devaneios repletos de referências e inúmeras playlists, porque a graça da vida é essa

eternamente grávida de ideias

Helen: eu gosto de escrever. Mas acho brega perfil em 3ª pessoa. Porque eu sou eu. Tenho quase 27, me divido entre São Paulo e Paraíba, presente e passado. Gosto de ler, ouvir, assistir. E cito tudo o que conheci em conversas e apresentações, mesmo que aparentemente não faça sentido.
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2 de nov de 2015

Keith Emerson

Hoje o Keith Emerson faz 71 anos e eu achei bacana começar a finalmente pesquisar mais seriamente o rock progressivo, mesmo que ainda de maneira sutil. Ele ainda faz parte do círculo mais conhecido no prog, que consiste no Pink Floyd, Genesis, Yes, King Crimson e a banda da qual fez parte nos anos 1970: Emerson, Lake and Palmer - ELP.

Photo por Robert Ellis - Emerson Lake & Palmer, Tokyo/Osaka Japão, Julho de 1972
Keith é um tecladista/pianista/organista britânico, precursor no uso de sintetizadores Moog em apresentações. Por conta disso inclusive, foi premiado pelo The Smithsonian Institution (Instituto Smithsoniano)[1] por ser pioneiro na música eletrônica, junto ao Dr. Robert Moog (músico inventor que aperfeiçoou sintetizadores). Grande invento da década de 1960, no 78º aniversário do criador do Moog teve até Doodle do Google.[2]
Esse trambolhão é um sintetizador Moog, e este é o Keith, na década de 1970.
Do Emerson Lake and Palmer (1970-79), meu disco favorito continua sendo o primeiro, e destaco as músicas The Barbarian e Take a Pebble, pelo som que o Keith faz. Ele é influenciado sobretudo pelo jazz e música clássica, e talvez por haver jazz e tudo ser por ali entre os anos 1960-70, me vem uma lembrança muito forte da trilha sonora de Peanuts.


Buscando informações sobre o Keith hoje, descobri sua banda anterior a ELP: The Nice, que durou de 1967-70 e se reuniu novamente no ano de 2002. Como pouco sei da banda, deixo o link do spotify, que tem alguns discos. A música mais buscada - e conhecida, creio eu - até então é "America".

Emerson também está no cinema italiano, como compositor. Dario Argento dirigiu uma trilogia, denominada das mães. O primeiro filme, Suspiria (Mãe dos Suspiros), é de 1977 e tem por trilha sonora outra banda de rock progressivo, a italiana Goblin. O segundo é de 1980, Inferno (Mãe das Trevas). E é o que aproveito para assistir e indicar hoje, tanto por ter trilha composta pelo aniversariante, como por hoje ser El día de muertos/Dia de Finados. O último filme é recente, de 2007: La Terza Madre (Mãe das Lágrimas). Trilha sonora de Claudio Simonetti, tecladista nascido em São Paulo e membro da Goblin.

Conheci ELP entre 2012 e 2013, não me lembro bem o motivo. Mas me lembro de ir à faculdade, sobretudo nos últimos tempos, ouvindo religiosamente o disco primeiro que comentei aqui. São boas lembranças, e é um bom som. Vai ter mais texto da banda e dos integrantes aqui, além de curiosidades. Volto logo, espero que mais confortável pra falar de um estilo que me é tão caro que virou carreira acadêmica.
[1]: Site oficial do Instituto Smithsoniano, instituição educacional e de pesquisa.
[2]Doodle homenageando Dr. Robert Moog e site oficial dos sintetizadores.

23 de ago de 2015

Destruidora mesmo

"Conte alguma história absurdinha da infância (...)" - #GSB

Tenho muitas histórias absurdinhas de infância que com certeza não vou lembrar. Na verdade nem ia escrever nada sobre o tema, mas depois que meu amigo postou o seguinte vídeo no twitter, não tem como, gente.

Esses tempos associei esse "inocente" causo com minhas convicções e gostos de hoje, então a coisa se tornou muito maior do que parecia ser uns anos atrás. 1999, eu tinha 7 anos e cursava meu segundo pré, porque não me aceitaram na primeira série por motivos de eu ser incompatível com a idade mínima para o ensino fundamental.

Me lembro de estar no parquinho da escola observando o prédio, e imaginando o quão seria bacana derrubar aquele lugar. Comentei com uma coleguinha meus planos subversivos: vamos trazer enxadas e machados para destruir essa escola? Mas não conta pra ninguém, tá?

Creio que o cosmos me fez floydiana de berço

Como toda criança para a qual peço segredo, é óbvio que a primeira coisa que ela fez foi contar para a professora na hora que escovávamos os dentes depois do lanche. Minhas lembranças são engraçadas: me imagino telespectadora de mim mesma, então vejo a seguinte cena: a professora, cara a cara comigo, nós duas de perfil para uma segunda eu (a eu atual?) que vê tudo como numa tela de cinema. Levei uma bronca que me fez detestar e temer a professora até o dia da formatura, onde chorei de saudade (e tem foto! sempre tem foto de eu chorando, uma tristeza).

Meus planos frustrados de destruição da ordem e do progresso escolar, fizeram de mim um historiadora leitora de Foucault e fã de Pink Floyd, além de tão crítica do ensino e algumas atitudes docentes que nem os próprios críticos de ensino concordam 100% comigo. Se é trauma, eu não sei, só sei que de alguma maneira nasci com uma veia revoltosa. E é por isso que escolhi essa historinha curta, porque aproveito e indico coisas para conhecimento e infelicidade geral do status quo e do sistema.

Hey! Teachers! Leave them kids alone!: como todo ser humano normal, conheci a banda por The Wall. E até para os fãs mais ferrenhos, que têm aquela música mais estranha como favorita, essa daqui é hino, daqueles de a gente fazer coro e botar a mão do peito, suando pelos olhos. Another Brick in The Wall part 2 critica o ensino de maneira geral, em especial a postura opressora da figura do professor. Curiosamente na faculdade, fiz um amigo utilizar trechos da música num trabalho de pedagogia, sendo que o nosso seminário foi bem depois de um cara aleatório da sala tocar Roberto Carlos no trabalho dele e depois ainda chorou e discursou em homenagem aos professores. Se estraguei a vibe do cara? Provavelmente.

(...)pelo funcionamento de um poder que se exerce sobre os que são punidos — de uma maneira mais geral sobre os que são vigiados, treinados e corrigidos, sobre os loucos, as crianças, os escolares, os colonizados, sobre os que são fixados a um aparelho de produção e controlados durante toda a existência.(...)[1]

Vigiar e Punir: menti quando disse ser leitora de Foucault. Ainda não li com profundidade. Mas manjo dos paranauês dele num geral, e pretendo lê-lo depois da minha maratona de Nietzsche. Quando tiver mais o que dizer, claro que terá textão aqui.

Careful with that axe, Eugene: essa música conheci por conta da cena final de Zabriskie Point, um filme de Michelangelo Antonioni, que pediu ao Pink Floyd algumas composições para o filme. Nele, o nome é outro. É de 1970 e tem diversas versões, no Live at Pompeii, Relics, Ummagumma. Está aqui porque também cita machados. A cena a seguir é a final - que é maravilhosa - portanto cuidado com o spoiler.

[1]: FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir.

19 de ago de 2015

Aprendendo a procurar

"Conte sobre coisas que você se orgulha de ter aprendido" #GSB

Poderia fazer uma lista de coisas que me orgulho de ter aprendido, mas não sou boa com listas, e não saberia limitar um número de aprendizado. Isso não significa que aprendi infinitas coisas e acumulo conhecimento, me sentindo sábia. Muito pelo contrário: apesar de, sim, ter aprendido muito nesses meus vinte e três anos, não creio que aprendi o suficiente, nem que sou sábia. Mas compreendi Sócrates, com seu "Só sei que nada sei", que é uma frase simples e verdadeira.

Citaria aqui o que aprendi com meu pai, coisas que "normalmente" se considera "de menino", mas que é útil para cada ser humano vivente na sociedade atual, como trocar lâmpadas, torneiras, montar e desmontar coisas com ajuda de parafusos, chave-inglesa, philips, de fenda, martelos, etc. Adoro quando, no museu, preciso mexer com essas coisas em montagem e desmontagem de exposição. É um trabalho manual delicioso e que descansa a mente das teorias.

Ainda em questões manuais, comentaria sobre meu empenho, desde pequena, de aprender a bordar, já que minhas avós não sabem e eu quero ser a avó que sempre quis ter - aquele estereótipo de avó que faz colcha de retalhos e uma canja de galinha, porque sou dessas. Ponto cruz, crochê, tricô, patchwork, e eu já poderia vender minhas artes na praia para custear o mestrado.

Mas o que venho dizer nesse post é algo que me permeia por uma vida inteira, e é um aprendizado que sem o qual não seria quem sou, nem poderia fazer o que faço. Se trata da importância de investigar. Digo que isso é importante para toda a vida - que é única - sobretudo política e historicamente.

"O essencial é enxergar que os documentos e testemunhos 'só falam quando sabemos interrogá-los...; toda investigação histórica supõe, desde seus primeiros passos, que a investigação já tenha uma direção'".[1]

Ensino básico faz acreditar que História é decorar datas e ocasiões importantes, e ainda hoje o currículo é extremamente tradicional (isso não é elogio) e no método de copiar - decorar. Os fatos importantes são arbitrariamente escolhidos: é sempre a história de guerra, dos "grandes feitos" dos "heróis", e consequentemente de seu oposto, os "vilões"; uma história cronológica e metódica, paralisada no tempo (como pode?) e isso é ainda transmitido nos museus (um grande desespero meu, que não sei lidar).

Já a universidade e grandes historiadores desconstroem essa visão caolha dos acontecimentos e busca um equilíbrio e multiplicidade de temas a serem tratados, trazendo protagonistas de todos os lugares e funções, buscando dar voz a quem sempre esteve na margem, ou a quem nem sequer se tinha indícios de existência. A História é metamórfica, está sempre em movimento e podemos dizê-la um prisma por conta das diversas versões (e/ou diversos lados) de um mesmo acontecimento, que devem ser consideradas e estudadas, a fim de se montar um (ou vários) quebra-cabeça, para poder enxergar e compreender o todo.


O dia em que eu não associar algo com Pink Floyd, é porque estarei louca, querida

O principal meio para se obter sucesso é o saber investigar. Porque não é uma simples busca no google, ou numa enciclopédia desatualizada que nos dá caminho e pistas para seguir em frente, mas a curiosidade do indivíduo que busca, sua persistência, e até certa loucura (sabe aquela cena clássica de filmes que personagem A diz para B não ir ao desconhecido e, se B não desobedecesse, não haveria clímax, não haveria história? Pois então!).

"A única generalização cem por cento segura sobre a história é aquela que diz que enquanto houver raça humana haverá história."[2]

O papel do investigador é não se contentar com o que se tem, e saber que sempre haverá algo além, que o achado não é a verdade absoluta, ou verdade verdadeira, pois como haver uma única verdade com tantas visões de mundo? Já se mostrou obsoleta - por mais que ainda muito praticada - a ideia de verdade única, oficial, como se queria com o Positivismo do XIX.


"Visão é significado, significado é história"[3]

True Detective é uma série que já falei aqui, e sua primeira temporada é diferente de qualquer série policial que eu tenha visto. Coloco ela nesse texto por ter tantas dicas de investigação, e um ambiente muito parecido com o que sinto ao historiar. Está longe de copiar textos, decorar datas, saber do que aconteceu em 15 de janeiro de 1999 ou a cor do cavalo branco de Napoleão. É se apegar aos processos históricos, às semelhanças e estranhezas das ações humanas, analisar o que se foi, porque foi, como foi, quando e o que permitiu que tal fato acontecesse.

Filmes de histórias entrelaçadas como os dirigidos por Iñarritu, ou mesmo Crash, podem dar uma ideia de como a história não é apenas linear, muito menos separada de outras histórias. Por isso a importância política e social para a história. Não se vive sozinho, e as consequências dum ato do indivíduo se espalham e respingam no outro.

Se não soubesse a importância da investigação - que me foi provada na hora de criar o artigo de conclusão de curso -, provavelmente eu estaria hoje compartilhando mentiras no facebook, acreditando em políticos que a televisão me injeta na memória, nas falsas correntes, e até montagens mal feitas na internet. Diria bobagens como essas, pois não teria consciência de tais desejos nem de que tantas coisas já aconteceram e não deveriam ser repetidas. A investigação histórica te mostra o caminho que passou, da ação que não deu certo e não deve ou precisa mais ser posta em prática, do que deu certo e pode ser utilizado como exemplo, do que é hoje inovação e pode ser testado.

Vida, nunca te pedi nada, me dá uma biblioteca dessa pfv

Por acaso hoje é dia do historiador, então sincronisticamente escolhi o meu aprendizado mais querido num dia extremamente propício. Há boas chances de eu ter me tornado uma pelos filmes (bobos, se relacionados a outros filmes) de aventura histórica, onde o clímax é justamente a aventura de investigar.

Desejo muita curiosidade e persistência aos colegas de profissão, assim como ética e sede por justiça. Temos o importante papel de reavivar os mortos, de eternizar vidas, mesmo que de maneira abstrata. Somos Dr. Frankensteins a serviço da humanidade que foi, é e será.

[1]: BLOCH, Marc - Apologia da História ou o ofício do historiador (prefácio de Jacques Le Goff)
[2]: HOBSBAWM, Eric - Era dos extremos: o breve século XX 1914-1991. p.16
[3]: True Detective 1x02 - Seeing things

21 de jul de 2015

Fruto do mundo

O presente texto atropelou diversas ideias que eu tinha para esta página (com novo layout mais uma vez, inclusive - o que não muda são os porcos) por uma questão totalmente errática do cosmos e uma atitude embaraçosa de minha pessoa, mas isso não vem ao caso. O começo de tudo que escolho dizer a vocês é o seguinte: estava eu no jardim do museu no meio da tarde, bem abaixo de uma árvore de pelo menos dez metros de altura e que é casa de diversas aves, sobretudo maritacas. No instante em que resolvi prestar atenção onde estava sentada veio uma rajada de vento gostosa, daquelas que traz junto um arrepio no coração, e impulsiona nossa mente.

Dez metros é pouco para essa princesa

Pois bem, me vieram questões e comparações à mente, coisas que tenho vez em quando, em momentos aleatórios. Não digo que este seja um texto científico, porque não o é - inclusive nenhum neste blog é, porque aqui não é lugar para isso. E pode ser um texto embaralhando, inclusive porque não me meto na área desde o ensino médio.

Das questões: estava num jardim onde existem somente duas grandes árvores, de fato. Num local curioso: suas raízes infincadas num quadrado minúsculo comparado ao tamanho das plantas, e fora isso e a outra parte que é o jardim, há um grande pátio utilizado como garagem. Para além dos portões, a cidade, com canteiros centrais, árvores aqui e acolá, principalmente dessas que podam as copas em formato de cubo e essas coisas feias. Mas fora isso, a selva de pedra.

Quando crianças lemos quadrinhos, vemos desenhos, estudamos que é bonito ser amiga da natureza. Ser camarada, é uma ajuda mútua o fruto que a planta te dá e o adubo que você presenteia em agradecimento e coisas do tipo. Mas então por que quando crescemos há esse distanciamento? Esse ódio, essa não preferência pelo natural, essa sede pela "civilização", civilização essa que apenas preenche todo o espaço possível com concreto e edificações lucrativas, que impermeabiliza o solo e provoca enchentes e outros graves problemas ambientais - lembrando aqui que ambiente é não apenas a parte verde de um espaço.

Já que citei o museu, acho de bom tom falar um pouco de Manequinho Lopes por aqui. O que sei dele se deve a história oral, alguns objetos em exposição e clippings de jornais, sobretudo de sua coluna Assumptos Agrícolas, n'O Estado de S. Paulo, existente entre 1918 e 1938, ano de sua morte. Época entre-guerras, primeira metade do século XX. Entomólogo, caricaturista e jornalista, ele hoje tem seu nome no Viveiro Municipal que se encontra no Parque do Ibirapuera, e não é por acaso. Combatente das pragas do café e do algodão, ele também remodelou parques de São Paulo e do Rio de Janeiro, trazendo flores a todas as estações e pássaros para esses ambientes, por saber o que, quando, como e onde plantar. Levava consigo um guarda-chuva não importando o tempo, para cutucar canteiros da cidade, certificando-se se estava tudo bem. Preste atenção na imagem a seguir. Veja a data.

Visitem o Museu Vicente de Azevedo para conhecer Maneco

A Encíclica do Papa Francisco, disponibilizada em junho, tem o mesmo viés. São noventa anos entre esses textos, são homens em posições diferentes, são mundos temporal e espacialmente diferentes. Mas o mesmo tema e a mesma súplica, a mesma crítica. Meu dileto Eça de Queirós já fez um belo livro sobre o tema em 1901. A crítica à industrialização desenfreada, o progresso, a civilidade e todos os adereços do personagem Jacinto em Paris e sua volta ao campo português (portanto de volta ao país natal) e modo de vida totalmente diferente. Pode-se dizer que seja só o voltar para sua terra toda a questão do livro, mas me é evidente essa separação do cinza e do verde na obra A Cidade e as Serras. Li na época dos vestibulares e isso já faz um tempo, mas não me esqueço de como foi gostosa a leitura, a descrição dos espaços era quase palpável. Com menos carinho cito também Inocência, do Visconde de Taunay. Romantismo no interior do Brasil, bem do jeito que eu gosto.

Ricardo Siri Liniers

A questão que mais me chamou atenção além de que esse tema não é coisa de O dia depois de amanhã, Protocolo de Kyoto ou Rio 92, mas de outras décadas e até séculos, é que existem diversos tipos e tamanhos de vegetações - e estas nascem e morrem sem muitos de nós termos ideia de como é ver ao vivo e a cores, cheiros e sabores. E sou pessoa urbana, 90% urbana, digamos. Moro num local com resquícios de mata atlântica, que por problemas de políticas públicas perde de tempos em tempos mais chácaras, mais terrenos, porque oras, as pessoas precisam de um lugar para morar e a cidade, o estado o país, não suprem. Mas ainda aqui existem glebas, plantações, pinheiros, etc. Me é normal conviver com esse espaço - que já é quase interior -, mas ainda assim é um relacionamento distante, por mais que fisicamente seja o contrário.

Nos dois anos que morei na Paraíba vivi no brejo paraibano, meus avôs tinham sítios no interior e ali na caatinga quando seco é só terra e arbustos, plantas rasteiras com galhos em mais quantidade que folhas, mandacarus, etc. É lindo, é talvez meu lugar favorito no mundo - aliás, é de fato meu favorito, porque adoro terra, marrom, o clima, o calor. Possivelmente seja tudo isso por nostalgia, porque cresci lá, aprendi a falar e a andar por lá. Mas enfim. Conheço também as Cataratas de Foz do Iguaçu - PR, o caminho para o Vale do Paraíba, para o litoral e só. E ah, plantações de soja e canaviais. Mas vejam só vocês, urbanos como eu: e o cerrado, a mata atlântica de fato, a Amazônia inteira, as estepes, desertos, oásis, florestas temperadas, etc.? (Saudades Geografia) A caatinga já perdeu boa parte de seu território, assim como a mata atlântica e o serrado. Quando li um texto sobre a perda significativa caatinga alguma coisa morreu em mim. Me espantou também a importância das abelhas relacionada com o perigoso caminho da extinção, o impacto que isso causaria. Mas essas são questões técnicas e de outras áreas. É bom estudar presente e futuramente, porque vivemos e viveremos nesse mundo.

Falei sutilmente de morte acima. Minha definição de morte, e eu disse num comentário de blog porque se assemelhava a de uma amiga, é um lugar que me parece nosso planeta virgem, digamos assim. Não destruído e sem criações humanas, apenas eu e esse espaço, com um caminho curvo para a direita e uma montanha na qual a beirada é essa curva, e um campo enorme para eu poder deitar, apoiar a cabeça numa pedra, e no silêncio sentir o vento. Sem falar ou ouvir ninguém, nem mesmo creio que existam outros animais nessa morte idealizada. Eu sinto isso - e sentia muito mais - quando ouço High Hopes. Mas sinto mais ainda, profundamente e sempre, quando ouço Réquiem para uma Flor. Curiosamente as duas músicas falam de natureza, cada uma com seu propósito e suas metáforas, mas a escolha das palavras que remetem o verde é significativa. Vou deixar o videoclipe de High Hopes aqui porque é lindo, e os campos me lembram os campos dessa morte (e é por isso que relaciono com o filme O Sétimo Selo, mas fica para outro texto). Mas sugiro o escutar Réquiem para uma Flor, porque é uma bela e pequena canção, com um poder sensorial imenso.

Não foi um post ecológico ou informativo, nem pretendi que o fosse. São só questões que me vem em mente e fogem como a brisa quando encosta no braço da gente e se vai, para esbarrar em outro braço. Resolvi escrever pela agonia que me dá não registrar sensações importantes, mesmo que de maneira torta ou embaraçada. Não tenho tanta fé na humanidade assim para acreditar que vamos reverter essa destruição de alguma forma, mas pretendo aproveitar o quanto posso enquanto há.

Fruto do mundo, somos os homens

15 de jul de 2015

13 discos de 13 bandas de rock - 8 a 13

8. Raul Seixas - Krig ha, bandolo! (1973)
Eu disse ontem que gosto de começos. E esse é um começo: primeiro disco solo de Raulzito, e é destruidor mesmo! Não tem uma música que eu não goste de Raul, que por acaso também é um pedaço de mim desde que me entendo por gente. De fato, devo ouvi-lo por influência de papai desde os quatro anos de idade. E falando em papai e Krig ha, quando ele voltava da casa da minha tia na rua de cima era sabido por todos porque ele cantava no quintal EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEU SOU A MOSCA bem desse jeito, e eu já era grande quando descobri que era nada mais do que Raul.

Tenho muita história raulseixista pra contar, então não vou me estender muito. O fato é que adoro esse disco, tem a maravilhosa Ouro de Tolo que é tão saborosa quanto os livros de Orwell e Huxley, porque nos conta tanto de como a sociedade é. Quando você crescer é mais sutil e irônica (ou sarcástica, nunca sei distinguir), mas já é de anos depois. Tem Metamorfose Ambulante, que é conhecida de todos e a Globo adora postar se fingindo de boazinha mas com um je ne sais quoi de falar dele em um desagradável tom de troça. Bom, graças ao Giannazi dia 21 de agosto é dia oficial de passeata em homenagem a Raulzito em São Paulo. Bora!
9. Led Zeppelin - Led Zeppelin (1969)
Led é a única banda que me lembro de ouvir todas as músicas e gostar de todas, por mais que não seja uma das minhas cinco bandas favoritas. É maravilhosa mas não necessita ser favorita para ser reconhecida.
Nesse disco não tem Going to California (que me lembra praia, pois fui pra praia uma manhã ouvindo encantadora canção), Tangerine (que já desenhei), Immigrant Song (que tem uma ótima versão no Shrek II) ou a suprema Kashmir (que conheci na novela da Naza), mas reúne pérolas como Good Times Bad Times e Babe I'm Gonna Leave You. O que mais adoro no Plant - e não tenho nada de musicóloga pra saber o que estou dizendo - são suas palavras estendidas na canção (como chama isso tecnicamente?). É inclusive minha parte favorita de Kashmir, lá pelos 4m10. Só mais um pouquinho de Babe, baaabe, baaabe, baaabee...
10. Rush - Permanent Waves (1980)
Não sei se ficou perceptível que esse é o primeiro disco oitentista da lista. Conheci Rush na rádio, e não pude mais esquecer por alguns motivos incomuns (fora outros relacionados diretamente à banda): adoro Everybody Hates Chris, e como o Chris Rock tem um puta bom gosto musical, tem Tom Sawyer num dos episódios. Assim como tem Tom Sawyer na Liga Extraordinária (só não tem Tom Sawyer nesse disco que escolhi), um filme que adoro por motivos de Sean Connery e o melhor Dorian Gray que eu já vi (porque o imagino assim, somente assim) e detesto por motivos de Tom Sawyer e Mina - acho que esse filme merece texto também.
Sempre curti a voz do Geddy Lee, mas sou tão retardada que só esses dias percebi que ele tem as características que mais gosto em músicos que são o seguinte: voz incomum, contrabaixo e teclado. Geralmente essas coisas são em separado, então esse homem é um achado! Mas o que me faz ouvir Rush também é o Neil Peart, que creio que foi o cara que me fez prestar atenção no som da bateria doutras bandas. Conheci pessoas bacanudas por conta de Rush, também. E o que é Jacob's Ladder, camaradas! Ouçam, somente ouçam!
11. Deep Purple - Perfect Strangers (1984)
Me foi complicado escolher um disco do Deep Purple. Ia colocar o Stormbringer porque tenho em vinil e achei muito massa e diferente o som, mas é justo um disco que tem o David Coverdale e não o Ian Gillan. Eu adorei o disco, mas o Ian Gillan é a minha voz favorita, pra falar a verdade. É poderosíssima, vide Child in Time que é minha música querida da banda, por Ian e por Jon Lord. Poderia colocar o The Battle Rages On com sua mística Anya, chegando assim nos anos 1990. Mas Perfect Strangers é o que há. E eu ainda não ouvi Deep Purple o suficiente para ter certeza se é meu disco favorito ou não, mas tem Perfect Strangers, oras!
E vamos deixar claro que é 1984, o ano mais significativo em n aspectos, e queridíssimo por mim em questão de literatura, cinema, etc. e tal. Dar também uma atenção maior a Son of Alerik, que é linda demais.
12. Focus - Focus III (1972)
Foi pensando na lista para esse texto que lembrei como fazia tempo que não ouvia Focus! Falei de dois excelentes flautistas aqui (Peter e Ian), mas quem me fez conhecer o classic rock com esse instrumento, e me chegar nessas reminiscências medievais (como se eu tivesse vivido isso ou soubesse o que é de fato) foi Thijs van Leer. Hocus Pocus é boa? É! Mas Sylvia é o amor de minha vida. E Elspeth of Nottingham, camaradas, olha...
Não tenho muito o que dizer dessa banda, só que dá uma leveza graciosa ouvi-la. É uma experiência e tanto, e confesso que devo explorar melhor essa banda maravilhosa.
13. Mike Oldfield - Tubular Bells (1973)
Todo mundo conhece essa princesinha aqui (e digo no singular porque é uma música só), e não adianta negar! O que muitos não sabem é que é rock progressivo, desconhecem o autor e o tamanho da danada. Fecho a sequência com ela, porque foi minha primeira pisada no solo progressivo.
Era uma da manhã de alguma noite anos atrás, e na Madrugada Classic Rock da KissFM o queridíssimo Rodrigo Branco botou pra tocar metade dela. A metade dela tem por volta de 24-25 minutos. Ou seja: completa tem 49. E foi isso (além de conhecer o som antes de saber que era prog) que mais me conquistou nesse homem. Essa música é mais linda ainda se ouvida com paciência e por completo. E eu sei que você conhece, mesmo você que não conhece quase nada do que postei aqui. Dê play, comprove minha tese!
Leia a parte um desse texto aqui.

14 de jul de 2015

13 discos de 13 bandas de rock - 1 a 7

Corri contra o tempo para pensar no que fazer aqui nesse dia do rock, e decidi postar 13 discos favoritos de artistas diferentes que muito me influenciam nessa vida, na historiografia e visão de mundo. Como falo pra caramba, dividi o post em dois, e provavelmente a segunda parte sai amanhã!
1. Pink Floyd - Live at Pompeii (1972)
Poderia colocar aqui qualquer disco dessa banda que é um pedaço de mim, mas para ser sincera não há animais nem prismas que me façam sentir coisas como o concerto em Pompéia. Primeiro, porque é um local histórico, patrimônio da humanidade. Depois, porque é década de 1970, a minha favorita. A ideia de tocar no meio do "nada" é incrível, e nunca vi tanta sintonia entre esses quatro homens, acho bem equilibrado o tempo de ênfase em cada um. As músicas são bem escolhidas, e só Mademoiselle Nobs é relativamente nova entre todas. São minhas versões favoritas das músicas com muitas versões (A Saucerful of Secrets está aí para provar isso). Preciso ler O Nascimento da Tragédia de Nietzsche para manjar dos paranauês de Apolo e Dionísio, mas arrisco dizer que é 123% dionisíaco: é instintivo e sinto que é um disco muito terreno, pulsante (prestem atenção na intro). Tenho textos e textos a escrever sobre ele, mas já digo que me é o mais sensorial e o que mais mexe comigo, de todos os discos.

Digo que é o melhor momento da banda com base na fonte "eu", porque bem poderia dizer que é o The Dark Side of the Moon (que é unânime pensando num âmbito mundial, o disco ficou quase 15 fucking anos no topo das paradas, e ainda é um dos mais vendidos da história). Mas é o mesmo momento de gravação, tanto que no dvd (Director's Cut) existem capítulos do vídeo que mostram Rick compondo Us and Them e Waters criando On the Run, além de Brain Damage e os solos do Gilmour. Como sou floydiana, os aspectos mais históricos ou técnicos serão mais evidentes com esse disco do que com qualquer outro nesse post (porém bem raso porque faço tudo de cabeça e preciso estudar uns livros e vídeos).
2. Genesis - Selling England By the Pound (1973)
Genesis aparentemente é minha segunda banda de rock progressivo favorita, ainda mais por motivos de: Peter Gabriel. Conhecia a era Phil Collins, mais comercial, novela dos anos 1980, e tal, então desdenhava um pouco. Daí inventei de assistir o documentário 7 ages of rock - que a TV Cultura adora passar todo 13 de julho, por sinal - e no episódio 2: Art Rock, tem a era Gabriel, além de outras bandas progressivas e psicodélicas. Por conta desse vídeo, essa atuação e esse figurino do Peter, eu me apaixonei imediatamente por I know what I like (In your wardrobe). Ouço outros discos do Genesis, e tenho o ...and then there were three... com sua Follow You Follow Me em vinil, mas nada se compara (nada, esse é meu disco favorito da banda da história) com Selling England by the Pound. Desde a capa, até Firth of Fifth, o comecinho de Cinema Show e: It's one o'clock and time for lunch...

O que mais me encanta na era Gabriel é o modo flautista mágico de ser, característica também de Ian Anderson do Jethro Tull. É imprevisível, criativo, me lembra também de outras épocas históricas, e consigo imaginá-lo no meio de uma floresta européia teatralizando suas músicas com esse sotaque maravilhoso, saboroso que só Peter Gabriel tem. E essa dancinha épica aos 11m40s, não posso esquecer de mencionar.
3. Emerson Lake and Palmer - Emerson Lake and Palmer (1970)
Não me lembro, e estou sendo sincera, de como conheci Emerson Lake and Palmer. Tive um momento ultra progressivo pelos idos de 2011-12, talvez seja por aí, e talvez seja por conta de Lucky Man. Mas o negócio é o seguinte: na minha infância eu tinha um propósito PPP (simples): queria ser Pianista, Professora e Pintora. Por que digo isso? Porque de alguma forma meu caminho seguiu para esse lado, com a diferença que: sou licenciada e não estou a fim de dar aulas, desenho porém não pratico, e não toco piano nem nada, mas tenho uma atração por pianos, órgãos, mellotrons, sintetizadores que só não ganham do contrabaixo. Então escolhi esse disco porque piro em The Barbarian e Take a Pebble. Adoro a voz e a leveza de Greg Lake, mas presto atenção mesmo é no Keith Emerson. O jeito que ele toca me permite lembrar de Snoopy e dos melhores anos de Tom and Jerry. Imagino que suas composições e adaptações de composições alheias calham direitinho em ser sonoplastia de desenho animado psicodélico do fim dos anos 1960, começo dos 1970.

Talvez muitos prefiram Tarkus ou outras obras, mas eu fico com essa mesmo, tenho uma tendência a gostar de começos. É um disco lindo e favorito, foi companheiro em muitas viagens à faculdade. Essas versões de The Barbarian e Take a Pebble também são demais. Esse jeito de tocar a segunda música me faz pirar, de verdade.
4. King Crimson - In the Court of the Crimson King (1969)
Conheci King Crimson por meio de Vincent Gallo e Christina Ricci no maravilhoso Buffalo '66. Colocam Moonchild (que é minha favorita, não interessando quem desgoste) numa cena do filme, e fica muito graciosa. Tem Greg Lake, e este é o único motivo para eu ouvir King Crimson com gosto. Os próximos discos são bacanas, mas nada que se assemelhe a esse querido de capa tão expressiva.
Epitaph e I talk to the wind são outras queridas desse disco da idade de papai. Vamos enfatizar Epitaph com esse baixo e esse começo aquecedor e assustador de corações.
5. Yes - Fragile (1971)
Colocaria aqui o Relayer numa boa, porque depois que conheci Soon, é o disco mais ouvido. Mas Fragile é onde conheci Yes, tem Roundabout e Heart of the sunrise. Esta última conheci também com o Vincent Gallo, homem de bom gosto. No mesmo filme, inclusive, no clímax da história. Chris Squire, sinto-me mal por sentir sua falta tão depois.
Como falei de Soon (que é um pedaço da Gates of Delirium e depois virou single[1]) acho bom que vejam o Steve Howe na guitarra havaiana que é um dos instrumentos mais lindos que já vi. Detalhe que Relayer é baseado em Guerra e Paz de Tolstói, e Paz é Soon. O Howe consegue direitinho transmitir a maior calma do universo, chega a entorpecer.
6. Black Sabbath - Master of Reality (1971)
Nem só de prog vivo eu, e sim, foi por acaso que Sabbath caiu no número seis. Comecei a ouvi-los com Iron Man e Paranoid (quem nunca?). N.I.B. tem a melhor introdução que um heavy metal poderia ter, é denso, é baixo, é G Z R (Geezer) Butler. A chuva de Black Sabbath é realmente amedrontadora, assim como a capa, portanto poderia aqui bem ser Black Sabbath de 1970. Mas como estou falando de Master of Reality, aquela Children of the Grave, e sobretudo Embryo, Orchid e Solitude me encantam, é um disco de fato sombrio[2], poderoso e bonito de se ouvir.

Pode ter banda bem mais "a solidão fez de mim gótica trevosa" com aquela coisa toda que a gente vê por aí, som alto, tiozão tr00 e voz super grave e gutural, mas nada tira Black Sabbath do posto de melhor banda de heavy metal que assustava a família tradicional conservadora, crente que eles eram satanistas, enquanto dormiam todos juntos num quarto morrendo de medo depois de ver O Exorcista (leiam a biografia do Ozzy Osbourne enquanto procuro a do Tony Iommi para ler também, recomendo).
7. Jethro Tull - Aqualung (1971)
Chegou a hora do verdadeiro flautista mágico, louco das dorgas, maravilhoso e queridíssimo Ian Anderson. Jethro Tull foi a coisa mais aleatória que achei porque Aqualung era um pedaço da vinheta da KissFM uns anos atrás, e eu ficava louca naqueles segundos progs que se misturavam com Led etc. e tal.
Um dia tive sorte de ouvir o Rodrigo Branco dizendo o nome da bendita banda e aí que ela virou uma banda que sempre me lembro nos meus aniversários, não por Aqualung, mas por Too old to rock and roll, too young to die, porque representa algo que tenho em mim, é um não perder a essência e que a música não deixe de fazer parte de minha vida. Quando tinha outros textos aqui, fiz dois com a temática, porque é muito a dizer (de uma música, agora veja o tamanho desse post com metade dos discos representados).
Continuo muito em breve com os outros seis discos, e me comprometo a pesquisar direito cada um e suas respectivas bandas, porque me parece que minha ênfase historiográfica será o rock progressivo mesmo. Como o dia do roque bebê já acabou, consideremos isso um projeto de semana do rock, que meu prazo se estende. E vamos deixar claro que é possível que eu edite esse texto com muito mais referências (ou não).
[1] "The closing section of "The Gates of Delirium", titled "Soon", was released as a single on 8 January 1975 with an edited version of "Sound Chaser" on the B-side."
[2] "On the tracks "Children of the Grave", "Lord of This World" and "Into the Void", guitarist Tony Iommi downtuned his guitar three semi-tones to produce what he referred to as a "bigger, heavier sound"."