domingo, 22 de outubro de 2017

Backups #1

Depois de 11 anos na frente do computador, decidi que odeio redes sociais. Então o facebook tem o famigerado on this day, e até que não fomos pessoas tão vergonhosas no passado. Tem dia. Vou reproduzir aqui algumas coisas que não me arrependo de ter postado, para a posteridade. Porque até o fim do ano que vem crio coragem para apagar mais esta conta.

Começo pelo bônus, porque a melhor ilustração deste post vem dele.

21 de outubro de 2015.

[ B o n u s ] Essa pintura merece destaque, por n motivos.

Eugene de Blaas - O flerte, 1903.
22 de outubro de 2015.

Minha época favorita de Tom and Jerry é sob direção de Gene Deitch (1960-62) na Praga da então Tchecoslováquia, e produção da MGM. Você reconhece a época pelas caras e bocas do gato e do rato, o homem sempre tem um olhar severo e se irrita facilmente, assim como o dono de Tom, que noutros episódios busca pescar, relaxar com um café, ou algo assim. Amo os movimentos, cores, música, dublagem. Meu episódio favorito é Buddies Thicker Than Water, de 1962.
Acho o Gene de uma vanguarda total, diria até de uma psicodelia admirável. Hoje de tarde me lembrei de Bizet, e desse clássico a seguir:

 

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Marquei como lido "A casa dos budas ditosos".

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As 19 Rapsódias Húngaras de Liszt

22 de outubro de 2013.

Estava ouvindo Syd Barret - Mek Weg!

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Dorris McComics

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Antonio Gramsci - Escritos políticos vol 2. II. A questão meridional: 1926. p. 415
22 de outubro de 2011.

O cabelo absurdamente lindo e a vida parecia resolvida. Doce ilusão dos 19 anos.
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Nininha com 4 anos e as orelhas inteiras (agora tem 10 anos e uma orelha murcha)
22 de outubro de 2017.

Hoje em dia esse tipo de coisa faz sentido em minha vida, estou só aqui bebendo, cheirando incensos e pagando contas.

sábado, 14 de outubro de 2017

28. C'est la vie

Krzysztof Kieślowski - La double vie de Veronique, 1991.
Tenho costume de usar termos estrangeiros em algumas conversas. Não que eu seja fluente na língua - por exemplo, não sei latim, mas já soltei um ipsis litteris no meio de um seminário, de nervoso -, ou seja empreendedora™ que solta um startup, follow up, feedback, new car, caviar, four star daydream, think I'll buy me a football team, I'm all right, Jack, keep your hands off of my stack. Não, longe de mim. Mas às vezes a gente solta um je ne sais quoi, um c'est la vie... Porque, bem... c'est la vie...

Então usei o último termo do parágrafo anterior em uma conversa e me lembrei de Emerson Lake & Palmer, uma de minhas bandas favoritas de rock progressivo, que me lembra as trilhas sonoras de Peanuts [1] e Tom & Jerry [2] (lembrando que meus episódios favoritos são os polêmicos ilustrados por Gene Deitch), e de Inferno, do Dario Argento. O Keith Emerson é (foi) um tão excelente musicista, e com um som tão específico, que até a leiga aqui em teoria musical sabe muito bem distinguir quando o piano está sendo tocado por ele.

Enfim, esses dois parágrafos confusos só existem para introduzir a música Money, do Pink Floyd, e o que vem a seguir. Estou tentando montar meu 30 day music challenge, e hoje respondo o dia:

28. a song by an artist with a voice that you love (uma música por um artista com uma voz que você ama)

Greg Lake. Poderia ser Ian Gillan, mas... Greg Lake. Ele é o L de ELP, o Lake de Emerson Lake & Palmer. E o segundo dos que se foram (só Carl Palmer, o baterista, está vivo).

Obviamente a música não poderia ser outra:

Like the sea
There's a love to deep to show
Took a storm before my love
Flowed for you
C'est la vie
E, para comprovar o que estou dizendo, caso a estrofe acima não tenha tocado o seu cuoração, tem também essa abaixo. Porque Greg foi o primeiro vocalista (e baixista, isso é muito importante) da banda King Crimson, mais conhecida por ter um cangaceiro na capa (mentira, é um Coringa, mas não custa nada sonhar) de um de seus discos e/ou por ter zero discos disponibilizados no youtube porque o Robert Fripp não colabora. Então, como o Fripp não colabora, admiráveis fãs isolaram a voz de Greg na música Epitaph, do primeiro disco, In the court of the crimson king, de 1968, que é, inclusive, um dos meus dez discos favoritos de toda a vida, e um dos classicões do famigerado prog.

Knowledge is a deadly friend
If no one sets the rules
The fate of all mankind I see
Is in the hands of fools
* Já postei o dia 01 do desafio.
[1]. A Charlie Brown christmas, de 1965, tem música composta pelo pianista de jazz Vincent Guaraldi.
[2]. Saturday evening puss, de 1950, é um episódio dirigido e escrito por Hanna-Barbera, e a música composta pelo pianista Scott Bradley.

domingo, 1 de outubro de 2017

Bright and dark sides

Gustave Caillebotte - Rue de Paris, temps de pluie, 1877
Me baseei nesse texto da Gabriela para criar uma lista de coisas gostosas que animam meus dias. Porque há dias tão intensamente tempestuosos que simplesmente nublam qualquer possibilidade de boa atividade, me fazendo não enxergar alternativas e fazendo chover em minha cabeça. Não vou elencar tudo, infelizmente. Mas, para me lembrar melhor dos momentos, é bom pensar em rotina, em horários. Eis aqui meu lado brilhante da vida:


Gosto de me espreguiçar pelas manhãs, antes de levantar da cama. Parece que antes disso sou uma pilha de ossos desmontados. (Vocês - pelo amor de Deus - já assistiram Funny Bones?)


Sou apaixonada por rostos que acabaram de acordar, inclusive o meu. Uma pessoa que acabou de acordar, com o cabelo assanhado, a cara de "onde estou, quem sou eu, o que está acontecendo?", as olheiras vermelhas (eu adoro olheiras, sabe; e ainda bem, porque nasci com elas), a voz rouca, a preguiça, a desorientação e, no meu caso, o silêncio. Não interessa se estou de bom ou mau humor, eu de manhã falo muito, muito pouco, quase nada.

Cafuné!

Café!

Ir para lugares ouvindo música e prestando atenção na paisagem. Quando é um caminho que gosto muito e a distância se mede temporalmente em mais de uma hora, com certeza estarei ouvindo o disco Live at Pompeii, do Pink Floyd. Também adoro ligar o som e dar um cochilo, dependendo do horário, e se estou sentada no ônibus.

Dar bom dia a desconhecidos. Sorrir para eles, sabendo que essa é a única vez na vida que nos encontramos, provavelmente, e cordialmente trocamos coisas boas num gesto simples, rápido e indolor. Quando acontece de nos revermos, de nos reconhecermos, é melhor ainda. É uma amizade sem nome e sem compromisso nenhum.

Andar e observar - de novo - a paisagem. A arquitetura das casas, o modo de viver dos bairros, sentir o vento e ouvir os passos. Dar oi pro gato naquela garagem, sentir medo do gnomo daquele jardim, fotografar aquela flor e querer saber a cor da tinta daquela parede. Tenho o costume, desde sempre, de observar casas e apartamentos, fragmentos internos, e imaginar toda uma vida. O que o marido está assistindo, o que a mulher está fazendo, os gostos dos filhos, os empregos, preocupações e motivações de vida de cada um (como pessimista e intolerante a padrões que lê Buk e Dosto e ouve Raulzito, eu acho essa rotina toda um saco - mas esse jogo de adivinhação é uma delícia).

Bares. Não botecos-boutiques da Vila Madalena (Vila Madá para os paulistânos, mêo), mas os bares verdadeiros, com caixas de cerveja empilhadas, prateleiras tortas e garrafas diversas com conteúdos também diversos e às vezes sem rótulo, um balcão, o dono e um freguês, uma televisão com futebol, noticiário ou uma conversa. Um comentário. E, neste momento, meus amigos, que se exploda o politicamente correto. A simplicidade, crueza e ebriedade de um bar para mim é a mais pura poesia e humanidade. Mesmo que... não, não interessa o assunto e a opinião.

Atravessei a rua, entrei numa bodega.
- Faz o obséquio de me dar um pouco de aguardente?
O homem da venda trouxe a garrafa, pôs-se a despejá-la num copo sujo.
Como eu não o interrompesse, derramou a bebida com sovinice.
- Quer que encha?
- Vá botando.
- Ah! bom. É o que se leva deste mundo, opinou entregando-me o copo cheio.
Sentei-me e comecei a beber, olhando a casa fronteira, o pensamento espalhado.


Aquele momento que fico tão completamente empolgada que gaguejo, balanço os braços, digo as coisas todas na ordem errada e quem me ouve dá risadinhas. O mesmo quando eu sou a ouvinte. Tipo cena de insight de filme de mistérios e aventura, onde dois personagens perambulam pela sala com cara de interrogação, simultaneamente lhes aparece a exclamação e, por algum motivo, possuem uma fala sincronizada de eureka tão ou menos inexplicável que um musical com toda a cidade desconhecida entre si dançando e cantando do mesmo jeito. Amo (só não amo musicais). (p.s.: os vídeos a seguir possuem spoilers)


Minha linha de pensamento é idêntica a do Todd e kkkkk adoro esses filmes bestas do Nick Cage

Café novamente! Mas não o simples ato de bebê-lo. É esperar um dia inteiro pelo café da tarde e ter o prazer de ouvir a água quente jorrando por cima do pó, fazendo subir um aroma indescritível de paz. Café com mamãe e biscoitos da casa do norte, café sozinha com anotações em minha caderneta e suspiros apaixonados ou preocupados, café na pausa do trabalho com causos e uma boa prosa, café para aguentar as próximas oito horas, para me inspirar, me motivar, lembrar que a vida não é só problemas. Café.

fonte. russa, é claro
Cheirar gatinhos. ... Literalmente: pegar as gatas aqui de casa e dar um chêro e fazer carinho até ronronarem e ficarem doidas se esfregando, abraçando, lambendo, arranhando, dando chutes e correndo para se esconder e pular na minha perna, brincando. Carinho gatos a qualquer hora e em qualquer lugar. Queria ter essa habilidade de brincar com cachorros, tadinhos. Tenho duas e não dou a atenção merecida (... voltemos à parte boa).

Comer salada de frutas. Mas pelo amor de Deus, sem leite condensado, isso é criminoso. Salada de frutas é com frutas e o único líquido deve vir da maior fruta de todas, que é o suco de laranja. E só. Amo muitas comidas mas essa é aquela que a gente ama tanto que esquece de mastigar direito e quase se engasga e quer enfiar na cara (talvez eu seja uma comedora aflita, não façam isso em casa).

Dormir ao som da chuva, ventania, sapos, grilos, ou cães latindo ao longe. Dormir de cansaço e nem sonhar (eu sonho muito, não aguento mais).

E a mais novíssima melhor sensação de todas do momento: ir dormir com essa trilha sonora, in a specific way. Is such a heavenly way to sleep.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O tempo, o que queremos e o que fazemos dele

Ker-Xavier Roussel - Les Saisons de la vie, 1892
Hoje reli A Cartomante, e sinto ter pensado nessa história por algum motivo na metade do caminho entre casa de papai e trabalho. Aqueles pensamentos que aparecem do nada em nossa cabeça como o demônio Pazuzu em O Exorcista, ou as propagandas da Jequiti no SBT.

Mas não foi por apenas ter me lembrado de Machado de Assis que reli essa história - que adoro. Foi porque me sentei no ônibus ao lado de um senhor muito atrevido (não uso esta palavra nem no bom, nem no mau sentido).

Pois atreveu-se a interromper minhas músicas e comentar sobre o sol extremamente quente, que ele é feirante e aguenta, tudo bem. Falou de vitamina D e não ouvi, ordenou que eu tirasse o último fone de ouvido que restava. Mas não era a música que me impedia de ouvir, e sim que ele falava muito baixo (ou estou perdendo a audição). Perguntou meu nome, eu disse e ele comentou de uma rainha Helen cristã grega do século XV a.C. (seria a mulher de Menelau e amante de Paris?). "Quem me vê não dá nada por mim", disse e comentou sua religião e que até lia mãos.

Olha, eu sou bem laica quanto a religião dos outros (e a minha própria, sou católica mas nem pareço), então a questão não é sobre acreditar ou não, ou o que é certo e o que é errado. Então ouvi muito educadamente o que ele tinha a dizer sobre minha mão esquerda, e desci em meu ponto habitual, agradecendo a conversa. Experiências, uma das graças da vida.

Não vou dizer o que ele me disse, nem sobre quem. Mas me incomodou o que ele disse no sentido que explico a seguir, e que tem a ver com várias coisas no passado que me fazem pensar a vida, o universo e tudo mais.

Detesto saber do futuro. Fico ansiosa para que ele chegue, claro. Fico muito nervosa para saber o que vai acontecer sobre coisas e pessoas que quero muito bem e que quero por perto. Até passo vergonhas por conta disso, mas prefiro toda a minha angústia do que saber o que acontecerá. Até porque odeio definições vai acontecer isso, as coisas são assim, sempre foram, sempre serão. Me diga isso e lutarei com a vida para provar-te o contrário. Meu destino sou eu.

Ontem infelizmente a televisão estava ligada e tive que assistir o fantástico. Pois me apareceu um robô com inteligência artificial, e querem saber? Eu acho isso uma merda. Com o r mais arrastado que possuo de meu quase paraibanismo, eu acho isso uma m-e-r-d-a. Dez minutos de entrevista com cientistas, com o próprio robô, sobre a possibilidade de se viver duzentos anos e tomar injeções que renovem seu DNA, e como não será preciso tentar ser saudável se alimentando daquilo que a terra dá, e eu gritando dentro de minha cabeça DISTOPIA!

Deus me livre de eu viver no Admirável mundo novo. De viver duzentos anos. De ser fisica ou mentalmente eterna. Quero, sim, ser eterna: em minhas palavras, em meus estudos, em meus aprendizados, ensinamentos, bens materiais relativos a meu trabalho e sentimentos. Mas nunca quero viver para sempre. Nunca quero viver duzentos anos. O caminho da vida é a morte. E o homem busca se artificializar. Acho isso horrível. Não compreendo o dinheiro gasto com essas pesquisas. Nem com a possibilidade de se mexer em um feto para evitar certas coisas que podem nascer com ele. Porque compreendo más formações etc., mas bem sabemos que quem tem dinheiro tem poder, e se quiserem mexer num feto para mudar cor de olhos, de corpo, textura de cabelo, data de nascimento, capacidade cerebral, tudo pode acontecer. Essa parte do feto foi discussão levantada em um grupo de filosofia sobre ética.

Pois bem. Também tenho horror a máquinas do tempo. Viajar para passado ou futuro. Isso acaba com a história. Você voltar fisicamente ao passado e mudar uma cena é como derrubar uma peça de dominó em uma fileira. Criança adoraria viajar no tempo e eu só digo "que horrível!", e comento, para reflexão, sobre a cena do De Volta para o Futuro, onde Marty McFly passa a sumir da fotografia da família junto dos irmãos porque impediu, quando estando no passado, o encontro e apaixonamento de seus pais. É pesado. Claro que o mundo muitas vezes é uma bosta, mas poderia ser pior. Melhor também, mas a história é o que se ajeita aqui se bagunça ali, e assim caminha a humanidade.


oh no
Então, respeito a leitura aleatória e quase impositiva da minha mão. Mas o que faço com as informações obtidas é escolha minha, não posso julgar ninguém previamente, evitar situações porque alguém me alertou de algo muito antes de acontecer, nem ficar com isso em mente e tomar decisões a partir disso. Camilo acreditou piamente (porque queria acreditar) que estava tudo bem, porque assim disse A Cartomante. Aconselho a leitura aqui, no domínio público. São 8 páginas, para quem se importa tanto assim com quantidade de texto. Há também a maldição de Laio, pai de Édipo. Prefiro não saber e decidir o que tiver que decidir em seu devido tempo. É como signos, acredito, mas não sigo o horóscopo do dia, porque não se trata disso. Nem vivo em função disso. Não é questão de acreditar ou não naquele senhor, ou dizer que ele está errado. Até porque ele não disse para eu fazer nada. É mais dizer o que faço a partir desse ponto. E que vou fechar minhas mãos sempre que andar próxima a alguém que queira puxar assunto.

Mentira nem to com raiva, mas o Bruce Lee é lindo

“rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo”
Não posso dizer que concordo ipsis litteris pois ainda estou lendo, porém esse livro é maravilhoso. E escrito numa velocidade que considero a minha de ser.

P.S.: esse post nada tem a ver com Dr. Who. A série, por mais que não assista, é legal. E a cena do Van Gogh makes me cry (e o ator é lindo).


o modezu
P.S. 2: amo buracos negros, de minhoca, física quântica. Me indiquem textos e vídeos sobre. Adoro ficção científica também, nada me impede. Como disse, meu destino sou eu, e nesse caso meus gostos também, obviamente.

P.S. 3: falei de fones de ouvido, e de Laio. Me veio em mente esta música. Coincidência? Acho que não.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Ainda tenho em mim todo o sentimento do mundo

Henri de Toulouse-Lautrec - The Hangover (Suzanne Valadon), 1888.
Achei que não gostava de poesia. Achei que odiava poesia. Mas conheci Neruda. Conheci Pessoa. Até aí tudo bem. Contudo, conheci Leminski e pensei: "nossa, que cara chato".

Então tem o Graciliano. Nordestino como meus pais, tios e avós. E o alagoano que se filiou ao PCB há 72 anos disse em suas Memórias do cárcere:
Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões.
Essa frase desse não-poeta está tatuada em minha alma. Porque sou e estou apaixonada, todos os dias, no bom e no mau sentido da palavra. No sentido de Camões.

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?


E parece-me que a poesia só surte efeito quando você está dentro dela, vivendo-a, com o peito rasgado, ferido, e a cabeça quente, fervendo, derretendo, escurecendo as vistas.

Então hoje (23 de agosto) o almoço na fundação para a qual trabalho foi temático. As crianças assistidas pela fundação, e em parte pelo museu da fundação (sou mais ou menos professora, quando nunca, depois de grande, quis ser, e ainda bem que bebi dessa água que não beberia), fizeram trabalhos comoventes sobre a região Sul do país. A comida também fazia questão de lembrar o cotidiano sulista, talvez com estereótipos, mas pulemos a parte da comida do corpo direto para a comida da alma:

Estava lá, aquele que eu não aguentava mais ver estampado em páginas hipsters do facebook com seus versos burgueses paulistas mal feitos (da página, no caso, e não o artista em si), o tal do Paulo. Não só ele, mas a adaptação de sua obra em obras dos meus pequenos - que na verdade são mais altos que eu, no auge dos seus 13 anos. Além disso, seus versos, suas visões de mundo em poucas palavras, que eu, com tantas palavras ainda consigo conservar o meu silêncio e ser um mistério para mim mesma.

Releituras dos jovens

Reclamei aqui algumas vezes sobre minha dificuldade cada vez maior de expor sentimentos, que acontecia na mesma proporção em que me era cada vez mais fácil expor ideias. Um amigo disse que é porque na adolescência a gente só sabe dizer o que sente, porque só sente e pouco faz, profissionalmente falando. Na maturidade ocorre o contrário: nos dedicamos ao profissional e o sentimental vai enrijecendo, como uma máquina velha, deixada no canto para oxidar e criar teias.

Como sou uma pessoa carregada de memórias e nostalgia, e o afeto que sinto germina por essas vias, consegui reviver pedaços gostosos e dolorosos em mim neste último mês. Por ter estado apática nos últimos anos, essa re-vida foi algo apocalíptico como o Eclipse do Lado Escuro da Lua. Agora parece que abri o peito novamente, depois de um tempo mergulhado na racionalidade e nos sentimentos de rancor, culpa e pena. Por falta de costume, estou sem jeito, dolorida, cansada, desesperada, e cinco minutos depois estou serelepe, sorrindo, gargalhando - de euforia e desespero -, choramingando (porque não consigo mais - ainda - chorar direito {parece que consigo sim, de soluçar, aconteceu}), pensando, suspirando, falando sozinha.

Tanto pedi e busquei ter o coração batendo forte por tudo que faço e que me é caro, para me sentir viva, que me veio retumbar no peito algo além de minha capacidade física, algo que não cabe em 1,57 de altura, nem mesmo numa mente que se ocupa dezessete horas por dia.
Mesmo que me aperte essa sensação sem nome
Ou que me faça engolir a seco a minha sede é de...

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Esta tarde a trovoada caiu

John William Waterhouse - Miranda (the Tempest), 1916
Aconteceram umas coisas nas últimas duas horas que atormentaram completamente meus sentidos, e foi um combo de situações abstratas desagradáveis.

Há exatos dez anos morreu meu avô materno. Tive, na vida, pouco contato com ele, e ações de familiares próximos me afastavam de vovô de maneira criminosa, coisa que sempre soube, mas como era criança, não sabia me defender e/ou me impôr. Não chorei sua morte. Liguei meu mp4 em duas músicas ad infinitum por dias, noites, madrugadas: GNR - Don't cry e John Frusciante - The past recedes.

Há exato um ano aconteceu o golpe. Foi uma voadora nos peitos, né. Politicamente me abstenho de dissertar sobre, é muito desgastante. Mas é também uma lembrança ruim, não só para mim, sem dúvida.

Hoje abri uma página e vi algo que não deveria ter visto. Sim, tudo isso tem conexão, mas são coisas que não convém detalhar. O que vi se assemelhou com o que vejo no espelho todos os dias e talvez, de algum modo, eu tenha compreendido bad trips em frente ao mesmo objeto. A memória para mim é a coisa mais importante, é o que comprova a existência. Me ver possivelmente confundida em outras memórias, que não são minhas ou de mim me causou náusea e desespero (sou muito desesperada, todos os dias, mas isso doeu mais), porque se não reflito a mim mesma para quem me enxerga, ou seja, se sou confundida, se sou uma cópia, se sou um produto, se sou um padrão, o que sou eu, se não sou eu quem transpareço? Qual é o sentido de não sermos nós?

Hoje arrebentei em algo que alguém pode chamar de choro, mas não é dos meus choros habituais. Costumava chorar como um bebê, com rios de lágrimas, soluços, nariz escorrendo, bocão-de-pá escancarado, caretas. Hoje os olhos ameaçam uma parca umidade, uma semi-careta se faz, e tudo se resolve tão rápido quanto um bocejo, sem líquido algum escorrer pelos olhos. O Paulinho da Viola (composição de Max Bulhões e Milton de Oliveira) em cada palavra conseguiu descrever o que houve, o que há, o que tem para hoje. Chorei por uma música que em toda a minha vida odiei, e de repente vi que se não tinha eu ali, agora está tendo, e parece que estou gostando. Não chorei pelas palavras - que acabo de descobrir e pensar muitos palavrões, porque como é que pode ser exatamente isso? -, mas pelo primeiro acorde, porque como eu disse, odiava essa música, mas instrumental é outra coisa.

Me sinto com 15 anos novamente. O que me lembra de vovô, era essa a idade que eu tinha quando ele faleceu. Era essa a idade que eu tinha quando ouvi The past recedes como se fosse a única música existente, e o passado parece que retrocedeu. É essa música que fui bisbilhotar a letra e de repente vi uma frase 90% semelhante a uma que eu mesma criei agorinha, antes do almoço, para poder explicar em palavras e imagens o que estou sendo hoje.

Me comunico por gifs e memes. Desde o ensino médio dizem que eu sou a própria representação de um emoji/gif em forma humana, porque minhas reações são claras e exageradas. Então, como não sou poeta, pensei no seguinte: "uma gota de veneno que transforma o oceano" - e imaginei uma animação de uma gota negra caindo lentamente no infinito azul do mar, e se espalhando por todo ele. Uma animação feita pelo artista do Pink Floyd The Wall (e da animação Hercules). O oceano são todos os meus sentimentos, e uma gotinha infima de veneno (maus pensamentos) se alastra neles todos, me deixando mal; e às vezes é tao pequena a gota que nem sei o que exatamente ela é que me fez tão mal assim. Quando li The past recedes, encontrei E cada gota do mar é o oceano inteiro. A imagem, que infelizmente não tenho capacidade de criar, pode ser substituída pelo videoclipe de Welcome to the machine, com animação do próprio Gerald Scarfe.

Para quem tem mais de 20 anos, essa cena é a cara da abertura da novela A indomada

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega.
O Guardador de rebanhos: IV Esta tarde a trovoada caiu
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)



I am the son / And the heir / Of a shyness that is criminally vulgar / I am the son and heir / Of nothing in particular / You shut your mouth / How can you say / I go about things the wrong way? / I am human and I need to be loved / Just like everybody else does





sexta-feira, 25 de agosto de 2017

1. Green is the colour

Depois do almoço, costumo subir e voltar ao computador, para fazer vários nadas ou me concentrar em pesquisa e afins. Hoje quis um pouco aproveitar o sol, que há dias não aparecia tão gostoso e preguiçoso. Afinal, hoje é sexta-feira, vamos descansar um pouquinho, né?

O museu em que trabalho possui um belíssimo e bem cuidado jardim (principalmente graças ao jardineiro que cumprimento sempre, e que possui um sorriso maior que o meu), com bancos, pé de jasmim-manga, hermas dos fundadores da instituição, camélias, rosas, alguns gatos fugídios, senecio prateado, sabiá laranjeira, e o amor da minha vida de historiadora e brasileira: um pau-brasil de mais de vinte anos de idade.

Já demos aulas sobre a "evolução" da moeda de troca no Brasil, onde lembramos que uma de nossas primeiras foi justamente o pau-brasil. De troca, de exploração, são tantas questões históricas. Mas o que me fez tocar nesse assunto não foi a questão histórica a ser discutida (evito a palavra "problematizar", ela própria é um problema), e sim a possibilidade de dar aulas sobre um Brasil de quinhentos anos, e poder descer as escadarias de um edifício de quase 121 com os adolescentes e dizer: "olhem, isso é um pau-brasil".

Uma publicação compartilhada por Helen Araújo (@centralheaven) em

Ele fica na parte central da ala direita do jardim, por assim dizer. Encostadas nos muros com hera estão outras árvores com florezinhas e frutos, e dá para ouvir muitos passarinhos pra lá e pra cá. Se tem algo que considero minha religião é o silêncio e/ou os sons da natureza e a brisa tornando tudo vivo e não-parado, coisas que combinam muito com meu jeito de ser, já que sou uma pessoa que tem pavor do que é eterno, imutável, paralisado.

Tomei um pouco de sol, fiz umas fotografias, subi para meu posto e comigo subiu o cheiro de canela, que me lembrou momentos que bem sabemos serem aqueles que nos deixam escapar um sorriso involuntário, meio de canto. Abrindo as portas, ouvi um som em flauta doce que precisei perguntar o título da música para a menininha que subia com sua flauta na mão e o professor atrás: "ovelha de maria". "Ok, muito obrigada!" Outros, ainda, arriscavam Asa Branca.

Agora os pequenos estão ali em frente tocando "debaixo dos caracois de seus cabelos". Não gosto de Roberto Carlos (praticamente o detesto), mas existem canções que também involuntariamente mexem com a gente. Me lembro dos cachinhos da minha irmã, quando ela tinha seus 3, 4 anos, e o sorriso sapeca naquele rosto gordinho mais fofo do mundo. E nós com nosso binóculo amarelo observando as aves de rapina nos eucaliptos atrás de casa. A vida não dava pistas de como seria 15 anos depois. Quinze anos...

Enfim. O post não deveria ser tornar o que será visto no parágrafo seguinte. Mas observei as imagens, e pensei: por que não? Há meses quero iniciar o desafio dos 30 dias com música - que já adianto, não serão 30 dias corridos. Então o primeiro desafio é:

1. a song you like with a color in the title (uma música que você gosta com uma cor no título)


Green is the colour of her kind
Quickness of the eye deceives the mind





segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Paint it, black

Num dia muito querido e especial, no fim de uma semana terrível, sonhei que eu morria.

Estava em alguma estação de metrô, esperando na plataforma de frente para onde estaciona a última porta do último vagão. Algo acontecia que eu devia me abaixar, junto com os usuários que me acompanhavam, para não bater a cabeça em uns ferros que vinham em alta velocidade junto com o trem, como se fosse a brincadeira de "vivo ou morto", a mesma lógica.

Assim como no jogo, a gente às vezes erra e morre onde era para viver, ou vive onde era para morrer. Eu morri.

O ferro furou meu crânio e esmagou meu cérebro, não senti dor. Senti o sangue negro escorrendo dentro da minha cabeça, pintando minha visão de preto de uma maneira muito tranquila, onde eu percebia que estava morrendo e não sentia que ia cair, mas me sentia flutuar, como se apenas a minha consciência pairasse sobre o cenário e o corpo não fosse mais nada.

O início dessa música ilustra o líquido escorrendo e pintando tudo de preto. A letra, ilustra meu mês de agosto. Paint it, black.
I look inside myself and see my heart is black
I see my red door and must have it painted black
Maybe then I'll fade away and not have to face the facts
It's not easy facing up when your whole world is black


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Três de um par perfeito (tag: 3 coisas)

Gostaria de não ficar apenas respondendo coisas por aqui, mas a vida está angustiante demais para eu escrever textos que não sejam em minha caderneta vermelha. E como já expliquei, não sei muito bem mais como é escrever sentimentos de forma direta, clara ou interessante.

Lendo o BEDA de algumas blogueiras que sigo*, encontrei essa tag/meme "três coisas", então vou responder rapidinho, porque tem umas questões felizes que talvez me animem nesse mês que detesto tanto (curiosamente, mês do historiador - 19 -, do Animal Farm - 17 -, e do filósofo - 16).

  • 3 coisas que me dão medo:
  1. mariposas
  2. baratas
  3. cogumelos (vivos - lembrando que são fungos)
  • 3 coisas que me dão preguiça
  1. arrumar a minha casa (porém sou organizada fora dela)
  2. sair (moro longe de tudo, sou caseira)
  3. multidões (detesto aglomeração)
  • 3 coisas que eu gosto
  1. ler
  2. trabalhos manuais (de costura a marcenaria)
  3. dançar forró
  • 3 coisas que eu sei fazer
  1. bordar (envolve ponto-cruz, tricot e crochet)
  2. entender até certo ponto a linguagem html e de programação
  3. bolo de laranja
  • 3 coisas que eu não sei fazer
  1. praticar esportes
  2. conversar sobre assuntos corriqueiros
  3. começar atividades cedo para terminar antes do prazo (tudo de última hora, literalmente)
  • 3 assuntos preferidos
  1. história
  2. música
  3. luta de classes
  • 3 assuntos que eu não gosto de discutir
  1. seriados
  2. literatura, filmes e música atuais
  3. política, quando caímos no lugar-comum do reacionarismo brasileiro e sobretudo paulistano, me dá enguio
  • 3 cheiros preferidos
  1. madeira seca queimada (me lembra o sítio de meu avô)
  2. roupa lavada, engomada e que quarou no varal (me lembra sítios num geral)
  3. tinta, querosene, removedor, aguarraz
  • 3 cheiros que eu detesto
  1. perfumes doces e florais (porém amo perfume amadeirado)
  2. fósforo
  3. gasolina (enjôo)
  • 3 melhores comidas
  1. arroz + feijão preto + ovo frito com gema mole e clara tostada + farinha
  2. sopa de feijão
  3. carne/frango/peixe cozido com batatas (batata é uma maravilha, só detesto a palha e as industrializadas, tipo ruffles)
  • 3 piores comidas
  1. muita fritura
  2. industrializados
  3. carnes com gordura, pele e/ou nervos
  • 3 piores redes sociais
  1. twitter (possuo, quase apagando)
  2. facebook (possuo, querendo apagar)
  3. tumblr (adoro o tumblr, mas ele trava demais e não consigo acessar)
  • 3 melhores redes sociais
  1. telegram (com stickers e gifs, nem sinto mais falta do msn)
  2. vk.com (é russo, mistura de facebook com orkut, dá para ouvir música lá dentro)
  3. blogger (vou considerar como rede social)
  • 3 melhores bebidas
  1. café
  2. cachaça (Ypióca e 51 não prestam)
  3. suco de laranja sem açúcar
  • 3 piores bebidas
  1. cerveja
  2. tequila
  3. água com gás
  • 3 coisas que me acalmam
  1. rock progressivo e música clássica/ gregoriana (solos de guitarra, contrabaixo nas notas mais graves, e órgão, de tubo ou não)
  2. árvores e vento
  3. deitar na cama para dormir depois de um dia interminável
  • 3 coisas que levam todo o meu dinheiro
  1. livros
  2. cadernos (parei com as canetas, graças ao bullet journal, agora só lápis)
  3. café
  • 3 coisas em que eu não gosto de gastar dinheiro
  1. transporte privado (a passagem do público já é cara demais)
  2. balada (bar com cover de classic rock ou bar normal com cachaça e cadeiras tá ótimo)
  3. sapatos
  • 3 coisas que me estressam
  1. direita e seus derivados (com opinião sem argumentos sólidos e/ou argumentum ad hominem)
  2. não-interpretação das coisas direito
  3. quando alguém diz para eu fazer algo (ainda mais se já estou fazendo esse algo; paro de fazer só porque "mandaram"fazer) e/ou conselhos não solicitados
  • 3 coisas que eu vou fazer essa semana
  1. trabalhar no sábado
  2. estudar os textos para o tcc
  3. me iludir e ter paranoias dostoievskianas
  • 3 coisas que eu fiz na semana passada
  1. comprei presentes (foi inútil e me arrependo)
  2. dei banho nas cachorras
  3. quebrei meus óculos
  • 3 coisas que quero fazer em breve
  1. ter uma companhia para beber e etc., não que isso seja uma (in)direta para alguém (leia deste modo)
  2. escrever artigos independentes
  3. organizar local de estudo em casa (tá uma zona e me prometo isso há anos)
3 coisas que eu deveria fazer em breve
  1. novos óculos (esperando oftalmologista disponível)
  2. leituras para o tcc (tá difícil sem o item 1)
  3. resolver questões pessoais complicadas que estão me deixando pior do que jamais estive; porém sigo racional
3 coisas que não quero fazer
  1. o item 3 da questão anterior
  2. dizer meus sentimentos para a companhia do item 1 da questão anterior da anterior
  3. continuar tendo redes sociais (me é nocivo, não aguento mais os assuntos, as gírias, as polêmicas, os trendings, a sociedade como um todo, a bolha on-line, a modernidade líquida, o admirável mundo novo)
Infelizmente percebi com essas respostas que me é muito mais fácil elaborar respostas negativas e do que "não gosto", do que dizer sobre aquilo que aprecio e admiro em mim e na vida. Sei que existe, mas a mente vira uma tela em branco na hora de me expressar. Já os rancores, na ponta da língua e pulsando na mente. Foi divertido, no entanto! É quase um planejamento e reflexão do que sou, fui e serei. Quem sabe renove esse texto daqui um tempo e me descubra totalmente diferente do que sou hoje?


He has his contradicting views
She has her cyclothymic moods
They make a study in despair
Three of a perfect pair


* Referência de onde tirei esse meme/tag: Hello Lolla, Vois des fleurs, A life less ordinary.

P.S.: estou sem óculos, atrasada, com fome e cansada de revistar este post. É possível que mais tarde ocorra alguma mudança, então não tratemos (nunca) como opinião formada sobre tudo e sobre o que eu nem sei quem sou.

domingo, 16 de julho de 2017

Liebster award

Regras

Escrever 11 fatos sobre você. ✔
Responder às perguntas de quem te indicou. ✔
Indicar de 11 a 20 blogs com menos de 200 inscritos.
Fazer 11 perguntas aos blogs indicados.
Colocar o selo do Liebster Award. ✔
Linkar quem te indicou: Mia (Wink). ✔

11 fatos sobre mim

1: Amo e defendo todas as ciências clássicas – isso é já uma crítica séria e veemente contra aquela piada desgraçada de internet de “não sei, sou de humanas”. Sou completamente de humanas – curso e trabalho com história, museologia, biblioteconomia e possuo livros em sua maioria de filosofia -, mas minhas melhores notas na escola eram em matemática, que amo também, e que está presente na natureza, no universo, e na música.

2: Amo o silêncio. Tem sido um assunto recorrente essas semanas: como tanta gente se desespera para falar, alto e constantemente, e como fico desesperada em ter que ouvir, quando a única voz que quero ouvir é a minha, dentro da minha própria cabeça, ou nem isso. Apenas o vento. Barulho me deixa irritada, faz com que minha cabeça comece a girar, girar e girar, a pessoa fala um assunto, e desse assunto nada mais me lembro. Não há concentração ou interesse. Existem brigas familiares por incompatibilidade de gênio aqui em casa, infelizmente.

3: Não assisto séries. Já assisti, não consigo mais. Tenho algumas – poucas – que me interessam, mas não tenho paciência de acompanhar. Talvez acompanharia apenas True Detective, que achei acima da média; e The Borgias, porque merece. O resto, ou me irrita o hype - sempre ele -, ou silencio as hashtags no twitter, ou deixo pra lá.

4: Pretendo seguir carreira acadêmica em paralelo com minhas atividades atuais, que são ligadas à pedagogia (coisa que aconteceu por obra do destino, parece). Tenho interesse em pós-doutorado e além, mas adivinhem: detesto o ambiente acadêmico e o elitismo, hierarquia que correm soltos por lá. Fora os problemas internos da educação, que nem vou comentar pois esse post já está muito nervoso quase sem querer.

5: Não sei escrever de maneira poética, sentimental, romântica, fictícia, pessoal. Sabia, na adolescência; parece até que eu era mais corajosa aos 16 anos que aos 25. Tudo que escrevo tem ficado tão sério, que o que de pessoal existe transparece nas referências e no meu desejo de defender aquilo que gosto, ou de ofender aquilo que detesto. Sinto certa saudade da crueza em dizer sentimentos, sem misturá-los com a razão, e sem me importar com vírgulas no lugar certo e sinônimos para palavras recorrentes.

6: Esse ano aprendi a me apresentar em seminários, ou melhorei uns 60%. Mas no último, que apresentei sozinha, eu chorei. Porque era um assunto muito especial, que espero mostrar aqui até dezembro. Posso adiantar que estava citando uma estrofe da música Cidadão: a voz sumiu e veio o choro. Mas aquele choro que nem lágrima sai, de tão complicado.

7: Falando em chorar, fui duas vezes em show de Elba Ramalho. Sou mais fã do , mas não sei o que me dá com aquela mulher maravilhosa que eu choro. Na primeira vez, o motivo se misturava com saudade de mamãe e raiva de um dia muito ruim; na segunda, foi realização, alívio, orgulho, e admiração mesmo. A voz dela é tudo o que a gente ouve e mais um pouco. A danada ainda toca violão e triângulo. Parece que já foi baterista na juventude.

8: Não há lugar nesse mundo que eu ame mais que o Nordeste brasileiro. Me sinto parente de gente que nem conheço e sequer chegarei a conhecer um dia; tenho um breve desgosto por não ter nascido exatamente lá, mas o amor é tão grande que nem dói de verdade. Então alio minha luta de classes com meu nordeste, que tem o céu tão lindo e enorme que parece que está caindo na cabeça da gente. Quem não conhece, caso tenha oportunidade – e luto para que todos tenham oportunidades -, visite. Por favor.

Uma publicação compartilhada por jack passos (@passosos) em

9: Do mesmo modo, sinto a América Latina presente em mim mais do que a ideia patriótica de ser brasileira. Amo meu país, claro. Mas jamais fui patriota. Contudo, aquele negócio no peito da gente, que imagino que os patriotas queiram que a gente sinta, eu sinto pelas terras de língua latina no continente americano.

10: Toda noite sonho com transporte. Não tem absolutamente nada a ver com a atmosfera desse mundo, nem com as cinco horas diárias que passo pra lá e pra cá em São Paulo. Sempre sonhei com transporte, sem nem sair de casa todos os dias. Já sonhei com bairros e estações que inexistem, lojas de comércio, cidades; sempre estou em vagões de trem ou metrô, onde só o nome da estação se equipara à realidade. O restante minha mente inventa – ou viaja para outros mundos, quem sabe. Já dirigi, pilotei avião, estive em vagão de trem do século XIX acendendo lâmpadas incandescentes, tive um piripaque numa estação, criei ligações diretas entre Ipiranga e Pinheiros, e um bairro inteiro na extrema Zona Leste, com direito a visitar vários estabelecimentos. Sonhos recorrentes com papelarias também acontecem, e fantasmas, casarões e livros têm medalha de bronze. Mas eu sonho, todas as noites.

11: Nada de miga, mana, flor, amor, fia: me chame pelo nome. Não acredito em deboísmo, pacifismo, good vibes, #pas e gratidão 🌸. Sobre tudo isso: tô fora, pego meu coração peludo e vou embora.

11 perguntas da Mia

1. Qual livro você gostaria de ter escrito?
Acho que gostaria mais de escrever meu próprio livro do que ter escrito um livro que já existe. Talvez se fosse eu escrevendo qualquer obra que hoje admiro, o sentimento por ela seria diferente, porque eu teria tudo aquilo em mim, os rascunhos, as horas de desespero, cansaço, encheção de saco do editor, críticas ruins dos leitores, gente que interpretou errado. Para tanto, vou deixar um pensamento do David Gilmour; é sobre música, mas é um ponto de vista do lado de lá: qual disco você gostaria de não ter composto? Acho esse pensamento dele muito forte: participou de um dos maiores discos do século XX (nem adianta contestar, ficou 15 anos nas listas da Billboard 200; isso são 917 semanas), mas vai morrer sem saber como é o impacto de ouvir toda a obra pela primeira vez. Porque ele viveu os bastidores e os spoilers musicais todos – que muito fã gostaria de ter vivido, e eu, pelo mesmo motivo dos livros, não gostaria não.

fonte

2. Você tem/teve animais de estimação? Conte uma história sobre ele ♥

Já tive papagaio, galinha, ‘rolinha’, sabiá, pombo, calafate, e agora possuo duas gatas e duas cachorras (Nininha, Bella, Maggie e Nina – a Nina já veio com esse nome, por isso a coincidência com o nome da gata, que é no diminutivo mesmo). Poderia dizer mil histórias sobre elas, mas digo o mais curioso e corriqueiro: Nininha, mãe de Bella, bate nela toda vez que se esbarram. Às vezes lambe, mas só se não tiver humanos por perto. Fora isso, só porrada. As cachorras correm atrás de gatos, menos dessas duas. Morrem de medo delas, especialmente de Nininha, que já apartou uma briga das cachorras batendo em todas elas.

3. Você coleciona alguma coisa? O quê?
Livros. Infelizmente no sentido acumulador da coisa, mas a biblioteconomia tem me salvado. Ganhei muitos livros nos últimos 16 anos, de “descarte” de gente rica do prédio em que meu tio trabalha. Por apego, fiquei até com as obras que não me interessam diretamente, e tenho lutado contra a umidade na minha casa, então está sendo perigoso manter uma coleção tão grande. Vou descartar alguns, e doar outros, em melhores condições. Até porque continuo comprando.

4. Qual é a história do nome do teu blog?
Acredito que tenha sido porque já havia decidido que faria faculdade de História. Então tem toda uma característica de o passado diz coisas, civilizações antigas, pensamentos que foram aperfeiçoados ao longo dos séculos… já tentei mudar de nome quando pensei no velho mundo como a Europa diante do novo mundo, a América. Mas não me adaptei a outro nome de blog. Esse sobrevive desde 2008, com posts arquivados ou expostos.

5. E a história do teu nome? Sabe por que teus pais te deram ele?
Acho que minha tia sugeriu meu nome: Helen Cristina. Seria Juliana, a gosto do meu pai, mas ainda bem que segui sendo a tocha grega, personagem central da Guerra de Tróia, que motivou a briga entre Paris e Menelau. Seria briga pelo poder? Por amor? Alegoria? Não sei.

6. Se você pudesse ressuscitar qualquer figura histórica da humanidade, qual seria?


Marx, 1839, de I. Grinstein, 1961
Marx, 1839, de I. Grinstein, 1961

Marx, diante da sociedade atual. Sinto que poucos de fato compreendem um pouco de seu pensamento. E não é só na direita que devemos pensar, quando falamos a famosa frase "deturparam Marx". Muita esquerda também não colabora.

7. Qual foi o último livro que você leu?
O que é fascismo e outros ensaios, de George Orwell. Percebi com ele apenas uma coisa: preciso ler os autores citados por ele para entender o que está dizendo, porque fiquei um pouco perdida. Mas vale a pena: são relatos ao vivaço do que ele enxergou da intelectualidade durante a II Guerra Mundial.

8. O que você mais tem escutado nos últimos tempos?
Segundo minha last.fm, Vincent Gallo, John Frusciante, Pink Floyd, Black Sabbath, Metallica e Faith no More. Porém não só isso. Os dois primeiros, amo pelo talento e pela inspiração, escrevi um artigo no começo de junho e precisava bastante; ajudou demais. Floyd, porque não há como não ouvir. E as seguintes, porque amo contrabaixo e preciso de um classic heavy metal na minha vida, porque sou dura sem perder a ternura. Ah, e voltei a ouvir Red Hot Chili Peppers; tanto, que foi minha primeira playlist da newsletter, já viu?

9. Numa época de vlogs e newsletters, por que você ainda mantém um blog?
Porque marcou uma época. Porque me faz bem entrar num blog e ver um layout bonito e original, assim como textos interessantes, sejam eles tristes ou divertidos. E se o layout não me agrada ou faz meu computador travar, tenho o feedly como apoio. Por isso, não se esqueçam de ativar o feed/rss no blog de vocês, por favor. Tenho maior apreço por blogs com terminação blogspot.com. É como se fosse uma casa, como se estivesse visitando alguém muito modesta(o) e hospitaleira(o). O estilo de escrita é a marca inconfundível de um blog, mesmo que seu logo constantemente mude. Ainda assim sigo blogs com aparência e conteúdo clichés, quando um post ou outro me interessa.

10. Se você pudesse trocar de lugar com qualquer personagem de livro, filme ou série, com quem trocaria?
Elizabeth Bennet, acho. Porque basicamente meus personagens favoritos são todos uns azarados existencialistas, e já me vejo em atitudes de cada um, principalmente o próprio Dostoiévski; se não isso, são personagens sofredores da época do romantismo que se sacrificam e/ou suicidam por amor. Então seria bom ao menos uma vez ser uma moça inteligente, decidida, estudiosa, que ignorou um homem arrogante, e o fim quem leu/assistiu já sabe, quem não leu/assistiu, descubra.


11. Se sua vida fosse um filme quem seria o diretor?
Ingmar Bergman / Orson Welles / Dario Argento.

O Ingmar consegue mostrar questões da existência muito bem, sem ser óbvio como os chargistas políticos que fazem caricaturas com legenda; é meu diretor de filmes favorito e a morte d'O sétimo selo, e todas as questões levantadas no filme são essenciais para reflexão. Com ele e A flauta mágica tive outro olhar em direção à ópera.

Papageno e Papagena, melhores personagens
O Orson materializou o ambiente de meus sonhos - vide fato 10 - em O processo, com Anthony Perkins. Se fosse um filme surrealista, ou sobre meus sonhos, seria dele.

fonte
Dario Argento é um artista para o terror e para o giallo italiano. Também tem questões sobre a vida em Profondo rosso que pretendo tratar aqui mais tarde. Se meu filme fosse com cor, e com meu lado Dostoiévski e as notas do meu subsolo, meu diretor seria Dario Argento com sua parceria com o rock progressivo para trilha sonora. Anos 1970 e língua românica são meu espírito animal.

David Hemmings, Daria Nicolodi, Dario Argento
Já falei mais ou menos sobre os três diretores, o que mostra que sou condizente comigo mesma.

12. Você tem alguma pequena obsessão - por algum assunto, uma época, um personagem histórico...? Se sim, qual?
Assunto: luta de classes. Sempre tive tendência à contestação, mesmo que, na maioria das vezes, exprimida apenas mentalmente. Quando conheci o comunismo / marxismo, encontrei pessoas que, a despeito do tempo em que viveram e vivem, conseguem traduzir o que tanto questionei a minha vida toda, seja em sentimento, seja em opinião. Sigo estudando o tema, que de todas as questões políticas, é meu carro-chefe.

Época: meados de 1960 e 1970. Psicodelia e rock progressivo nasceram nessa época cheia de ditaduras pelo mundo. A arte se sobressaiu e, para o bem e para o mal, moldou e inspirou gerações. O mal, no caso é quando algo vira ingrediente para o lucro dos capitalistas, quando estes se aproveitam da subversão do jovem ao sistema e reformulam sua linguagem para vender seu produto mascarado de descolado ou, atualmente, desconstruído, explorando o discurso dessas pessoas para benefício próprio. (Estou querendo escrever sobre as bandas que apareceram a partir daí, fora do cenário da contracultura, um modo de empresários se aproveitarem da genuína rebeldia da juventude e usar como marca de bandas a partir do fim dos 1970 e toda a década de 1980, será que escrevo?). Onde podemos ver, na música, tais questões? Welcome to the machine e Have a cigar, entre outras.

What did you dream? / It's alright we told you what to dream / You dreamed of a big star / He played a mean guitar / He always ate in the Steak Bar / He loved to drive in his Jaguar / So welcome to the machine

Personagem histórico: George Orwell. Meu TCC da faculdade foi baseado nele e em A revolução dos bichos. Por mais que possivelmente passemos, futuramente, a discordar um do outro, jamais o esquecerei, esteve comigo num momento importante da vida que foi a realização de um trabalho acadêmico, mesmo que breve. Será meu parceiro [canceriano] em críticas à esquerda e ao sistema sempre.

* Minhas 11 perguntas são as 12 da Mia, achei excelentes e não estou com cabeça para criar perguntas, considerando que há uma semana estou montando esse texto e nada me veio em mente. Também indico a você que está lendo, já que as blogueiras que conheço foram previamente indicadas, e não possuo muita intimidade na blogosfera para tanto. Se responder, me passa o link que lerei, com muito prazer e curiosidade!

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Verão de sessenta e oito

a paz que me dá. fonte
Tinha acabado de sair do ensino médio, então mal conhecia os discos, e se os ouvia era sem muita atenção - não costumo buscar ou saber letras de músicas que ouço, e mesmo ouvindo mil vezes não decoro a letra (inclusive Raul Seixas). Por acaso coloquei Atom heart mother pra tocar num final de tarde, enquanto fazia umas tarefas domésticas. De repente, de distraída passei a prestar atenção na melodia de Summer '68. Tem gente que lembra a primeira vez que ouviu o The dark side of the moon e de como foi o impacto. Comigo foi Summer '68. Tinha certeza de que era especial. E é. Praticamente me lembro do clima e do sol se pondo naquele fim de tarde.

Não sei ainda por qual motivo acabo adorando músicas de despedida de casais espontâneos (ou artista mais groupie/caso de viagem), aconteceu com Free bird no último post, e com Stay, também do Floyd, composta por Waters e interpretada pelo querido Rick (talvez eu saiba, só que para dizer demoraria dias). Mas nem é tanto pela letra (que é de uma delicadeza inexplicável), é pelo Rick, é pelo arranjo, é pelo grave do piano.

Quando criança queria ser três coisas, que eu chamava de PPP (não é Projeto Político-Pedagógico nem - deus me livre - Parceria Público-Privada): Professora, Pianista e Pintora. Consegui mais ou menos dar aulas meio sem querer querendo. Tive horror à licenciatura, mas nunca trabalhei, desde meus 16 anos, num local sem crianças. E ainda bem, as amo e as quero ajudar e compreender. Pintora? Bem, já pintei um quadro que se estragou na chuva e adoro desenho, xilogravura, estudar arte e design, mas nada muito profissional; até o fim da década é possível que me aventure no técnico em comunicação visual. Agora pianista, se Deus quiser, um dia. Preciso.

Enquanto não sei nem toco piano, órgão ou contrabaixo, ouço com a maior fé do mundo minhas canções favoritas, bela e sutilmente doloridas. As do Richard Wright, tecladista do Pink Floyd, são meu xodó. O "disco da vaca", mesmo possivelmente rechaçado pela própria banda, é um de meus favoritos dela. Pela Summer '68 e por ela ter me acompanhado o caminho para a faculdade de 2011 a 2013, pelas ruas de Itaquera de manhã cedo. Por ter comprado o disco original na livraria toda serelepe enquanto meus bebês do Museu Escola escolhiam seus livros favoritos e praticamente corriam por entre as estantes de tamanha felicidade. Pelo final psicodélico da adolescência que tive lá por 2011/12. Pelo cover que fui da banda e fui agradecer o tecladista por tê-la tocado (o Renato Moog é massa demais).

Prometo que começo a escrever mais tecnicamente e com história, fontes, sinopses e indicações, afinal, meu propósito de vida é falar sobre música. Deixa só a inspiração parar de aparecer de madrugada. Enquanto isso, conheçam a LuluBelle e se atentem aos graves do piano, eles são muito importantes.

sábado, 22 de abril de 2017

Simples e livre como um pássaro

os 7 cabeludos topper no encarte de Nuthin fancy, 1975.
Tenho a mania de dizer que esta ou aquela é minha música favorita, tanto que minha last.fm somou 1.383 faixas com o coraçãozinho marcado. Todas elas o são por algum motivo. Aliás: todas as músicas que ouço são ouvidas por algum motivo. Não sei ouvir sem auxílio da memória, de lembranças, e talvez por isso seja tão difícil para mim aceitar lançamentos, e tão fácil amar hoje o que odiava em 1996.

Esse post está saindo antes do que um que deixei em rascunho semana passada, mas imagino que será mais curto e simples, então bora lá.

Em algum momento na minha vida me apaixonei por duas músicas do Lynyrd Skynyrd, ambas do disco que nos ajuda a dizer o nome da banda: Pronounced Leh-Nerd Skin-Nerd (1975). Mas assim: me apaixonei mesmo. Porque, assim como as músicas do próximo post, ou talvez mais, elas me colocam nos eixos daquilo que decidi que sou, fui e vou.
'Cause I'm as free as a bird now
And this bird you cannot change

Free Bird
Aquele tipo de melodia e letra que nos faz observar o horizonte com a vista embaçada lembrando momentos aleatórios da vida, sobretudo da infância, que parecia causar emoções mais puras e intensas. Me lembro de passear com meus pais e, na volta, observar a cidade à noite e sentir um profundo medo da imensidão da vida e acabar caindo no sono. Lembro das promessas da adolescência de nunca, jamais deixar os "adultos" provarem estar certos sobre todas as vezes que me diziam "isso passa", "eu também pensava assim", "as coisas não acontecem desse jeito", "é só uma fase" e n desmotivações e conselhos que eu ouvia engolindo um ódio descomunal que sinto até hoje. Porque, veja bem, sou muito rancorosa (ou, melhor dizendo, minha memória é boa até demais para situações desconfortáveis que lembro limpidamente de angústias desde 1995) e pior (ou melhor): quando me dizem que não posso algo, dou um jeito de poder. Porque não acredito no impossível e não admito que me digam que vida devo levar.

Versão ao vivo com a formação original da banda 3 meses antes do acidente
[observem esse solo de guitarra pelo amor de deus]

Escrevendo aqui me dei conta de certas coisas que me seriam impensáveis na adolescência, que são questões meritocráticas, sociais, políticas, econômicas, e tudo aquilo que discutimos seriamente (ou não) todos os dias. Mas não é bem por aí que gostaria que vissem o que essas músicas me trazem. É bom analisar sob todas as formas, mas a de hoje não é essa. É questão mesmo de quando você se deixa levar pelos outros e se cala para o conforto da família, dos amigos, dos colegas de trabalho, do que é "normal"; de se prender a pessoas e situações pelo que os outros vão achar. Nos calamos em vários momentos da vida, mas há diferença entre se calar apenas por calar, e se calar para fazer suas coisas do seu jeito sem alardes e obter êxito caminhando por atalhos no que for possível, provando assim que aquilo era realizável, etc. É sobre princípios, ideais, e essas coisas.
Oh, be something you love and understand
Simple man
Até porque, sempre tento me lembrar de que a vida é uma só, e se tem uma pessoa que nos acompanha nela 100% do tempo, até a morte, somos nós mesmos. Viver o que o outro espera não faz sentido, nem é saudável. E para eu me dar conta de que ainda sou eu, e poder reavaliar o que fiz e farei, são essas músicas que ouço. São momentos de reflexão e, até o momento, satisfação. Essas duas músicas são como alguém me perguntando se está tudo bem, e eu respondendo com a sinceridade que não tenho para quando sou perguntada: é, está sim. Foi assim que não desisti daquilo que acredito, e em vez de deixar isso pra lá, com tantos péssimos conselhos que existem por aí, eu simplesmente busco maneiras e argumentos para me provar. Para mostrar que sou possível, que sou assim e que quero as minhas coisas assim. Podia melhorar, claro. Mas aí a questão já será mais política e para outro post.


versão de estúdio, 1973

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Ingmar Bergman's Höstsonaten (Autumn Sonata - 1978)






Liv Ullmann

domingo, 12 de março de 2017

Dramas, romance e giallo no último carnaval

Assisti a vários filmes no feriado. Escolhi os títulos despropositadamente: um foi indicação de um site, outro fazia parte dos meus planos porque era o último que faltava para eu ver com trilha sonora do Pink Floyd; outro, ainda, era a última história das três da Jane Austen que li; e o último, simplesmente porque gosto do diretor. Mas eles têm algo em comum, e vou listá-los, indicando a vocês. Gostei de todos, então não esperem notas.

Por ordem de visualização:

2007 - Persuasion (Persuasão)

Por obra do destino, o capitão Frederick Wentworth (Rupert Penry-Jones) retorna à vida de Anne oito anos depois que a família dela a aconselhou a não aceitar o pedido de casamento dele. Ocorre que Wentworth está rico e rodeado de belas mulheres. Anne Elliot (Sally Hawkins) tem que frequentar os mesmos espaços que Frederick, amando-o em segredo por todo esse tempo, e ainda tem de lidar com as dificuldades financeiras de sua família.
Sinopse adaptada do filmow.

Meu primeiro contato com Jane Austen foi com este livro, que contém três histórias. Assisti na mesma ordem em que li. Vi spoilers no youtube e achei que seria terrível - era um vídeo feito por fã com cenas em câmera lenta e trilha sonora ruim como o Keny G, ou a emotional titanic flute -, mas não foi tão ruim assim. Razão e Sensibilidade me encantou mais, e Orgulho e Preconceito é lindo, sobretudo pelo Mr. Darcy (nem vou começar a falar dele); mas Persuasão não chega a ser um filme dispensável. Existe a versão de 1995, com um final melhor, mas não gostei muito da atriz.

1969 - More

Um jovem estudante viaja da Alemanha à Paris, quando aparece em seu caminho uma expatriada norte-americana usuária de heróina. Uma paixão avassaladora e sórdida contamina os dois, e juntos partem para a ensolarada ilha de Ibiza. Alucinações, drogas, amor livre e meditações fazem parte do dia a dia do casal. A trilha sonora foi composta integralmente pelos Pink Floyd e constitui outro ponto alto do filme. 
Sinopse do filmow.


Ja assisti Zabriskie Point de Michelangelo Antonioni e La Vallée, de Barbet Schroeder, que contém musicas do Pink Floyd - Careful with that axe, Eugene, e o disco Obscured by clouds, respectivamente. Estava ouvindo o More por conta de Green is the colour e lembrei do filme, também do Barbet, então assisti. Já vi fã falar mal desses filmes, mas eu gosto, e não por ser fã. Há neste situações que me irritam, mas é o tipo de filme que me conecta a outros espaços.

1972 - La prima notte di quiete (A primeira noite de tranquilidade)

Rimini, início dos anos 70. Daniele Dominici é um angustiado professor de literatura que se envolve afetivamente com uma de suas alunas. Será que esse amor irá preencher o vazio existencial de sua vida? Valerio Zurlini é conhecido, com razão, como o "poeta da melancolia". Este filme inesquecível é um dos seus trabalhos mais melancólicos.
Sinopse do filmow.

Aqui finalmente conheci Alain Delon e prrrrrllllll. Esse foi indicação de filmes sobre vazio existencial.  É uma história que, vista de maneira simples,  talvez pelo tempo tenha se tornado banal, como Janela Indiscreta, por exemplo. Em suas décadas devem ter sido impactantes. Como respeito muito o passado, isso não é problema. Mas tem bons diálogos e citações, questões. Se você acha que o que vem a seguir é spoiler, considere como aviso: esse filme tem tanto cigarro que deve desbancar uma película qualquer de Cheech & Chong (nesse caso é só tabaco). Não que eu me importe, realmente não ligo.

1971 - 4 mosche di velluto grigio (Quatro moscas sobre veludo cinza)

O músico Roberto Tobias está sendo seguido há dias por um homem que não conhece. Ao confrontá-lo num teatro abandonado, acaba matando acidentalmente o desconhecido, e no mesmo momento uma figura mascarada fotografa o crime. A partir de então, Tobias começa a ser perseguido implacavelmente por um vilão que não pretende matá-lo, mas enlouquecê-lo aos poucos com a lembrança da culpa do ato que cometeu. Quando novas vítimas passam a aparecer, as quatro moscas sobre veludo cinza gravadas na retina de uma garota assassinada tornam-se a única pista para desvendar o mistério. 
Sinopse no filmow.

É o terceiro filme da trilogia dos animais, de Dario Argento, atualmente meu diretor favorito. Antes há O pássaro das plumas de cristal e O gato de nove caudas, que vi também esses dias; fiquei muito contente de nele estar o Bud Spencer. Ele mais o Terence Hill participaram da minha infância vendo filmes do faroeste com papai.

Enfim, indico esses quatro filmes com histórias e gêneros distintos (romance, drama, giallo) porque foram sincronísticos para mim. Três deles têm cenas em locais litorâneos parecidos, dois deles a mesma atriz. E não fazia ideia disso. Vou mostrar em imagens:

Escadas, vento e maresia na Inglaterra, Espanha e Itália
Mimsy Farmer