19 de ago de 2015

Aprendendo a procurar

"Conte sobre coisas que você se orgulha de ter aprendido" #GSB

Poderia fazer uma lista de coisas que me orgulho de ter aprendido, mas não sou boa com listas, e não saberia limitar um número de aprendizado. Isso não significa que aprendi infinitas coisas e acumulo conhecimento, me sentindo sábia. Muito pelo contrário: apesar de, sim, ter aprendido muito nesses meus vinte e três anos, não creio que aprendi o suficiente, nem que sou sábia. Mas compreendi Sócrates, com seu "Só sei que nada sei", que é uma frase simples e verdadeira.

Citaria aqui o que aprendi com meu pai, coisas que "normalmente" se considera "de menino", mas que é útil para cada ser humano vivente na sociedade atual, como trocar lâmpadas, torneiras, montar e desmontar coisas com ajuda de parafusos, chave-inglesa, philips, de fenda, martelos, etc. Adoro quando, no museu, preciso mexer com essas coisas em montagem e desmontagem de exposição. É um trabalho manual delicioso e que descansa a mente das teorias.

Ainda em questões manuais, comentaria sobre meu empenho, desde pequena, de aprender a bordar, já que minhas avós não sabem e eu quero ser a avó que sempre quis ter - aquele estereótipo de avó que faz colcha de retalhos e uma canja de galinha, porque sou dessas. Ponto cruz, crochê, tricô, patchwork, e eu já poderia vender minhas artes na praia para custear o mestrado.

Mas o que venho dizer nesse post é algo que me permeia por uma vida inteira, e é um aprendizado que sem o qual não seria quem sou, nem poderia fazer o que faço. Se trata da importância de investigar. Digo que isso é importante para toda a vida - que é única - sobretudo política e historicamente.

"O essencial é enxergar que os documentos e testemunhos 'só falam quando sabemos interrogá-los...; toda investigação histórica supõe, desde seus primeiros passos, que a investigação já tenha uma direção'".[1]

Ensino básico faz acreditar que História é decorar datas e ocasiões importantes, e ainda hoje o currículo é extremamente tradicional (isso não é elogio) e no método de copiar - decorar. Os fatos importantes são arbitrariamente escolhidos: é sempre a história de guerra, dos "grandes feitos" dos "heróis", e consequentemente de seu oposto, os "vilões"; uma história cronológica e metódica, paralisada no tempo (como pode?) e isso é ainda transmitido nos museus (um grande desespero meu, que não sei lidar).

Já a universidade e grandes historiadores desconstroem essa visão caolha dos acontecimentos e busca um equilíbrio e multiplicidade de temas a serem tratados, trazendo protagonistas de todos os lugares e funções, buscando dar voz a quem sempre esteve na margem, ou a quem nem sequer se tinha indícios de existência. A História é metamórfica, está sempre em movimento e podemos dizê-la um prisma por conta das diversas versões (e/ou diversos lados) de um mesmo acontecimento, que devem ser consideradas e estudadas, a fim de se montar um (ou vários) quebra-cabeça, para poder enxergar e compreender o todo.


O dia em que eu não associar algo com Pink Floyd, é porque estarei louca, querida

O principal meio para se obter sucesso é o saber investigar. Porque não é uma simples busca no google, ou numa enciclopédia desatualizada que nos dá caminho e pistas para seguir em frente, mas a curiosidade do indivíduo que busca, sua persistência, e até certa loucura (sabe aquela cena clássica de filmes que personagem A diz para B não ir ao desconhecido e, se B não desobedecesse, não haveria clímax, não haveria história? Pois então!).

"A única generalização cem por cento segura sobre a história é aquela que diz que enquanto houver raça humana haverá história."[2]

O papel do investigador é não se contentar com o que se tem, e saber que sempre haverá algo além, que o achado não é a verdade absoluta, ou verdade verdadeira, pois como haver uma única verdade com tantas visões de mundo? Já se mostrou obsoleta - por mais que ainda muito praticada - a ideia de verdade única, oficial, como se queria com o Positivismo do XIX.


"Visão é significado, significado é história"[3]

True Detective é uma série que já falei aqui, e sua primeira temporada é diferente de qualquer série policial que eu tenha visto. Coloco ela nesse texto por ter tantas dicas de investigação, e um ambiente muito parecido com o que sinto ao historiar. Está longe de copiar textos, decorar datas, saber do que aconteceu em 15 de janeiro de 1999 ou a cor do cavalo branco de Napoleão. É se apegar aos processos históricos, às semelhanças e estranhezas das ações humanas, analisar o que se foi, porque foi, como foi, quando e o que permitiu que tal fato acontecesse.

Filmes de histórias entrelaçadas como os dirigidos por Iñarritu, ou mesmo Crash, podem dar uma ideia de como a história não é apenas linear, muito menos separada de outras histórias. Por isso a importância política e social para a história. Não se vive sozinho, e as consequências dum ato do indivíduo se espalham e respingam no outro.

Se não soubesse a importância da investigação - que me foi provada na hora de criar o artigo de conclusão de curso -, provavelmente eu estaria hoje compartilhando mentiras no facebook, acreditando em políticos que a televisão me injeta na memória, nas falsas correntes, e até montagens mal feitas na internet. Diria bobagens como essas, pois não teria consciência de tais desejos nem de que tantas coisas já aconteceram e não deveriam ser repetidas. A investigação histórica te mostra o caminho que passou, da ação que não deu certo e não deve ou precisa mais ser posta em prática, do que deu certo e pode ser utilizado como exemplo, do que é hoje inovação e pode ser testado.

Vida, nunca te pedi nada, me dá uma biblioteca dessa pfv

Por acaso hoje é dia do historiador, então sincronisticamente escolhi o meu aprendizado mais querido num dia extremamente propício. Há boas chances de eu ter me tornado uma pelos filmes (bobos, se relacionados a outros filmes) de aventura histórica, onde o clímax é justamente a aventura de investigar.

Desejo muita curiosidade e persistência aos colegas de profissão, assim como ética e sede por justiça. Temos o importante papel de reavivar os mortos, de eternizar vidas, mesmo que de maneira abstrata. Somos Dr. Frankensteins a serviço da humanidade que foi, é e será.

[1]: BLOCH, Marc - Apologia da História ou o ofício do historiador (prefácio de Jacques Le Goff)
[2]: HOBSBAWM, Eric - Era dos extremos: o breve século XX 1914-1991. p.16
[3]: True Detective 1x02 - Seeing things

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