67 anos sem George Orwell

George Orwell em 1946, fotografia de Vernon Richards

Há poucos anos sequer imaginava a existência de Eric Arthur Blair, e anos antes, pior: não entendia seu propósito com o livro que depois se tornou um de meus favoritos.

Nasceu em Motihari em 25 de junho de 1903, quando a Índia ainda fazia parte do império britânico, de uma família inglesa de classe média. Sofreu como bolsista na "cara e esnobe" escola São Cipriano e passou um tempo com vagabundos ingleses, dormindo em albergues e relatando, como jornalista, como era a dinâmica de quem assim de fato vivia, por não ter emprego e seus direitos ignorados. Como morrem os pobres e outros ensaios conta essas e outras histórias, inclusive uma que me encantou pessoalmente: algumas reflexões sobre o sapo comum.

Lutou na Guerra Civil Espanhola (1936-39) junto ao P.O.U.M. - Partido Operário de Unificação Marxista. A partir da luta, escreveu Homage to Catalonia, ou Lutando na Espanha - seu relato de guerra. Nessa guerra também lutou Angelines Fernandez, a Bruxa do 71. Todos contra os fascistas, obviamente. Mais pessoas que participaram da luta e me são caras: Gerda Taro, Robert Capa, David Seymour e La Pasionaria - os três primeiros fazendo inacreditáveis registros fotográficos por toda a Espanha.

Mas Orwell, que na verdade é um pseudônimo de Blair, ficou conhecido pelas distopias que denunciavam o totalitarismo e a privação de liberdade de imprensa e pensamento, mas que muitas vezes foram anunciados erroneamente como obras simplesmente anti-comunistas. Orwell era de esquerda, anti-stalinista.

Comecei a leitura com 1984. Uma distopia sobre Oceânia, onde vive Winston Smith, cercado por cartazes do Grande Irmão (Big Brother não é por acaso), ciente de tudo o que acontecia vigiando a população com a Teletela, com vizinhos e parentes se denunciando por crimes de pensamento e a sociedade sendo moldada pela manipulação histórica e de notícias, conforme convinha ao Grande Irmão. Ora Oceânia era amiga da Eurásia e inimiga da Lestásia, ora o contrário. Smith era encarregado de sumir com notícias, alterações que não eram percebidas pela população, que esvaziava suas frustrações diante da imagem de Goldstein, o Inimigo nº1 d'O Partido, nos Dois Minutos de Ódio. Winston passa a prestar atenção no que acontece ao seu redor, e o resto pode ser conferido no livro, que teve dois filmes representando-o, em 1956 (muito modificado) e em 1984 (John Hurt ♡ e trilha sonora de Rick Wakeman).

John Hurt, falecido dias depois desse texto

A leitura foi começada três vezes. Na derradeira, era meu último ano de faculdade e eu não tinha pensado ainda no artigo de conclusão de curso. Bom, tinha assistido (e odiado, por ignorância minha) A Revolução dos Bichos (1999) no final do ensino médio, e como fã de Pink Floyd o tcc tinha que ser sobre a banda progressiva. E foi. O disco Animals (1977) é baseado no livro favorito de todos os tempos:

A Revolução dos Bichos (Animal Farm - a fairy story) é uma fábula distópica sobre os animais de uma fazenda que tomam o poder, expulsando os fazendeiros humanos. Mas esse poder é usurpado pelos porcos, que tendo os cães como polícia de seu governo totalitário exploram o restante dos animais e passam a fazer negócios com humanos de fazendas vizinhas. Desses animais, as ovelhas são a massa que termina de validar esse governo. É alusão à teoria de Marx (Major), levada adiante por Bola de Neve (Lenin) e corrompida por Napoleão (Stalin) com a ajuda do porco marqueteiro (por assim dizer) Garganta. Escrevi sobre isso e todo o resto da minha vida relacionada à escrita parte disso de 2013 até o presente.

Pretendo ler Lutando na Espanha e tudo o que mais tiver sobre Orwell. E esse texto é uma ligeira bagunça apenas para linkar as obras dele, disponibilizando brevemente para vocês, não deixando esse dia passar em branco.

Fotografias de George Orwell por Vernon Richards em 1946.
Romances, ensaios, artigos, poemas em inglês nesse site russo.
Algumas obras em português, grátis
Meu artigo no Academia.edu

Um comentário :

  1. Helen querida,

    Além de te agradecer novamente pelo comentário no meu blog, venho aqui literalmente bater palmas por você ter conseguido fazer uma monografia sobre Animals. Isso foi incrível!
    Li algumas partes no link que você deixou aí (infelizmente não estou conseguindo baixar :/) e achei sensacional.

    Confesso que até hoje não sei dizer qual livro de Orwell me agradou mais, se "Revolução" ou 1984. Adorei verdadeiramente os dois, vendo-os como obras-primas, de semelhante abordagem, porém de peculiaridades e estilos próprios. Li os dois em épocas muito diferentes, sendo uma delas enquanto era adolescente ainda, o que me dificuldade ainda mais escolher um predileto.

    Como um bom fanático floydiano, acho a adaptação feita por Waters em Animals fabulosa, sem contar a oportunidade de utilizar-se dos elementos "orwelleanos" para insultar Magg Tatcher e criticar o capitalismo (ao contrário do autor literário, inclusive).

    Foi um prazer vir aqui e me deparar com este post.
    Continue aficcionada por Pink Floyd e escrevendo bons textos.
    Beijos.

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