é tao pequena a gota que nem sei o que exatamente ela é que me fez tão mal assim. Quando li The past recedes, encontrei E cada gota do mar é o oceano inteiro. A imagem, que infelizmente não tenho capacidade de criar, pode ser substituída pelo videoclipe de Welcome to the machine, com animação do próprio Gerald Scarfe.

Para quem tem mais de 20 anos, essa cena é a cara da abertura da novela A indomada

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega.
O Guardador de rebanhos: IV Esta tarde a trovoada caiu
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)



I am the son / And the heir / Of a shyness that is criminally vulgar / I am the son and heir / Of nothing in particular / You shut your mouth / How can you say / I go about things the wrong way? / I am human and I need to be loved / Just like everybody else does





sexta-feira, 25 de agosto de 2017

1. Green is the colour

Depois do almoço, costumo subir e voltar ao computador, para fazer vários nadas ou me concentrar em pesquisa e afins. Hoje quis um pouco aproveitar o sol, que há dias não aparecia tão gostoso e preguiçoso. Afinal, hoje é sexta-feira, vamos descansar um pouquinho, né?

O museu em que trabalho possui um belíssimo e bem cuidado jardim (principalmente graças ao jardineiro que cumprimento sempre, e que possui um sorriso maior que o meu), com bancos, pé de jasmim-manga, hermas dos fundadores da instituição, camélias, rosas, alguns gatos fugídios, senecio prateado, sabiá laranjeira, e o amor da minha vida de historiadora e brasileira: um pau-brasil de mais de vinte anos de idade.

Já demos aulas sobre a "evolução" da moeda de troca no Brasil, onde lembramos que uma de nossas primeiras foi justamente o pau-brasil. De troca, de exploração, são tantas questões históricas. Mas o que me fez tocar nesse assunto não foi a questão histórica a ser discutida (evito a palavra "problematizar", ela própria é um problema), e sim a possibilidade de dar aulas sobre um Brasil de quinhentos anos, e poder descer as escadarias de um edifício de quase 121 com os adolescentes e dizer: "olhem, isso é um pau-brasil".

Uma publicação compartilhada por Helen Araújo (@centralheaven) em

Ele fica na parte central da ala direita do jardim, por assim dizer. Encostadas nos muros com hera estão outras árvores com florezinhas e frutos, e dá para ouvir muitos passarinhos pra lá e pra cá. Se tem algo que considero minha religião é o silêncio e/ou os sons da natureza e a brisa tornando tudo vivo e não-parado, coisas que combinam muito com meu jeito de ser, já que sou uma pessoa que tem pavor do que é eterno, imutável, paralisado.

Tomei um pouco de sol, fiz umas fotografias, subi para meu posto e comigo subiu o cheiro de canela, que me lembrou momentos que bem sabemos serem aqueles que nos deixam escapar um sorriso involuntário, meio de canto. Abrindo as portas, ouvi um som em flauta doce que precisei perguntar o título da música para a menininha que subia com sua flauta na mão e o professor atrás: "ovelha de maria". "Ok, muito obrigada!" Outros, ainda, arriscavam Asa Branca.

Agora os pequenos estão ali em frente tocando "debaixo dos caracois de seus cabelos". Não gosto de Roberto Carlos (praticamente o detesto), mas existem canções que também involuntariamente mexem com a gente. Me lembro dos cachinhos da minha irmã, quando ela tinha seus 3, 4 anos, e o sorriso sapeca naquele rosto gordinho mais fofo do mundo. E nós com nosso binóculo amarelo observando as aves de rapina nos eucaliptos atrás de casa. A vida não dava pistas de como seria 15 anos depois. Quinze anos...

Enfim. O post não deveria ser tornar o que será visto no parágrafo seguinte. Mas observei as imagens, e pensei: por que não? Há meses quero iniciar o desafio dos 30 dias com música - que já adianto, não serão 30 dias corridos. Então o primeiro desafio é:

1. a song you like with a color in the title (uma música que você gosta com uma cor no título)


Green is the colour of her kind
Quickness of the eye deceives the mind





segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Paint it, black

Num dia muito querido e especial, no fim de uma semana terrível, sonhei que eu morria.

Estava em alguma estação de metrô, esperando na plataforma de frente para onde estaciona a última porta do último vagão. Algo acontecia que eu devia me abaixar, junto com os usuários que me acompanhavam, para não bater a cabeça em uns ferros que vinham em alta velocidade junto com o trem, como se fosse a brincadeira de "vivo ou morto", a mesma lógica.

Assim como no jogo, a gente às vezes erra e morre onde era para viver, ou vive onde era para morrer. Eu morri.

O ferro furou meu crânio e esmagou meu cérebro, não senti dor. Senti o sangue negro escorrendo dentro da minha cabeça, pintando minha visão de preto de uma maneira muito tranquila, onde eu percebia que estava morrendo e não sentia que ia cair, mas me sentia flutuar, como se apenas a minha consciência pairasse sobre o cenário e o corpo não fosse mais nada.

O início dessa música ilustra o líquido escorrendo e pintando tudo de preto. A letra, ilustra meu mês de agosto. Paint it, black.
I look inside myself and see my heart is black
I see my red door and must have it painted black
Maybe then I'll fade away and not have to face the facts
It's not easy facing up when your whole world is black


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Três de um par perfeito (tag: 3 coisas)

Gostaria de não ficar apenas respondendo coisas por aqui, mas a vida está angustiante demais para eu escrever textos que não sejam em minha caderneta vermelha. E como já expliquei, não sei muito bem mais como é escrever sentimentos de forma direta, clara ou interessante.

Lendo o BEDA de algumas blogueiras que sigo*, encontrei essa tag/meme "três coisas", então vou responder rapidinho, porque tem umas questões felizes que talvez me animem nesse mês que detesto tanto (curiosamente, mês do historiador - 19 -, do Animal Farm - 17 -, e do filósofo - 16).

  • 3 coisas que me dão medo:
  1. mariposas
  2. baratas
  3. cogumelos (vivos - lembrando que são fungos)
  • 3 coisas que me dão preguiça
  1. arrumar a minha casa (porém sou organizada fora dela)
  2. sair (moro longe de tudo, sou caseira)
  3. multidões (detesto aglomeração)
  • 3 coisas que eu gosto
  1. ler
  2. trabalhos manuais (de costura a marcenaria)
  3. dançar forró
  • 3 coisas que eu sei fazer
  1. bordar (envolve ponto-cruz, tricot e crochet)
  2. entender até certo ponto a linguagem html e de programação
  3. bolo de laranja
  • 3 coisas que eu não sei fazer
  1. praticar esportes
  2. conversar sobre assuntos corriqueiros
  3. começar atividades cedo para terminar antes do prazo (tudo de última hora, literalmente)
  • 3 assuntos preferidos
  1. história
  2. música
  3. luta de classes
  • 3 assuntos que eu não gosto de discutir
  1. seriados
  2. literatura, filmes e música atuais
  3. política, quando caímos no lugar-comum do reacionarismo brasileiro e sobretudo paulistano, me dá enguio
  • 3 cheiros preferidos
  1. madeira seca queimada (me lembra o sítio de meu avô)
  2. roupa lavada, engomada e que quarou no varal (me lembra sítios num geral)
  3. tinta, querosene, removedor, aguarraz
  • 3 cheiros que eu detesto
  1. perfumes doces e florais (porém amo perfume amadeirado)
  2. fósforo
  3. gasolina (enjôo)
  • 3 melhores comidas
  1. arroz + feijão preto + ovo frito com gema mole e clara tostada + farinha
  2. sopa de feijão
  3. carne/frango/peixe cozido com batatas (batata é uma maravilha, só detesto a palha e as industrializadas, tipo ruffles)
  • 3 piores comidas
  1. muita fritura
  2. industrializados
  3. carnes com gordura, pele e/ou nervos
  • 3 piores redes sociais
  1. twitter (possuo, quase apagando)
  2. facebook (possuo, querendo apagar)
  3. tumblr (adoro o tumblr, mas ele trava demais e não consigo acessar)
  • 3 melhores redes sociais
  1. telegram (com stickers e gifs, nem sinto mais falta do msn)
  2. vk.com (é russo, mistura de facebook com orkut, dá para ouvir música lá dentro)
  3. blogger (vou considerar como rede social)
  • 3 melhores bebidas
  1. café
  2. cachaça (Ypióca e 51 não prestam)
  3. suco de laranja sem açúcar
  • 3 piores bebidas
  1. cerveja
  2. tequila
  3. água com gás
  • 3 coisas que me acalmam
  1. rock progressivo e música clássica/ gregoriana (solos de guitarra, contrabaixo nas notas mais graves, e órgão, de tubo ou não)
  2. árvores e vento
  3. deitar na cama para dormir depois de um dia interminável
  • 3 coisas que levam todo o meu dinheiro
  1. livros
  2. cadernos (parei com as canetas, graças ao bullet journal, agora só lápis)
  3. café
  • 3 coisas em que eu não gosto de gastar dinheiro
  1. transporte privado (a passagem do público já é cara demais)
  2. balada (bar com cover de classic rock ou bar normal com cachaça e cadeiras tá ótimo)
  3. sapatos
  • 3 coisas que me estressam
  1. direita e seus derivados (com opinião sem argumentos sólidos e/ou argumentum ad hominem)
  2. não-interpretação das coisas direito
  3. quando alguém diz para eu fazer algo (ainda mais se já estou fazendo esse algo; paro de fazer só porque "mandaram"fazer) e/ou conselhos não solicitados
  • 3 coisas que eu vou fazer essa semana
  1. trabalhar no sábado
  2. estudar os textos para o tcc
  3. me iludir e ter paranoias dostoievskianas
  • 3 coisas que eu fiz na semana passada
  1. comprei presentes (foi inútil e me arrependo)
  2. dei banho nas cachorras
  3. quebrei meus óculos
  • 3 coisas que quero fazer em breve
  1. ter uma companhia para beber e etc., não que isso seja uma (in)direta para alguém (leia deste modo)
  2. escrever artigos independentes
  3. organizar local de estudo em casa (tá uma zona e me prometo isso há anos)
3 coisas que eu deveria fazer em breve
  1. novos óculos (esperando oftalmologista disponível)
  2. leituras para o tcc (tá difícil sem o item 1)
  3. resolver questões pessoais complicadas que estão me deixando pior do que jamais estive; porém sigo racional
3 coisas que não quero fazer
  1. o item 3 da questão anterior
  2. dizer meus sentimentos para a companhia do item 1 da questão anterior da anterior
  3. continuar tendo redes sociais (me é nocivo, não aguento mais os assuntos, as gírias, as polêmicas, os trendings, a sociedade como um todo, a bolha on-line, a modernidade líquida, o admirável mundo novo)
Infelizmente percebi com essas respostas que me é muito mais fácil elaborar respostas negativas e do que "não gosto", do que dizer sobre aquilo que aprecio e admiro em mim e na vida. Sei que existe, mas a mente vira uma tela em branco na hora de me expressar. Já os rancores, na ponta da língua e pulsando na mente. Foi divertido, no entanto! É quase um planejamento e reflexão do que sou, fui e serei. Quem sabe renove esse texto daqui um tempo e me descubra totalmente diferente do que sou hoje?


He has his contradicting views
She has her cyclothymic moods
They make a study in despair
Three of a perfect pair


* Referência de onde tirei esse meme/tag: Hello Lolla, Vois des fleurs, A life less ordinary.

P.S.: estou sem óculos, atrasada, com fome e cansada de revistar este post. É possível que mais tarde ocorra alguma mudança, então não tratemos (nunca) como opinião formada sobre tudo e sobre o que eu nem sei quem sou.