21 de jul de 2015

Fruto do mundo

O presente texto atropelou diversas ideias que eu tinha para esta página (com novo layout mais uma vez, inclusive - o que não muda são os porcos) por uma questão totalmente errática do cosmos e uma atitude embaraçosa de minha pessoa, mas isso não vem ao caso. O começo de tudo que escolho dizer a vocês é o seguinte: estava eu no jardim do museu no meio da tarde, bem abaixo de uma árvore de pelo menos dez metros de altura e que é casa de diversas aves, sobretudo maritacas. No instante em que resolvi prestar atenção onde estava sentada veio uma rajada de vento gostosa, daquelas que traz junto um arrepio no coração, e impulsiona nossa mente.

Dez metros é pouco para essa princesa

Pois bem, me vieram questões e comparações à mente, coisas que tenho vez em quando, em momentos aleatórios. Não digo que este seja um texto científico, porque não o é - inclusive nenhum neste blog é, porque aqui não é lugar para isso. E pode ser um texto embaralhando, inclusive porque não me meto na área desde o ensino médio.

Das questões: estava num jardim onde existem somente duas grandes árvores, de fato. Num local curioso: suas raízes infincadas num quadrado minúsculo comparado ao tamanho das plantas, e fora isso e a outra parte que é o jardim, há um grande pátio utilizado como garagem. Para além dos portões, a cidade, com canteiros centrais, árvores aqui e acolá, principalmente dessas que podam as copas em formato de cubo e essas coisas feias. Mas fora isso, a selva de pedra.

Quando crianças lemos quadrinhos, vemos desenhos, estudamos que é bonito ser amiga da natureza. Ser camarada, é uma ajuda mútua o fruto que a planta te dá e o adubo que você presenteia em agradecimento e coisas do tipo. Mas então por que quando crescemos há esse distanciamento? Esse ódio, essa não preferência pelo natural, essa sede pela "civilização", civilização essa que apenas preenche todo o espaço possível com concreto e edificações lucrativas, que impermeabiliza o solo e provoca enchentes e outros graves problemas ambientais - lembrando aqui que ambiente é não apenas a parte verde de um espaço.

Já que citei o museu, acho de bom tom falar um pouco de Manequinho Lopes por aqui. O que sei dele se deve a história oral, alguns objetos em exposição e clippings de jornais, sobretudo de sua coluna Assumptos Agrícolas, n'O Estado de S. Paulo, existente entre 1918 e 1938, ano de sua morte. Época entre-guerras, primeira metade do século XX. Entomólogo, caricaturista e jornalista, ele hoje tem seu nome no Viveiro Municipal que se encontra no Parque do Ibirapuera, e não é por acaso. Combatente das pragas do café e do algodão, ele também remodelou parques de São Paulo e do Rio de Janeiro, trazendo flores a todas as estações e pássaros para esses ambientes, por saber o que, quando, como e onde plantar. Levava consigo um guarda-chuva não importando o tempo, para cutucar canteiros da cidade, certificando-se se estava tudo bem. Preste atenção na imagem a seguir. Veja a data.

Visitem o Museu Vicente de Azevedo para conhecer Maneco

A Encíclica do Papa Francisco, disponibilizada em junho, tem o mesmo viés. São noventa anos entre esses textos, são homens em posições diferentes, são mundos temporal e espacialmente diferentes. Mas o mesmo tema e a mesma súplica, a mesma crítica. Meu dileto Eça de Queirós já fez um belo livro sobre o tema em 1901. A crítica à industrialização desenfreada, o progresso, a civilidade e todos os adereços do personagem Jacinto em Paris e sua volta ao campo português (portanto de volta ao país natal) e modo de vida totalmente diferente. Pode-se dizer que seja só o voltar para sua terra toda a questão do livro, mas me é evidente essa separação do cinza e do verde na obra A Cidade e as Serras. Li na época dos vestibulares e isso já faz um tempo, mas não me esqueço de como foi gostosa a leitura, a descrição dos espaços era quase palpável. Com menos carinho cito também Inocência, do Visconde de Taunay. Romantismo no interior do Brasil, bem do jeito que eu gosto.

Ricardo Siri Liniers

A questão que mais me chamou atenção além de que esse tema não é coisa de O dia depois de amanhã, Protocolo de Kyoto ou Rio 92, mas de outras décadas e até séculos, é que existem diversos tipos e tamanhos de vegetações - e estas nascem e morrem sem muitos de nós termos ideia de como é ver ao vivo e a cores, cheiros e sabores. E sou pessoa urbana, 90% urbana, digamos. Moro num local com resquícios de mata atlântica, que por problemas de políticas públicas perde de tempos em tempos mais chácaras, mais terrenos, porque oras, as pessoas precisam de um lugar para morar e a cidade, o estado o país, não suprem. Mas ainda aqui existem glebas, plantações, pinheiros, etc. Me é normal conviver com esse espaço - que já é quase interior -, mas ainda assim é um relacionamento distante, por mais que fisicamente seja o contrário.

Nos dois anos que morei na Paraíba vivi no brejo paraibano, meus avôs tinham sítios no interior e ali na caatinga quando seco é só terra e arbustos, plantas rasteiras com galhos em mais quantidade que folhas, mandacarus, etc. É lindo, é talvez meu lugar favorito no mundo - aliás, é de fato meu favorito, porque adoro terra, marrom, o clima, o calor. Possivelmente seja tudo isso por nostalgia, porque cresci lá, aprendi a falar e a andar por lá. Mas enfim. Conheço também as Cataratas de Foz do Iguaçu - PR, o caminho para o Vale do Paraíba, para o litoral e só. E ah, plantações de soja e canaviais. Mas vejam só vocês, urbanos como eu: e o cerrado, a mata atlântica de fato, a Amazônia inteira, as estepes, desertos, oásis, florestas temperadas, etc.? (Saudades Geografia) A caatinga já perdeu boa parte de seu território, assim como a mata atlântica e o serrado. Quando li um texto sobre a perda significativa caatinga alguma coisa morreu em mim. Me espantou também a importância das abelhas relacionada com o perigoso caminho da extinção, o impacto que isso causaria. Mas essas são questões técnicas e de outras áreas. É bom estudar presente e futuramente, porque vivemos e viveremos nesse mundo.

Falei sutilmente de morte acima. Minha definição de morte, e eu disse num comentário de blog porque se assemelhava a de uma amiga, é um lugar que me parece nosso planeta virgem, digamos assim. Não destruído e sem criações humanas, apenas eu e esse espaço, com um caminho curvo para a direita e uma montanha na qual a beirada é essa curva, e um campo enorme para eu poder deitar, apoiar a cabeça numa pedra, e no silêncio sentir o vento. Sem falar ou ouvir ninguém, nem mesmo creio que existam outros animais nessa morte idealizada. Eu sinto isso - e sentia muito mais - quando ouço High Hopes. Mas sinto mais ainda, profundamente e sempre, quando ouço Réquiem para uma Flor. Curiosamente as duas músicas falam de natureza, cada uma com seu propósito e suas metáforas, mas a escolha das palavras que remetem o verde é significativa. Vou deixar o videoclipe de High Hopes aqui porque é lindo, e os campos me lembram os campos dessa morte (e é por isso que relaciono com o filme O Sétimo Selo, mas fica para outro texto). Mas sugiro o escutar Réquiem para uma Flor, porque é uma bela e pequena canção, com um poder sensorial imenso.

Não foi um post ecológico ou informativo, nem pretendi que o fosse. São só questões que me vem em mente e fogem como a brisa quando encosta no braço da gente e se vai, para esbarrar em outro braço. Resolvi escrever pela agonia que me dá não registrar sensações importantes, mesmo que de maneira torta ou embaraçada. Não tenho tanta fé na humanidade assim para acreditar que vamos reverter essa destruição de alguma forma, mas pretendo aproveitar o quanto posso enquanto há.

Fruto do mundo, somos os homens

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