10 de nov de 2014

Eu calço é 35

Quando somos menores de idade a grande esperança é chegar aos 18 e à emancipação familiar. Isso sim é utopia. A família não te emancipará (muito menos a sociedade), e mesmo que você sentir ter declarado independência, é apenas um estado de alienação ou algo do tipo. E quanto mais o tempo passa, mais membros (não necessariamente familiares) alimentam essa dependência forçada e bombardeiam a sujeita da história com questões morais e impondo certo e errado numa visão pessoal, egoísta e totalmente arbitrária. Até lembra aqueles filmes de comunidades no meio dos EUA onde pessoas vivem como colonos de séculos anteriores inventando monstros para que os habitantes não ultrapassem as barreiras da realidade.

Crescer é difícil. E pior ainda quando se há a possibilidade de florescer e atingir altos índices, mas ser podado justamente por quem exige amadurecimento. Existem plantas que não necessitam de interferência externa para viver saudável, só precisam do mínimo: uma terra boa, luz do sol, água, espaço. Certas interferências chegam a ser ignorantes do ponto de vista do cuidado, e acabam por murchar aquele ser vivo. É um problema grave.

Ditar o que alguém deve fazer e que rumos essa pessoa deve tomar na vida é historicamente um problema. "É para o seu bem" muitas vezes é a pior frase a se ouvir, pelo simples motivo da existência do seguinte questionamento: o que se pode considerar meu bem? O meu bem é o que eu considero bom pra mim, ou o que a sociedade impõe como bom pra mim, por questões de costume, políticas, ou puramente de preconceito?

Por exemplo: para mim, o ensino superior está aí para promover a possibilidade de expansão e difusão do conhecimento científico, e criação e/ou refutação de teses que serão propostas de discussão para uma melhor e mais efetiva organização da sociedade. Basicamente, são estudos atrelados a outros estudos que acarretam em mais estudos, presentes e posteriores. Para outros, o ensino superior é simplesmente uma maneira de arranjar um emprego que exige maiores qualificações (e nem sempre é melhor - no sentido de superior, de mais ou menos importante - que outros empregos que exige ensinos médio ou fundamental).

Para essas pessoas, o fato de eu estudar e querer continuar os estudos, é motivo de espanto: "pra quê você vai fazer o enem?" "você já não fez faculdade?" "mas esse curso não tem nada a ver com o anterior" "você não vai arranjar um emprego?" "só estuda, não vive não?", etc. Para mim, o espanto advém justamente dessas questões: "como assim pra quê?" "e daí se já fiz faculdade?" "quem disse que esse curso não tem nada a ver?" "vou arranjar um emprego, justamente estágio nessa área que pretendo estudar" "para mim, estudar é viver". Muitas respostas ficam só voando e se repetindo na minha mente em situações em que me imagino nervosa e distribuindo sermões a torto e a direito.

É claro que eu sei a importância de muitas das coisas que exigem de mim, incluindo estabilidade financeira, melhoria de vida, etc. Mas a maneira que tentam me "proteger" (de mim mesma) é como se me vissem ainda como uma criança que não sabe falar. De fato, eu não sei falar. Só me sinto solta para dizer o que quero quando estou num grupo muito pequeno e quando tenho intimidade. Se eu não falo direito é simplesmente porque estou desconfortável e não confio muito no ouvinte. Mas me proteger de mim mesma não é lá uma atitude muito inteligente. Nem saudável, porque é mexer num vespeiro.

Talvez todas essas questões e essas coisas que não aceito definam quem eu sou, e de que lado estou. O lado dos que não têm voz, dos que não têm vez, dos que não têm liberdade, igualdade, identidade, independência. Os meus movimentos são friamente calculados, já dizia o Polegar Vermelho. E são mesmo.

Creedence Clearwater Revival/Raul Seixas
O título se refere à música Sapato 36 de Raul Seixas.
(1) Quadrinho da Petúnia Pomposa.
(2)Imagem do 9gag.

2 comentários:

  1. Boa reflexão Helen. Acho que já nascemos "podados" e apesar de lutar a vida inteira contra os limites que nos são impostos, buscamos referências o tempo inteiro. Amamos e odiamos esses limites.

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